O novo aniversário do memorável Grito do Ipiranga, que ontem se evocou, encontrou o País, praticamente, com quase os mesmos problemas de anos atrás, já que o povo continua assoberbado pelas mesmas tradicionais aflições, entre as quais se citariam as endemias, a inflação que declina mas não cessa, a dívida externa que aumenta e a renda per capita que evolui em proporções menores que suas necessidades prementes.
Tem-se que dizer, então, que a Nação libertou-se politicamente de seus descobridores mas prendeu-se a uma cadeia de problemas sociais e econômicos de segurança máxima, que a impedem de tornar-se realmente independente, como tanto desejaria o inesquecível sonho de Pedro I, José Bonifácio de Andrada e Silva e demais pró-homens de 1822. O quadro é iniludível, na medida exata de que conseguimos proclamar nossa alforria administrativa e territorial, e, num paradoxo condenável, estamos enjaulados numa desestruturação para cuja superação nos falecem condições de energia, disposição e até de talento, qual é o caso dos entraves financeiros que colocam à nossa frente a maior parte das potências do Primeiro e Segundo mundos. Falta-nos tudo para pularmos as barreiras da pista olímpica que se opõe à nossa caminhada, principalmente a cívica, haja vista que os nossos próprios governos têm sido artífices diretos dos esbarros da grande competição, representados por estilos de gerências incompatíveis com nossas exigências econômicas porque frutos de uma legislação equivocada e por isso mesmo embaraçante. Assim, na carência de decisões honestas e civilizadas, como se constata atualmente através de desmandos no Congresso, em Assembléias, Câmaras de Vereadores e órgãos executivos, vai o Brasil se arcando ao peso pesado de uma carga superior às suas depauperadas energias.
Dessa forma, num dia, como o de ontem, que se destinaria a espetaculares festejos, relativamente pouco se teve para festejar, já que as nossas aspirações, provindas do passado, mostram-se como uma força profundamente comprometedora. Na verdade, pouco temos para comemorar, ainda que a expressão possa denotar pessimismo ou falta de confiança nas nossas potencialidades. Estas existem, sem dúvida, tal como a energia de um povo trabalhador, que não compactua com os desmandos de alguns setores, inclusive oficiais, como o testemunham membros dos poderes públicos, mas, deixada nas profundezas do poço, jamais chegarão à sublimação suficiente para tirar o País do III Mundo em que vive. Seria bom, portanto, que todos se ajoelhassem no altar da Pátria e pedissem em orações pelo entendimento nacional, único instrumento capaz de, associando esforços e patriotismo, boa vontade e determinação, aplainar a pista para um Brasil liberto de injunções sociais e, conseqüentemente, pronto para cristalizar mesmo o acalentado sonho da independência. É a nossa opinião. (O autor, N. Serra, é o Jornalista Responsável do JC e Delegado Regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado).