Encontro de carros antigos reuniu 250 veículos em exposição no estacionamento da USC.
Uma volta ao passado. Quem compareceu ao estacionamento da USC, no último domingo, para acompanhar a terceira edição do Encontro de Carros Antigos de Bauru certamente sentiu-se dentro de um túnel do tempo.
O evento, organizado pelo Clube de Carros Antigos do Centro Oeste Paulista, reuniu cerca de 250 veículos do gênero, de várias marcas nacionais e importadas, e integrantes de clubes de cerca de 30 cidades da região, entre elas Bariri, Matão, Jaú, Lençóis Paulista e Pederneiras.
Pelo menos 8 mil pessoas, segundo estimativas da comissão organizadora, passaram pela Universidade do Sagrado Coração para acompanhar o evento. A marca superou o encontro realizado no ano passado, quando aproximadamente 6 mil pessoas prestigiaram a mostra.
Além dos Ford das décadas de 10 a 70, em maioria na mostra, o público pode apreciar a presença de Chevrolets Bellair e Coupes, Oldsmobile Vista Cruiser, Fuscas, Karmann Ghias, Dodge Darts, Charger RT Chrysler, Mercedes Benz 280 S e Pagodinho, Rural Willys, Porsches, Sinca Sedan, Ford Barata, Mercury Cobra, DKWs e Landaus.
Colecionadores e amantes dos placas-pretas também não faltaram. José Carlos Tosi, vice-presidente do Clube de Carros Antigos do Centro Oeste Paulista, era um deles. Proprietário de 15 veículos do gênero, ele compara um carro antigo a uma jóia rara. Participar de encontros desse tipo não agrada apenas pelo lado histórico e da preservação. É muito mais pelo prazer de possuir uma jóia rara que ainda se pode usá-la, pois conseguimos até viajar com esses carros, afirma Tosi.
Dono do veículo mais antigo da mostra, um Ford Speedstar 1914, Tosi ressalta que alguns conceitos mecânicos utilizados em décadas passadas ainda são aplicados atualmente. Para exemplificar, ele abriu o capô de um Ford 1922 modelo T sem embreagem e com acelerador manual. Antigamente, as coisas eram mais difíceis. Naquela época, década de 20 por exemplo, não havia cabo de aço, mas o conceito de quatro cilindros e quatro velas, com duas válvulas por cilindro, é o mesmo até hoje, explica ele, para depois acrescentar:
Apesar disso, a evolução tecnológica é implacável. Nesse Ford, com 2600 cilindradas, consigo tirar até 20 cavalos de potência. Na Fórmula 1, com a mesma cilindrada, um motor é capaz de gerar 600 cavalos.
Tão eufórico quanto Tosi estava José Carlos Landro, presidente do Clube que já conta com 151 associados. Dono de 12 automóveis e sócio de clubes em Curitiba, Porto Alegre e São Paulo, é figurinha carimbada em eventos de carros antigos em todo o país. A divulgação que fizemos do evento deu resultado. Conseguimos que o número de carros participantes aumentasse, enfatizou ele. No ano passado, o encontro teve 210 veículos em exposição.
Saudosismo
O saudosismo era a tônica do evento. Os membros do Clube eram facilmente reconhecidos durante o encontro, pois todos vestiam-se à moda antiga, trajando paleta, colete e chapéu.
O toque de charme e glamour do encontro ficou por conta dos modelos, que desfilavam entre os carros vestidos com roupas da época ao mesmo tempo em que arrancavam olhares emocionados dos mais idosos.
Para muitos, os veículos têm valor sentimental. É o caso de Tosi, que lembra de um Ford 1940 igual a que seu pai possuía. Trabalhando como caixeiro viajante em um carro como esse, meu pai ajudou a mim e a mais dois irmãos a se formar em Medicina, destaca o vice-presidente do Clube.
A mesma afetividade com os placas-pretas foi demonstrada por Luiz Biazotto, integrante do clube jauense de carros antigos. Isso é gostoso demais e está no sangue, pois meu pai colecionava. Faço questão de frequentar os eventos em todo o Brasil, como Santos, Guarujá e Camboriú, afirma ele.
Um de seus carros na exposição - eram 18 -, foi uma das sensações do evento: um Chevrolet Bellair 56, verde, com acabamento impecável. É um veículo perfeito, conversível e com capota elétrica. Rodo frequentemente com ele de 70 a 80 milhas sem apresentar qualquer problema mecânico, atesta Biazotto.
As características mecânicas dos carros antigos são uma peculiaridade. Responsável pelo socorro dos automóveis durante o encontro, Osidnei Alcides Daniel classifica como delicada a mecânica de tais veículos. O sistema é muito diferente dos carros modernos, especialmente o ponto de distribuição. Alguns motores não dão mais que 60 quilômetros por hora, pois não suportam trabalhar em regimes de altas rotações, ensina ele.
Neto caçula
A aposentada Cleide Marcolino Zonzini ingressou há pouco tempo no Clube. Participando pela terceira vez em eventos do gênero com um Karmann Ghia, gosta de carros antigos desde sua infância. Com o passar dos anos, fui vendo a evolução tecnológica e as transformações que eles foram sofrendo, frisa ela.
Cleide considera seu Karmann Ghia da década de 60 como um neto caçula e afirma que não o possui apenas para enfeite, e sim para trabalhar. Lecionei 10 anos utilizando-o diariamente para me deslocar até uma fazenda. Além disso, também o usei por vários anos na cidade, relembra a aposentada.
Seu marido, Orlando Carlos Zonzini, também confirma a robustez do Karmann Ghia. Ele nunca nos deixou na estrada e ainda vou muitas vezes até São Paulo, salienta Zonzini.
Cleide revela já ter recebido propostas tentadoras para vendê-lo, mas na última hora o coração fala mais alto. Várias pessoas nos apresentaram ofertas quase irresistíveis para vendê-lo, mas sempre pensamos duas vezes antes de fazer isso e, na terceira, falamos não, brinca ela.
Outras atrações e curiosidades
O bom humor também se fez presente ao encontro. Em muitos automóveis, uma inscrição no pára-brisa dianteiro era o indicativo do zelo de seus proprietários com seus amores: Carro antigo é como mulher de amigo. Você olha, admira, mas não mexe.
Um Chrysler 1932, projetado com duas sombrinhas na traseira utilizadas para proteger seus ocupantes do sol, foi outro veículo que deu origem a brincadeiras durante o evento. Ali atrás é lugar destinado para as sogras, emendou um que observava o automóvel.
Além das grandes estrelas da exposição, os carros, que só adquirem as chamadas placas-pretas se pelo menos 80% de suas características originais forem preservadas, o público teve a oportunidade de conferir uma feira de artesanato e um acampamento de escoteiros.