O que um padre pode falar sobre cinema? Quem pensa que vai ouvir recomendações para que se ssista Jesus de Nazaré, Rei dos Reis, ou O Manto Sagrado está enganado. O padre bauruense Roberto Francisco Daniel tem uma visão um pouco diferente sobre esses filmes, que considera menos religiosos do que obras populares como Matrix e Show de Truman. Defendendo essa tese, o padre Beto, como é conhecido, recebeu nota máxima no seu mestrado do curso de Teologia que fez na Alemanha, onde mora e estuda há nove anos. Terminando atualmente o doutorado em Ética e Cinema (ele já tem diplomas nos cursos de Direito e História), o padre, que passa algumas semanas com a sua família em Bauru antes de voltar para a Europa, concedeu uma entrevista para o Caderno Ser na qual revela como vê a estreita ligação entre Deus e a arte.
Jornal da Cidade - Como você descobriu a sua vocação religiosa? Roberto Francisco Daniel - Eu sempre estive à procura do que eu queria ser na vida e várias reflexões contribuíram para que eu achasse o meu caminho. Uma delas, foi a minha faculdade de história, que teve forte influência do marxismo. Eu li Marx a fundo e ele falava muito sobre o ser sujeito da história, contribuir com a caminhada do seu povo, do coletivo, uma coisa bem revolucionária. Eu sempre estive desse lado revolucionário e eu sempre estive em busca disso, de saber como poderia contribuir com a caminhada do meu povo, com a evolução, a transformação dessa realidade social que nós temos no Brasil. Isso foi um lado, o outro lado foi a morte de uma pessoa na minha família que me tocou muito e me aproximou muito da realidade da morte. Me lançou muito que a morte é uma realidade na minha vida e talvez a mais certa. A gente não sabe o que vai acontecer no futuro, mas a realidade da morte é certa. Depois acabei assistindo um filme que modificou a minha vida, que foi Sociedade dos Poetas Mortos. Eu era professor na época, adorava o que estava fazendo. Acabei assistindo o filme e ele toca nessa questão do carpe diem, aproveite o dia agora porque você não sabe quanto tempo mais vai viver. Essas reflexões de ser sujeito da história e a situação passageira que eu tenho aqui me fizeram procurar o meu caminho e eu achei o meu caminho no sacerdócio.
JC - Seus trabalhos acadêmicos são ligados à cinema, um filme mudou sua vida... Quando começou essa paixão pela arte cinematográfica?Roberto - Começou com a arte. Eu sempre gostei muito de arte, meus pais sempre me incentivaram a isso. Eles perceberam que eu tinha ligação com arte e me incentivaram. Então fui me desenvolvendo na arte, comecei a pintar, passei por várias fases, do clássico ao surrealismo, da arte para o cinema foi simples. Sempre gostei de filmes de ir ao cinema, sempre fui um cinéfilo. Quando comecei a fazer teologia - a religião sempre foi um tema para mim - minha idéia era fazer uma ligação entre arte e teologia que eu acho duas áreas muito próximas. O artista é muito místico e o místico tem muito de artista. Além disso, a arte é uma procura inconsciente de Deus. Eu vejo Deus como um grande artista, ele é o criador e na medida em que você vai criando, vai se aproximando desse ser transcendente que chamamos de Deus.
JC - Como cinema e teologia se ligam?Roberto - Sempre quis fazer esse diálogo arte e teologia, mas não sabia como. Quando chegou a hora de fazer a minha tese de mestrado, achei que tinha chegado a hora de tentar. Como eu tinha que especificar que área da teologia eu usaria, escolhi Teologia da Libertação, que é bem crítica. Na hora de especificar a arte, escolhi o cinema, que é uma arte moderna e talvez seja a arte mais consumida pelos brasileiros, nas salas de exibição, na televisão e pelas fitas de vídeo, apesar de ser a mais cara de ser produzida. Meu trabalho era Teologia da Libertação no Filme, onde eu faço uma análise do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, do Gláuber Rocha. Depois disso, resolvi me aprofundar no cinema e não parei mais. Ai comecei a participar dos festivais de cinema da Europa, em Cannes, Locarno, Veneza, Berlim, não parei mais.
JC - O que a sua tese tentava provar?Roberto - Que o filme profano tem muito mais de religioso do que o próprio filme chamado religioso. Os Dez Mandamentos é muito menos religioso do que Central do Brasil, por exemplo. Matrix também é muito mais religioso do que Jesus de Nazaré ou A Última Tentação de Cristo. Cidade dos Anjos e O Show de Truman também são filmes muito mais religiosos do que os chamados religiosos. Na minha tese tento provar isso. Escolhi o filme do Gláuber, que vem antes da Teologia da Libertação e tentei descobrir aspectos da teologia no filme. Acho que consegui mostrar isso.
JC - Você acha que as pessoas percebem isso quando assistem um filme popular como Matrix?Roberto - Acho que elas percebem, mas nem tudo. Algumas coisas que eu analiso nos filmes com olho clínico acho que não são perceptíveis conscientemente pela maioria das pessoas. Inconscientemente eu acho que elas percebem. Por exemplo, o final de Titanic tem para mim uma cena do reino de Deus, de vida pós-morte. A Rose (personagem de Kate Winslet) dorme - mas para mim ela morre - e a câmera vai para o fundo do mar onde está o navio afundado. Então ele se transforma novamente no navio inteiro, ressurge com uma vida nova. Ela se encontra no saguão do navio onde estão todos os falecidos, mas eles já não estão mais divididos em classes sociais e estão lá para festejar a união dos dois (Rose e Jack/Leonardo Di Caprio), o que é uma festa de amor. Jesus diz que o reino de Deus é como um banquete de casamento, Krishna fala sobre a festa do amor depois da morte... A imagem que o James Cameron oferece é uma visão do reino de Deus, da vida após a morte. No último movimento da câmera ela ainda vai para o alto, onde focaliza um teto bem iluminado. A luz é um símbolo do transcendente. O público talvez não faça essa leitura, mas o filme transmite essa ânsia de felicidade eterna e isso o público capta, com certeza. Num nível emocional, inconsciente, acho que o filme passa um conteúdo religioso de forma muito forte.
JC - Você acha que o cineasta busca isso conscientemente?Roberto - Sim e não. É difícil se descobrir algo feito por acaso num filme que é sempre tão planejado. O que se pode é reinterpretar coisas que o diretor não pensou. Muitos aspectos religiosos não são pensados, mas são produzidos de forma inconsciente, agora muita coisa eu acho que é pensada. Por exemplo, eu fiz uma leitura do Exterminador do Futuro e descobri vários símbolos místicos e religiosos, várias associações que são impossíveis do diretor não ter imaginado. O filme é uma história de Natal: a mulher vai dar a luz a um filho que vai ser o salvador da humanidade no futuro. Esse salvador da humanidade se chama John Connor. Se você abreviar o nome chega a J.C., que pode ser Jornal da Cidade, mas também Jesus Cristo. É difícil crer que isso é uma coincidência.
JC - James Cameron costuma optar por um finais felizes para agradar o público...Roberto - É preciso ver primeiro de que gênero de filme se está falando. Mais ainda, a natureza do filme e não o gênero. O Titanic é um filme popular e o filme popular geralmente tem uma estrutura, não é um filme de arte. Ele tem um estrutura simples que é: a exposição do problema, a realidade dentro da qual surge um problema e a solução dele. Dentro dessa solução do problema, pode ser que não seja uma solução feliz mas ela tem que deixar o público satisfeito quando sai do cinema. Pode não ser um final feliz, mas que esse final seja explicado. Então não dá para criticar o filme porque ele é assim, ele é um filme popular. O objetivo do James Cameron é fazer filmes populares, que atinjam a massa. Um outro filme como Sem Medo de Viver do Peter Weir, o mesmo diretor de Sociedade dos Poetas Mortos, trata da questão da morte. Um sujeito sobrevive a um acidente de avião e perde o medo de viver, mudando sua vida completamente. O Weir não faz um filme popular, a estrutura dos seus filmes não é popular e nesse caso ele radicalizou, é um filme que tem a proposta de atingir um grande público, mas pega um tema desagradável (a morte) e o trata de uma forma realista, trazendo a sensação da morte para bem perto do público. O filme não fez sucesso algum apesar de ser perfeito. É um dos filmes mais perfeitos que eu já vi na vida.
JC - Você considera Guerra Nas Estrelas um filme místico também? A explicação sobre a força, que está dentro e envolta de todas as coisas e criaturas não é uma explicação de Deus?Roberto - Guerra Nas Estrelas é um filme místico, inclusive aquela expressão que eles usam, que a força esteja com você, é a mesma coisa que falamos na missa: o Senhor esteja convosco, ou algo parecido. Eu vejo muito esse lado místico no filme nessa questão da força, que está no nosso interior e que na verdade é um retrato de Deus. Na visão cristã e em outras visões também, Deus está dentro da gente. A gente é gerado por ele e possui ele dentro da gente. O filme também tem a luta entre o bem e o mal que, no fundo, é a luta interior que a gente passa também. É a luta para fazer com que o bem domine, te complete e te faça feliz e o mal é justamente a falta de amor. Agora o cinema pode ser místico a partir do momento em que realiza o que eu chamo de função espelho, ou seja, a partir do momento em que o filme mostra a minha cara. A pós-modernidade trouxe um visão muito romântica sobre o que é místico, o que é religioso. A mística, segundo a pós-modernidade, é você ficar trancado no quarto, acender o seu incenso, fazer a sua meditação, viajar pelo caminho de Compostela, falar línguas, ver um milagre... Enfim, todos esses efeitos especiais que nós exigimos de Deus. Isso é uma visão muito falsa da mística. Se você analisar todos os grandes místicos, de Buda a São Francisco, você vai ver que eles se tornaram