10 de julho de 2026
Geral

Sindicato: corte na habitação indica privatização da Caixa

Patrícia Zamboni (*)
| Tempo de leitura: 5 min

Para o Sindicato dos Bancários de Bauru e Região, a decisão da Caixa Econômica Federal (CEF) de suspender as três linhas de financiamento habitacional direcionadas à classe média e que utilizavam recursos próprios, captados por meio de poupança, é mais um passo em direção à privatização do banco. Segundo o diretor de comunicação do sindicato, Marcos Silvestre, a avaliação da entidade é de que, nos últimos anos, está ocorrendo um esvaziamento gradativo do papel social da Caixa, o que indicaria para a intenção do Governo Federal de privatizar a instituição.

Pode até ser que o governo não consiga, de fato, privatizar a Caixa Econômica Federal até o final deste mandato. Mas, para nós, está claro que o objetivo é a privatização. No nosso entendimento, o Governo trabalha com a lógica de eleger ou reeleger um candidato no ano que vem para poder terminar a privatização da Caixa. A reestruturação patrimonial da CEF, que ocorreu há cerca de dois meses, é outro indicativo desse objetivo, bem como o arrocho salarial dos funcionários, que já estão há sete anos sem reajuste. Isso (a privatização) também é válido para o Banco do Brasil, analisa Silvestre.

Com a decisão da Caixa, deixarão de ser atendidas famílias com renda superior a R$ 2 mil ou a R$ 3.250,00 (para imóvel comprado na planta). A medida, que entrou em vigor na última sexta-feira, é válida para as modalidades Carta de Crédito Individual, Poupança de Crédito Imobiliário (Poupanção), Imóvel na Planta e Convênio Caixa do Trabalhador. Os financiamentos que utilizam recursos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) não foram afetados. A decisão teria sido tomada para reequilibrar a carteira imobiliária do banco e readequar as linhas de crédito às do mercado, segundo informações do banco. A Caixa divulgou que o custo dos fundos para os financiamentos realizados com recursos da própria instituição é incompatível com os juros praticados no momento.

A decisão será mantida até ser encontrada uma solução que equilibre essas linhas de financiamento. Os pedidos de crédito habitacional já protocolados no banco serão atendidos e são cerca de 10,5 mil. Com base nos dados do ano passado, provavelmente não virão a ser atendidos cerca de 39 mil pedidos de empréstimos da classe média à Caixa, em nível nacional.

De acordo com o gerente de mercado do Escritório de Negócios (EN) da Caixa em Bauru, Wanglei Rodrigues Taú, de 1996 até julho deste ano a CEF realizou cerca de 1.530 financiamentos direcionados à classe média, em toda a região,totalizando valores disponibilizados da ordem de R$ 50,229 milhões. Somente de janeiro a julho deste ano, 92 financiamentos foram liberados, segundo Taú.

Reabertura só em 2002

O presidente da Caixa, Emílio Carazzai, disse que a classe média não deve contar com recursos para financiar a compra da casa própria tão cedo, já que a instituição ainda não definiu um prazo para voltar a emprestar dinheiro para a habitação. Gostaria de reabrir o crédito o mais rápido possível. Mas não é possível fazer nenhuma previsão sobre esse assunto agora, disse Carazzai. A expectativa do mercado imobiliário e de que os créditos para habitação só devem ser liberados em 2002. A estimativa está baseada no comprometimento do orçamento do banco para habitação fechado para este ano.

O orçamento da Caixa para habitação em 2001 é de R$ 1,5 bilhão. Desse total, o banco já emprestou, até 17 de agosto, R$ 660 milhões para o financiamento de 16.330 imóveis. Segundo a Caixa, o banco vai garantir o financiamento das propostas (das pessoas físicas) e projetos (das construtoras) aprovadas até a última sexta-feira, o que deve representar a liberação de mais R$ 630 milhões para financiar 10.500 unidades. Isso significa que, do orçamento de R$ 1,5 bilhão, a Caixa já comprometeu R$ 1,290 bilhão para a habitação, ou seja, 86% do total.

O presidente do Secovi-SP (sindicato das imobiliárias), Romeu Chap Chap, disse que o interessado na compra do imóvel só vai sentir o impacto do congelamento do financiamento habitacional daqui a quatro meses. O tempo de espera para aprovação de um pedido de financiamento está cada vez maior. Um bom pagador, que oferece pouco risco de inadimplência, demora três meses. Só depois de quatro meses o mercado vai sentir a suspensão da Caixa, observa. Além de reduzir o volume de recursos para habitação, a Caixa deve elevar a taxa de juros do financiamento, quando voltar a conceder crédito imobiliário. O banco cobrava 12% ao ano mais TR (Taxa Referencial).

A instituição é o maior agente imobiliário do País, com mais de 1,7 milhão de contratos assinados até agora. Levantamento feito pelo Secovi mostra que, enquanto 36 bancos privados emprestaram R$ 950 milhões para financiar 9.000 imóveis, a Caixa emprestou sozinha R$ 550 milhões.

(*) Colaborou Agência Folha

Programa subsidiará habitação

O Diário Oficial da última sexta-feira, dia 31, publicou Medida Provisória que cria o Programa de Subsídio à Habitação de Interesse Social (PSH), direcionado às famílias de baixa renda. Os recursos do PSH, a serem inscritos no Orçamento Geral da União (OGU), se destinarão a complementar, no ato da contratação do financiamento da CEF, a capacidade financeira de candidatos aos empréstimos, que até então tinham o pedido de crédito rejeitado com base na análise de risco feita pela Caixa. Desta forma, poderemos atender com financiamentos algumas famílias que pelos critérios atuais não passam na nossa análise de risco de crédito, diz o diretor de Desenvolvimento Urbano da Caixa Econômica Federal, Aser Cortines.

De acordo com o banco, os recursos do PSH assegurarão o equilíbrio econômico-financeiro das operações realizadas pelas instituições financeiras que se habilitarem aos programas, como a CEF, compreendendo as despesas de originação do crédito, administração e cobrança, custos de alocação, remuneração e perda de capital.

O Governo Federal vai definir, na próxima etapa, a faixa de renda a ser beneficiada pelo programa, assim como os procedimentos e condições para o direcionamento dos subsídios e quais programas habitacionais de interesse social serão alcançados pelos subsídios.