Programa de agentes comunitários de saúde começa a mostrar resultados após um ano de implantação. Os almejados frutos, como a consciência da prevenção, no entanto, só serão colhidos a médio e longo prazos.
Doenças de pele, verminoses, falta de higiene, gestações precoces, depressão, solidão. Esses são os diagnósticos mais comuns levantados pelos projetos-piloto do Programa de Agentes Comunitários de Saúde (Pacs), implementados há pouco mais de um ano em Bauru. São dados que revelam uma realidade desconhecida pelas unidades de Saúde, pois medem e especificam a demanda reprimida e não a atendida. O programa, numa iniciativa inédita na cidade, deixa de lado os que procuram ajuda e vai, literalmente, atrás daqueles que não buscam tratamento e, conseqüentemente, são desprezados nas estatísticas tradicionais.
Por atender - em caráter experimental e restrito - apenas o Jardim Godoy e Parque Jaraguá, o trabalho passa despercebido aos olhos da maioria da população, mas seus resultados vão desproporcionalmente além da iniciativa, ainda que desprovido de sofisticação e tecnologias avançadas. Tudo o que se alcançou até agora foi fruto da empolgação - digna de reconhecimento - dos agentes e da visão humanista do projeto. Na prática, esses bairros ganharam moradores mais saudáveis e conscientes, ou seja, uma qualidade de vida melhor.
Seguindo um modelo que mistura fórmulas de sucesso adotadas em países como China, Índia, Cuba e Canadá, o Programa de Agentes Comunitários de Saúde é o embrião do famoso Programa de Saúde da Família (PSF), erroneamente chamado de médico da família. Embora exaustivamente comentado e prometido pelos políticos do município nas últimas eleições, o PSF está longe de contemplar toda a cidade. Um ou outro projeto-piloto devem ser implementados dentro dos próximos anos, mas nada que chegue a fazer a diferença em termos de coletividade.
A Secretaria Municipal de Saúde já fez uma reserva de recursos no orçamento 2002 para aplicar no PSF e é bem provável que lance o pioneiro na região da Pousada da Esperança, uma das mais carentes em relação à assistência de saúde. Lá, o atendimento deverá ser completo, com agentes e equipes médicas a serviço da população. Os programas dos agentes em andamento continuarão como estão, podendo ser complementados a qualquer momento - leia-se quando houver disponibilidade de recursos - pelas equipes do PSF, que incluem um médico generalista, um enfermeiro e um auxiliar de enfermagem.
O município já poderia estar experimentando os resultados do Programa de Saúde da Família, mas a Secretaria da Saúde e os órgãos deliberativos do setor acharam por bem dividir os investimentos em dois projetos de agentes. Ou aplicávamos tudo em um único PSF ou dividíamos os recursos em dois programas de agentes. Decidimos pelo segundo, justificou a titular da Secretaria, Eliane Fetter Telles Nunes.
A escolha dos bairros que seriam atendidos também foi deliberada em conjunto e sob critérios estudados. Queríamos começar com dois planos-piloto que nos dessem duas realidades diferentes. O Godoy, apesar das carências, está situado numa área com bem menos problemas sociais, financeiros e de infra-estrutura. Já o Jaraguá tem problemas de todos os tipos, sem falar que nem de núcleo de saúde o bairro dispunha na época em que decidimos levar o programa adiante na cidade. Ao escolhê-los, nossa idéia foi buscar uma comparação de duas realidades distintas que pudesse nos dar parâmetros e subsídios para aplicarmos em outras regiões por analogia, explicou.
Na verdade, o programa dos agentes será um fonte fidelíssima para apontar, de maneira setorizada, o perfil epidemiológico de Bauru. Sua função, porém, não é só a de detectar doenças, mas indicar as causas delas. No Parque Jaraguá, por exemplo, onde o PAC verificou um índice altíssimo de verminoses e parasitoses, constatou-se que a falta de informações da população e as precárias condições de infra-estrutura contribuem diretamente com a ocorrência dessas doenças. Enquanto houver esgoto correndo a céu aberto e erosões impedindo a coleta de lixo e provocando rupturas nas redes de saneamento, dificilmente se conseguirá controlar o número de crianças com vermes ou piolho. Da mesma forma que os problemas respiratórios dificilmente serão sanados enquanto as ruas de terra prevalecerem no bairro.
A perduração das precárias condições de higiene também continuará se refletindo dentro das casas dos moradores mais humildes e, conseqüentemente, menos informados. Hoje, lamentavelmente, vermes e piolhos ainda são considerados normais por uma imensa parte dos populares do bairro. O descuido com as crianças também tem ligação direta com a necessidade de as mulheres terem que abandonar diariamente os filhos à própria sorte ou deixá-los sob proteção de outros pequenos. A realidade provavelmente seria outra se houvesse creches suficientes para respaldar a ausência das mães trabalhadoras.
Embora incipiente na cidade, o Programa de Agentes Comunitários de Saúde já dá mostras que funciona num processo de ação e reação, ou seja, seu êxito depende de um conjunto de esforços. Por si só, é claro, representa alguns avanços, na medida em que cria na população atendida a consciência da saúde preventiva. Entretanto, não alcança a completa resolutividade quando não encontra a contrapartida dos setores da administração municipal.
Sem dúvida, o PAC e o PSF, ambos incentivados pelo Ministério da Saúde - em termos financeiros, o estímulo é pequeno, diga-se de passagem-, merecem mais atenção das autoridades públicas do município. Tem que deixar de ser visto pela ótica político-partidária e ser analisado estritamente pelos seus benefícios. Quando da sua implementação em 2000, em pleno ano eleitoral, o PAC foi visto como uma cartada eleitoreira, na qual os agentes serviriam de promotores da campanha do prefeito reeleito. Acusação infundada.
O processo eleitoral passou há meses e o programa continua isento de intervenções políticas. Qualquer dúvida pode ser prontamente sanada durante um acompanhamento dos agentes nas visitas domiciliares que realizam diariamente. Esse acompanhamento, por sinal, foi feito pelo JC nos Bairros, que pôde atestar o desprendimento dos agentes. Ao contrário de supostas promessas e vantagens, eles estão levando conforto, atenção e informação à população carente. Em virtude da grande quantidade de material colhido, o assunto será tema desta e da próxima edição do caderno.