místicos porque se encontraram com a sua realidade humana. Eles não fugiram disso buscando coisas extraordinárias. Eles se aprofundaram na sua realidade humana, seu contexto social, como pessoa e mergulharam tão profundamente que se iluminaram. Então você vive uma experiência mística a partir do momento que você se encontra consigo mesmo, dentro da sua realidade. E o filme passa a ser para mim uma experiência mística a partir do momento que mostra a minha cara, mostra aspectos da minha vida e me faz confrontar com a minha realidade, seja ele um filme realista como Central do Brasil, ou seja uma ficção como Matrix, que questiona o que é realidade o que existe ou não. Então os filmes místicos não precisam necessariamente trazer aspectos, símbolos, da mística. Para mim, o filme mostra a minha realidade quando apresenta dois aspectos fundamentais da minha vida, o sofrimento humano e a transcendência, a utopia, a necessidade de ser feliz, ir em busca de algo novo. Se o filme cumpre essa função do espelho e me faz encontrar com meus sofrimentos ou sonhar com outra realidade, me faz mexer, querer transcender, então ele se torna uma experiência religiosa. O Show de Truman, por exemplo, para mim é uma versão do Gênesis. Você tem o diretor Cristopher (personagem de Ed Harris) , cujo nome significa Cristóvão, ou seja, aquele que carrega Cristo, e ele carrega o Truman (Jim Carrey), que por sua vez é o homem verdadeiro (true- verdade em inglês e man, que significa homem). Para os cristãos o homem verdadeiro é Jesus Cristo. O Cristopher constrói um mundo para o seu homem verdadeiro e quer protegê-lo, tem uma relação paternalista com ele. É o Deus do Gênesis, que cria Adão e Eva e quer que eles fiquem no paraíso e não comam a árvore do conhecimento. Através da mulher, Adão come o fruto, assim como no filme o Truman faz. Apesar de fazer essas leituras, eu tenho que ver o que está por trás também e nesse caso é a necessidade de você ser verdadeiro, transcender e não ter relações falsas. Isso eu acho que passa em nível inconsciente para o público.
JC - Que outros filmes você admira ou você tem cineastas favoritos?Roberto - Eu gosto muito também do Peter Greenway, diretor de A Tempestade e o O Santo Bebê de Macon. Gosto dele porque ele é muito visual e eu sou mais visual do que auditivo. Ele é pintor também. Gosto de todos os filmes do Peter Weir e também do Win Wenders.
JC - Você prefere o cinema europeu ao americano?Roberto - Eu prefiro o cinema europeu, mas há certas misturas que dão bem certo. Eu gosto dos filmes ingleses, das temáticas dos filmes ingleses, mas tem misturas que dão certo como o Peter Weir, por exemplo. Ele é um australiano que foi para Hollywood e não deixou de trabalhar no seu estilo próprio que tem uma mescla de cinema comercial com estilo pessoal. Eu gosto no geral de filmes europeus, mas não dos franceses que eu acho cansativos, lentos na narrativa. Gostei do filme francês que ganhou a Palma de Ouro esse ano. Intimicy, mas ele é uma exceção dentro dos filmes franceses. Gosto também do cinema italiano, mas não me agrada o exagero emocional em algumas produções. Esse exagero é a forma do italiano ser no dia-a-dia e acho que isso passa para os filmes.
JC - A Vida é Bela é um filme assim...Roberto - É verdade. E o A Vida é Bela tem também outro problema. Ele tenta fazer uma comédia dentro de um contexto no qual eu não sei se nos é permitido fazer uma comédia. Eu vejo cenas típicas de Chaplin dentro de um campo de extermínio, eu não sei se nós temos o direito de tratar o passado dessa forma. Existe outro filme que se chama O Trem da Vida, uma produção que iria sair na mesma época do A Vida é Bela, mas foi adiado, que trata do mesmo tema, mas respeita um pouco mais o assunto, ele respeita mais o trágico. O final dele é contrário do A Vida é Bela. É tudo um sonho.
JC - Mesmo de longe você tem acompanhado o cinema brasileiro? O que você acha desse renascimento?Roberto - Eu tenho acompanhado sim e tenho visto que há uma retomada, mas também de que não há uma linha a seguir. Isso pode ser positivo ou negativo. O cinema brasileiro está começando a produzir, a quantidade de filmes está aumentando, mas nós não temos ainda um rosto. As produções são muito diversificadas e nós não temos mais um rosto como tínhamos na época das chanchadas, do cinema novo, da pornochanchada...
JC - Você não acha isso positivo já que nessas épocas citadas tudo o que era feito fora desse rosto era marginalizado?Roberto - Pode ser positivo, mas essa é só uma constatação, nós não temos uma escola. São diversos diretores que estão aproveitando essa retomada econômica. Isso pode ser positivo porque dá liberdade. É uma democracia.
Não deixe de ver
Como todo bom cinéfilo, o padre Roberto Daniel admira uma infinidade de filmes mas não aponta um favorito. Da sua lista de obras preferidas ele destaca (e recomenda) algumas que, segundo ele, podem não ter o mesmo efeito para todas as pessoas mas não vão deixá-las da mesma maneira que estavam antes de assistí-las.
Sociedade dos Poetas Mortos
Sem Medo de Viver
A Vida em Preto e Branco
Pink Floyd - The Wall
Magnólia
Sempre Amigos
Matrix
Clube da Luta