O ministro Pedro Malan, da Fazenda, lembra-se, assumiu o cargo de sacrifício naquele distante mês em que a inflação, o maior espectro que tem tido pela frente, voltou a se embalar impiedosamente. O polvo inflacionário, que parecia encolhendo seus poderosos tentáculos tempos atrás, aproveitou as influências aziagas da época e os distendeu livremente, alcançando pontos até então pouco ameaçadores.
O quadro clínico da economia nacional está exigindo, por isso mesmo, que Malan seja um ministro com outras idéias, mais sábias e exequíveis, e, ao mesmo tempo, com desassombro bastante para impor suas decisões, doam a quem doer se forem para o bem de todos e felicidade geral da nação, lembrando Pedro I. Terá de ser um homem forte de finanças, já que toda a enfermidade do País tem seu epicentro congênito reconhecidamente inserido na debilidade do nosso dinheiro, no alto custo de vida, nas dívidas interna e externa, na baixa remuneração popular, nos problemas de caixa, enfim em todas as ramificações e implicações geradas pela pobreza da gaita, a qual, cada vez mais escassa, já levou o Brasil à aparência dos lares cognominados de desesperados, nos quais, faltando o pão todos gritam, choram, e ninguém tem razão...
Um tema que teria de ser enfrentado com urgência urgentíssima pelo ministro seria o da redução da despesa pública desnecessária na medida exigida pelas circunstâncias ambientais. Recorda-se que naquela distante época o presidente Fernando Henrique Cardoso anunciou claramente um bom corte nos gastos da administração como caminho de salvação nacional, admitindo que sem uma contenção do gênero todo o restante da política econômica patrícia estaria comprometido. Em cima de sua fala, assessores governamentais repetiram a colocação, de maneira a tentar convencer a opinião pública de que a proposta era para valer, com todas as naturais consequências, inclusive o indesejado sacrifício da bolsa dos funcionários da administração, que seria reduzida em proporções ideais. No entanto, quase nada foi feito a partir de então no setor, pois a ecomonia que teria de ser realizada imediatamente ainda não chegou ao mínimo de 10 por cento do imprescindível, segundo observadores bem-inseridos na análise da conjuntura, um dos quais, notoriamente irritado, desabafou há poucos dias que o Governo não tem o direito de ser tão utópico a ponto de pretender reduzir seus encargos com simples conversas... E não pode, realmente, porque suas comovidas endechas poderão apenas levar às lágrimas, não concretizando, porém, aquilo que a administração prega... É a nossa opinião.
(*) O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.