09 de julho de 2026
Geral

Empresas investem na co-geração

Paulo Toledo
| Tempo de leitura: 9 min

O racionamento de energia elétrica provocou dificuldades para as empresas, que tiveram de investir na co-geração de energia. Em Bauru, a situação pegou algumas de surpresa, enquanto outras já pensavam em formas de reduzir o consumo, até, para baixar o custo de produção. O problema é que os geradores tiveram um aumento de preços desde que foi anunciado o racionamento. Fernando Fernandes, diretor da Clic Energia, consultoria especializada em conservação de energia e implantação de geração própria (co-geração), diz que os equipamentos nacionais, em razão do crescimento da demanda, tiveram uma alta de preços de mais de 100%, enquanto que os importados subiram algo em torno de 20%.

Porém, a situação brasileira foi complicada pela crise de energia elétrica da Califórnia, nos Estados Unidos, que provocou um crescimento de procura por geradores no mercado internacional. Algumas empresas nacionais não conseguiram, por exemplo, financiamentos direto com as fabricantes de equipamentos, que costumam ser mais baratos, por terem sido esgotados por empresas norte-americanas. Daí, foram obrigadas a recorrer a empréstimos menos vantajosos no Brasil, como os do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) que, apesar de serem mais baratos do que os oferecidos no mercado financeiro nacional, ainda estão acima das taxas internacionais.

Nessa esteira, empresas que não podiam sequer pensar em parar a produção, sob pena de terem grandes prejuízos, investiram alto para evitar o pior. A busca é, no mínimo, atingir as metas estabelecidas pela Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica (CGE) o ministério do apagão , evitando o pagamento de multas e cortes programados de energia, como alguns casos levantados pela reportagem, entre o grande número de empresas bauruenses que apostam na co-geração.

A Tilibra, maior fabricante de cadernos do Brasil e terceira da América Latina, está investindo R$ 1,1 milhão para implantação de dois geradores de 1 mil KVA cada um que geram 1,5 mil kW/h de demanda, importados da Caterpillar, que têm a capacidade para manter o funcionamento de toda a fábrica com uma certa folga, já que a carga necessária é de 1,4 mil kW/h.

Pedro Henrique Coube, diretor-superintendente da Tilibra, destaca que a empresa não poderia correr o risco de ficar com a produção parada ao longo da safra, o chamado período da volta às aulas, que está sendo iniciada em setembro.

A decisão pela importação do equipamento se deveu à segurança no cumprimento do prazo de entrega, afirma Fábio Silva, engenheiro de manutenção da empresa.

Coube disse que a Tilibra, no primeiro momento, vislumbrou muitas dificuldades com a meta estabelecida pelo ministério do apagão, pois levava em conta meses de entressafra e a economia, na safra, teria que chegar a 40% em relação ao ano passado, sem contar a implantação de novas máquinas feita pela empresa. Um pedido de liminar estava preparado, quando houve uma mudança que estabelecia a meta móvel para as empresas sazonais. Isso melhorou a situação. Mas, mesmo assim, a Tilibra resolveu investir na geração própria, para não correr o risco de sofrer com apagões não-programados, que poderiam vir por falta de água nos reservatórios das usinas. Os equipamentos começam a operar em setembro, coincidindo com o início da safra.

É claro que a empresa também fez esforços para baixar o consumo, já que racionalizou a iluminação, com a eliminação de 1,4 mil lâmpadas fluorescente da fábrica e redução de consumo em outras áreas, como a troca de fornos elétricos por a gás, na cozinha da industrial.

A previsão da empresa é que o investimento em geradores se pague em 18 meses, com a questão da sobretarifa. Em épocas normais, esse mesmo investimento retornaria apenas em quatro anos.

Garantia

O Jornal da Cidade também optou pela implantação de co-geração por não poder correr o risco de ficar sem energia, o que poderia interferir na produção do jornal, provocando atrasos na impressão e entrega, o que, certamente, descontentaria seus leitores, explica Marco Antônio B. Oliveira, diretor Industrial e de Tecnologia.

Oliveira destaca que uma parada de 30 minutos pode comprometer toda a programação de um dia, já que, além da edição do JC, a empresa faz a impressão da Tribuna Impressa, de Araraquara, na qual o Grupo Cidade tem participação, e vários outros jornais.

Toda essa problemática e mais a crise energética incentivaram a compra de um gerador nacional Atlas Copco, de 180 KVA, num investimento de aproximadamente R$ 150 mil. O equipamento atenderá, também, a Fullgraphics, empresa do Grupo Cidade instalada ao lado do Jornal da Cidade. Oliveira afirma que a opção foi pensando na segurança da não-interrupção do trabalho em razão de falta de energia, pois o JC conseguiu atingir a meta determinada pelo ministério do apagão.

Com a energia custando R$ 0,57 por kW/h, das 18 às 21 horas, no contrato de fornecimento da CPFL, e o custo de geração a R$ 0,19 por kW/h, a expectativa é de que o investimento retorne, em termos de economia, em 18 meses. O equipamento já foi testado e deve ser colocado em operação nos próximos dias.

Antecipação

A busca da racionalização do uso da energia e da economia fez com que a Universidade do Sagrado Coração (USC) tivesse vantagem quando foi anunciado o racionamento. A instituição já estava negociando com a Caterpillar a compra de dois geradores de 1 mil KVA cada um e, por isso, pagou um valor menor pelos equipamentos, fugindo dos reajustes de preços que ocorreram.

A irmã Teresa Ana Sofiatti, coordenadora do Instituto das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus (IASCJ), que administra a USC, não revela o investimento realizado, mas, apesar do projeto ser semelhante ao da Tilibra, o custo teria sido menor, em razão da antecipação.

