09 de julho de 2026
Geral

Motociclos, uma preferência nacional

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 5 min

Número de pessoas que aderiram ao uso de motos e ciclomotores em detrimento de carros, circulares e metrô aumentou quase cinco vezes na década de 90.

O mercado de motociclos vem ganhando cada vez mais espaço na disputa pelo bolso do consumidor brasileiro. Anualmente, cresce o número de pessoas que optam por substituir o uso dos carros, ônibus coletivos e metrô pelas motos, ciclomotores, motonetas e até bicicletas.

É o que mostra uma pesquisa elaborada pela ABRACICLO - Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas e Bicicletas. Ela revelou que durante a década de 90 o perfil do comprador de motociclos alterou-se radicalmente.

Enquanto no início da década, em 1.990, comprar um motociclo para substituir a utilização de automóveis, ônibus e metrô era a razão principal para 15% dos consumidores, no ano 2.000 estes passaram a ser os fatores primordiais para 72% das pessoas.

Outro item da pesquisa que demonstra a migração da preferência para os motociclos é a posse de automóvel. Em 1.990, 69% dos que adquiriam um motociclo possuíam pelo menos um veículo, enquanto 31% não tinham. Já no final da década a relação se inverteu, onde 69% das vendas foram feitas para consumidores sem automóveis. Uma amostra disso pode ser notada nos números da própria ABRACICLO. Segundo a associação, de janeiro a julho de 2001 foram comercializadas 413.185 unidades, representando um aumento percentual de 26,5% em relação ao mesmo período do ano passado, quando foram vendidas 326.717 unidades.

Mesmo com a instabilidade econômica do mercado brasileiro nos últimos meses, o desempenho do segmento de motociclos, em julho, foi considerado positivo, com 56.292 unidades vendidas. Embora tenha sido registrada uma retração de 4,3%, comparando-se ao mês anterior (58.760 unidades), o acumulado do ano continua em ritmo de crescimento.

Os números apontam, ainda, uma expansão de 10,7% nas vendas, se comparado ao mês de julho ao mesmo período de 2000.

A boa performance do segmento também foi registrada no mercado externo. Foram contabilizadas no mês de julho 7.157 unidades, o que representa um crescimento de 62% quando comparado a idêntico período de 2000. Na soma total dos primeiros sete meses do ano foram comercializadas 37.080 unidades, 5.155 a mais do que no ano anterior.

Motivos

Em Bauru, cidade que segundo estimativa da 4ª Companhia da Polícia Militar conta atualmente com uma frota de mais de 130 mil veículos, a tendência verificada na pesquisa da ABRACICLO é a mesma. Paulo Rogério, integrante do departamento de vendas da concessionária Honda Super Moto, atesta: O mercado cresceu muito durante os anos 90, batendo recordes de vendas. A pesquisa realmente demonstra a realidade do setor, que está relativamente aquecido, diz ele.

Os motivos para a expansão do segmento são muitos. Para Paulo, os consumidores que optam pelas motos procuram aliar fatores como a economia de combustível, praticidade, manutenção barata e agilidade no trânsito. O perfil desses compradores é o da pessoa que assimila as facilidades e a economia proporcionadas pelas motos, especialmente nos custos com a gasolina, a manutenção e na hora de encontrar algum lugar para estacionar na cidade, avalia ele.

Paulo ressalta ainda que a estabilidade dos preços, os consórcios e a flexibilização do mercado financeiro também ajudaram a alavancar as vendas do setor. Hoje é muito mais fácil se adquirir uma motocicleta. Atualmente pode-se comprar uma moto com entradas extremamente acessíveis e pagar o restante em até 36 meses. Além disso, ultimamente os carros subiram muito mais que as motocicletas, pois chegamos a ficar quatro anos sem reajustar os seus preços, que hoje estão estabilizados, afirma Paulo.

O vendedor Elidio Giacon Júnior, da concessionária bauruense RPM/Yamaha, enfatiza que cerca de 35% de seus clientes estão mudando de condução. De cada 100 motos vendidas, pelo menos 35 são para pessoas que estão substituindo seu veículo. Além disso, mais de 20% nunca tiveram qualquer meio de transporte, diz ele, para depois complementar:

Atualmente há uma verdadeira enxurrada de clientes que estão abandonando o uso de mais de dois carros. Muitos vendem um de seus veículos, ficando com o melhor, e optam por adquirir uma motocicleta. Com isso, a relação custo-benefício é clara, pois troca-se de carros que fazem de 10 a 12 quilômetros por litro por motos que chegam a atingir 40 quilômetros/litro.

Segundo Elidio, alguns clientes que dependem de ônibus circulares para transporte se apegam à relação de que o gasto com esse tipo de condução seria suficiente para pagar as prestações de um consórcio ou financiamento de moto. A economia está acima de tudo. Não há como comparar, por exemplo, o custo de manutenção de um carro com uma moto, que é muito mais barata, conclui o vendedor.

Meio de vida

Mais do que um simples transporte, as motos são utilizadas para o ganha-pão de um número incalculável de trabalhadores.

O gráfico bauruense Marcos Roberto Gonçalves é um desses. Proprietário de uma Honda Today há três anos, vendeu um Volkswagen Voyage pensando em economizar no gasto com combustível. E conseguiu. Com R$ 2,00 no tanque, ando uns três dias de moto. Chegava a gastar R$ 80,00 por mês com gasolina quando tinha o carro. Hoje, dispendo cerca de R$ 20,00 e tenho uma autonomia muito maior de quilômetros para rodar. Além disso, fiz as contas e cheguei à conclusão que também economizaria se deixasse de pegar ônibus todo dia, ressalta Marcos.

O mesmo raciocínio também foi seguido pelo técnico de baterias Elias Marques, de 24 anos. O jovem comprou uma moto há cinco meses e a utiliza basicamente para se deslocar até seu trabalho. Andar de ônibus não compensa. Com ele, gastaria R$ 28,00 todo mês e esse valor é suficiente para eu rodar 30 dias de moto, enfatiza ele.