10 de julho de 2026
Geral

Instituições se movimentam para oferecer ensino religioso

R. Polettini e D. Bochembuzo
| Tempo de leitura: 5 min

A partir do ano que vem, as escolas da rede estadual de ensino deverão adotar o ensino religioso na grade curricular. A medida, prevista na Constituição, foi anunciada recentemente pelo governador Geraldo Alckmin.

No mês que vem, dirigentes de ensino de todo o Estado e líderes religiosos devem se reunir para discutir como será implementada a disciplina nas escolas. A data da reunião aguarda confirmação.

Obrigatório para as escolas e facultativo para os alunos, o ensino religioso ainda é um tabu para muitos professores, diretores e pais de alunos. A principal dúvida é qual a postura que deve ser adotada para a didática da disciplina.

Uma deliberação feita pelo Conselho Estadual de Educação (CEE), em julho passado, determina alguns preceitos para serem levados em discussão, como os objetivos e defesa de argumentos. Em suma, a proposta é que o ensino religioso não se limite apenas a uma crença e que não tenha meramente caráter de evangelização.

De acordo com a deliberação, a religião terá de ser abordada como um tema transversal, ou seja, deverá fazer uma ponte com disciplinas como a língua portuguesa, literatura, história, geografia, artes, saúde, sexualidade e meio ambiente.

A deliberação está disponível na íntegra na Internet, no site www.ceesp. sp.gov.br.

Segundo o dirigente regional de Ensino de Bauru, Jair Sanches Vieira, a volta da prática do ensino religioso nas escolas, na visão do governo estadual, é porque a disciplina pode auxiliar na redução da agressividade, violência, no respeito mútuo entre os alunos e na valorização da solidariedade.

A partir do momento em que o aluno passa a respeitar o outro, ele também passa a se olhar dentro da sociedade, afirma Vieira.

Neuza Aracy Costa Sampaio, coordenadora do Departamento de Ensino Religioso da União das Sociedades Espíritas (USE) - Regional Bauru, concorda com o posicionamento do dirigente de ensino.

Quando nos propomos a falar dos ensinamento de Jesus de maneira ecumênica, o resultado só pode ser bom, porque introduzimos pensamentos positivos que acabam servindo para que o aluno enxergue outro caminho de vida, avalia Neuza.

Debate

A dirigente espírita é uma dos representantes de diversas entidades religiosas que há quatro anos discute o ensino religioso por meio de encontros mensais na Direção Regional de Ensino de Bauru.

Nesses encontros, os representantes debatem formas de abordar a religião de maneira ecumênica nas aulas, sem transparecer nenhum proselitismo religioso. O resultado dos debates é repassado regularmente aos professores das unidades de ensino fundamental. Segundo Neuza, o resultado tem sido positivo.

A pedagogia espírita defende o amor como base do processo educativo. A criança deve ter no professor todo o apoio necessário para desenvolver seu potencial com plenitude. Acredito que esse preceito tem sido atingido nas aulas de religião ministradas nas escolas estaduais. Os professores relatam que há redução da violência e que alunos de todos credos participam das aulas, afirma Neuza.

O pastor Nilton Baro, presidente do Conselho dos Pastores Evangélicos de Bauru, acredita que o ensino religioso pode reduzir a agressividade entre os alunos. A violência é a falta de Deus no coração. A religião fundamentada pode fazer as pessoas melhorarem suas posturas em relação às outras.

Por meio do ensino religioso, acrescenta Baro, os jovens refletirão a respeito de integridade e obediência. Devemos tentar de tudo para que as autoridades sejam respeitadas, argumenta.

O Conselho dos Pastores Evangélicos de Bauru tem se empenhado para que mais igrejas participem da discussão sobre a inclusão do ensino religioso nas escolas. O último encontro sobre o assunto foi realizado no sábado, com a participação de 50 pastores de diversas instituições religiosas.

Contatado pela reportagem, o monsenhor Almir Coggiola informou que a Diocese de Bauru apenas se pronunciará sobre o assunto quando o governador Geraldo Alckmin sancionar o projeto de lei que obriga a inclusão do ensino religioso na grade curricular das escolas estaduais.

Padre é contra o projeto

O padre Roberto Daniel, conhecido como padre Beto, é contra a inclusão do ensino religioso nas escolas. A princípio, penso que a escola deve ser um campo neutro, pois não é o ambiente mais adequado para se discutir religião, afirma o religioso, que é doutorando em Ética Social em uma universidade católica alemã.

De acordo com padre Beto, a escola não é vista como uma instituição simpática pelos alunos, em razão de seu caráter obrigatório, o que torna a exposição de temas religiosos algo perigoso para as instituições.

Na sua opinião, em vez de se instituir o ensino religioso, deveria ser criada a cadeira de ética. É uma proposta muito mais honesta e mais eficaz, que permitiria discussões mais profundas sobre a questão dos direitos humanos e da valorização da pessoa humana, defende.

Padre Beto relata que o ensino religioso é oferecido de forma facultativa nas escolas alemãs. Mesmo assim, o interesse dos alunos pela religião não aumentou, assim como a agressividade deles, o que prova que o ensino religioso não é solução para a violência, argumenta.

Outro fato que causa apreensão ao religioso é a capacitação dos professores para ministrar a disciplina. Na Alemanha, os professores precisam cursar faculdade de Teologia para ensinar religião. Aqui, sem formação adequada, se torna mais difícil abordar o tema de maneira neutra, diz.

Para padre Beto, a inclusão do ensino religioso nas escolas não é preponderante e esconde questões mais latentes relativas ao ensino público. Hoje, considero mais importante se discutir o salário dos professores, que é muito baixo, a atribuição de aulas e esse absurdo sistema de reprovar alunos apenas ao final de cada ciclo, conclui.