Adulterar a potência do motor de um veículo sem comunicação prévia aos órgãos de trânsito é considerado uma transgressão ao Código de Trânsito Brasileiro (CTB). No entanto, a prática é comum e vem sendo adotada por uma boa parcela de jovens que buscam emoção e adrenalina.
O resultado disso nem sempre é positivo e tem causado alguns acidentes graves, com caso de morte inclusive. O último desses acontecimentos pode ter ocorrido domingo, quando dois veículos envolveram-se em uma colisão com uma moto, causando ferimentos graves em uma das vítimas. O laudo da perícia dos carros ainda não foi divulgado, mas há indícios de que pelo menos um deles estava com o motor turbinado.
Mecânicos que preferem não se identificar dizem que é muito fácil adquirir um kit para a alteração do motor. Esses produtos são anunciados com freqüência em revistas especializadas em automóveis, disse Marcelo (nome fictício), proprietário de uma oficina mecânica.
Ele afirmou que não trabalha mais com esse tipo de serviço, desde que o Código de Trânsito proibiu essa prática. No entanto, salientou que é cada vez mais comum entre os jovens a instalação desses kits no motor do carro.
O problema, de acordo com ele, é que os veículos que recebem o turbo nem sempre têm estrutura para agüentar as conseqüências da potência. Na maioria das vezes, os turbos são colocados em carros velhos, que não estão preparados para receber tanta potência. O resultado são os acidentes, disse.
Segundo o mecânico explicou, não basta colocar o kit no carro. É preciso fazer uma série de modificações no freio, amortecedor, pneus, tudo para que o carro tenha estabilidade para correr.
Postura rígida
Para se ter uma idéia do poder do veículo turbinado, um carro com motor 1.8 pode atingir a velocidade de 100 quilômetros por hora em apenas seis ou sete segundos.
Marcelo contou que, em média, um kit para turbinar o automóvel custa R$ 2 mil, incluindo a instalação.
Já o comerciante Fábio (nome fictício) disse que as peças podem ser encontradas por até R$ 300,00 em Bauru. Ele diz isso com o conhecimento de quem tem um caso na família. Um parente seu está querendo turbinar o veículo e já adquiriu o kit. Só não teve dinheiro ainda para mandar instalá-lo. Estou muito preocupado, pois considero isso uma arma nas mãos dos jovens, disse.
Ele acredita que, por R$ 1 mil, seja possível adulterar a potência do veículo. O problema é que os carros que são adulterados geralmente não têm capacidade para agüentar o tranco. Eles foram projetados para alcançar uma média de 120 quilômetros por hora e, chegando aos 200 quilômetros por hora, ficam sem controle, disse.
Na opinião dele, a polícia deveria adotar uma postura mais rígida em relação a esse tipo de transgressão. Todo o mundo percebe quando um carro está turbinado. Por que a polícia não apreende esses veículos?, questiona.
O tenente Jorge Luís Dias, comandante do Policiamento de Trânsito de Bauru, explicou que não é tão fácil assim. De acordo com ele, para saber se um carro está turbinado é preciso fazer uma avaliação mais minuciosa. Nem sempre os policiais têm condições de verificar isso visualmente, disse.
Ele explicou que, qualquer tipo de alteração no veículo deve ser previamente comunicada aos órgãos de trânsito. Esses órgãos podem autorizar ou não essas mudanças, disse. Caso liberem as modificações, elas passam a constar no documento do veículo. Segundo o tenente, dificilmente um órgão de trânsito autorizaria a alteração de potência no motor.
Para ter um controle mais rigoroso sobre essa prática, o tenente destaca que seria necessário o veículo passar por vistoria na hora do licenciamento, o que não vem ocorrendo.
Na opinião do comerciante Fábio, o veículo que apresentasse tal adulteração deveria ser apreendido e ter o kit turbo retirado do motor. Não basta apenas multar. Se devolver o carro com a turbina, o dono do carro voltará a usá-lo ou então poderá vender o kit, disse.
Segundo ressaltou, um carro turbinado é uma verdadeira arma nas mãos de jovens imprudentes.