De acordo com irmã Teresa, desde o ano passado, quando ainda não se falava em apagão, a USC começou um processo de racionalização do gasto de energia. A instituição mantém um contrato com a CPFL que prevê o aumento gradual do consumo. Para ilustrar, no último ano, a Universidade teve um aumento de área construída de aproximadamente 35% e, o fato complicador, em prédios que abrigam clínicas de Odontologia e Fisioterapia, que possuem equipamentos que consomem energia, além de piscina aquecida para o curso de Fisioterapia e uma central de ar-condicionado necessária à manutenção da temperatura exigida pelos aparelhos dos laboratórios. Com isso, a USC está lutando para atingir a meta estabelecida pelo ministério do apagão, enquanto os geradores não entram em funcionamento.

Fabiano Antonangelo Baracat, engenheiro da USC, afirma que a instalação de geradores vai provocar uma economia na conta mensal de energia, já que a Universidade paga valores maiores pelo consumo no horário de pico, das 18 às 21 horas, que também é o de maior consumo na instituição. Assim, torna-se vantajosa co-geração da energia neste horário, o que vai reduzir o valor da conta. O retorno do investimento era calculado em 36 meses. Porém, com o aumento do consumo com a área construída, esse tempo deve ser reduzido.

A instrutura de instalação dos geradores da USC prevê um terceiro conjunto, em razão do crescimento interno da Universidade, nos próximos anos. A operação dos geradores deverá ocorrer no mês de setembro.

Ininterrupta

Na Baterias Cral, explica Luiz Carlos Vaz, diretor industrial, a opção pelo investimento de R$ 400 mil, em três grupos geradores de 450 KVA cada um, se deu em razão da impossibilidade da interrupção de energia elétrica, que é uma matéria-prima para a carga que dura de 24 a 48 horas - das baterias automotivas. Os dois primeiros geradores devem chegar nos próximos dias.

Para atingir a meta, a Cral teria que paralisar a produção por dias seguidos, o que traria grande prejuízo para a empresa. Vaz destaca que estudos mostraram que o investimento poderá retornar em três anos, com a utilização da co-geração no horário de pico, mesmo em tempos de normalidade no fornecimento de energia. Se levar em conta sobretaxas e punições do ministério do apagão, esse tempo tem uma redução.

Vale destacar que, para tentar atingir a meta de consumo, a Cral está passando alguns processos que eram feitos com eletricidade para aquecimento com queima de gás, como os cadinhos de aquecimento de chumbo. Nas crises, nos viramos rápido para buscar soluções, afirmou.

Injeção

A Plasútil, maior fabricante de utilidades domésticas do Brasil, é outra empresa que não pode se arriscar a ter interrupção de energia para não amargar prejuízos. As máquinas de injeção de plástico demoram para aquecer e o desligamento, mesmo que temporário, provocaria perda de matéria-prima e um tempo muito grande para reaquecer as máquinas. Duas horas acabam representando seis horas de paralisação, afirmou o gerente industrial da Plasútil, engenheiro Flávio Maia. A empresa está instalando um gerador de 1 mil KVA, da Caterpillar, que tem condições de fazer funcionar metade da fábrica, explica Maia. O investimento para isso é de R$ 500 mil. O gerador já está na empresa, só faltando a conclusão da obra do local de instalação que leva, inclusive, proteção acústica. A operação definitiva deve começar nos próximos dias.

Com a instalação do gerador, a empresa pretende atingir a meta de consumo determinada pelo ministério do apagão. A utilização será dosada de acordo com as necessidades de economia. O retorno do investimento, segundo Maia, deve acontecer em cinco anos.

Contra a corrente

Mas, se tem empresas investindo alto na compra de geradores para fugir do apagão, há as que estão apostando em não adquirir os equipamentos. É o caso da Tiliform, empresa fabricante de formulários contínuos, que, conscientemente, não realizou a operação.

Ricardo Marques Coube, diretor-presidente da Tiliform, explicou que a empresa realizou atos dirigidos, como forma de reduzir o consumo. Além disso, foi favorecida por uma situação de mercado menos demandado.

A aposta da Tiliform é que as chuvas retornem até outubro e o racionamento de energia seja aliviado. Naquele mês, os negócios do setor de atuação da empresa devem ter um aquecimento e será necessário aumentar a produção. Caso a situação não esteja mais tranqüila, a empresa, fatalmente, terá que recorrer ao Mercado Atacadista de Energia (MAE) e pagar os valores praticados. Outra solução seria a compra de um gerador que, até lá, prevê Coube, deverá ter uma queda de preço, pela redução da demanda.

Mercado está acomodado

Fernando Fernandes, diretor da Clic Energia, consultoria especializada em conservação de energia e implantação de geração própria (co-geração), diz que o mercado já acomodou e as empresas estão tendo mais facilidades em negociar as melhores soluções, seja a compra de geradores ou de energia no Mercado Atacadista de Energia (MAE).

Até agora, no susto, muitas empresas optaram pela compra do gerador, para não correrem riscos. Porém, há as que estão buscando suprimento no MAE, como várias empresas calçadistas de Franca, que também estão terceirizando parte da produção como forma de economizar energia, explica Fernandes.

O diretor da Clic disse que a procura por geradores poderá voltar a crescer se as previsões de chuvas não se concretizarem, o que fará com que, em 2002, volte a faltar energia. Porém, a demanda não deverá ser tão grande, pois a maioria das empresas dispostas a investir na geração própria fez nesta temporada, o que gerou a grande demanda.