Tenho certeza de que muitos pescadores gostariam de participar desta sensacional coluna História de Pescador, mas sentem um certo receio em expor suas gafes, cometidas em alguma pescaria na qual tenha sido alvo das piadinhas dos companheiros.
Eu não me preocupo nadica de nada com isso, tanto que, se algum amigo pescador souber de alguma pisada no jenipapo da minha parte, que fique à vontade e se faça presente, já que o endereço está logo ali no pé da página. Só não vale contar a história do pintado que cravou o seu ferrão no meu peito. Essa pisada quase fatal, que me afastou para sempre do pantanal, vai merecer com certeza uma atenção especial da jornalista-pescadora Roberta Mathias. É só esperar e acreditar na veracidade do que vai ser contado, cujo local onde aquele fato aconteceu é o mesmo desta história, mas o ano foi 1990, quando definitivamente encerrei a minha tumultuada carreira de pescador. É só esperar a oportunidade. Mas a história também verídica que hoje passo a contar, aconteceu no rio Salobra que também é chamado carinhosamente de Salobrinha pelos moradores da região, e que se junta ao Miranda alguns quilômetros acima do Rancho do Zolindo onde estávamos alojados, isso o ano de 1988.
Para os que não conhecem o local, da porta da casa via-se perfeitamente a grande ponte metálica da N.O.B. sobre o Mirandão, e sob ela o Rancho da Neusa, famoso pelo caldo de piranha que ali é servido e cujo segredo ela não dava para ninguém. Digo não dava porque, modéstia à parte, sendo cozinheiro, trocamos algumas receitas e fiquei sabendo dos ingredientes corretos para a feitura daquela iguaria do pantanal.
Entre as feras do molinete presentes nesta pescaria, eu me considerava um aprendiz de pescador, devido à larga experiência pantaneira acumulada em dezenas de viagens, que foram feitas pelos demais companheiros, a saber: Professor Augustinho, Rubens Canhête, meus irmãos Chico Luzia e Fernando Lucilha Jr., Célio Tentor, Neguitinha e Luiz Vicente, a maioria do ex-Banespa e muitos ainda na ativa naquela época.
No segundo dia da nossa chegada, logo cedinho, eu, Fernando, Rubens, e o Luiz Vicente subimos o Miranda e em seguida o Salobrinha, em busca dos lambaris e sauás que seriam usados na captura dos bitelos. O rio estava muito baixo e chegamos até onde a hélice do motor quase tocava na areia, sendo a água tão clara que nos permitia ver com perfeita nitidez as piraputangas, piavas e pequenas arraias pintadas fugindo rio acima, num maravilhoso espetáculo que dificilmente voltarei a ver, mas que jamais esquecerei.
Algum tempo depois e com o viveiro do barco abastecido de iscas, iniciamos a volta que seria coroada por lances mirabolantes dignos de um filme-comédia com as presepadas do impagável Jerry Lewis. Por razões desconhecidas e um tanto quanto misteriosas (chegamos a pensar em instalar uma CPI - Comissão de Pesca Investigativa), o motor do barco se recusou a pegar e nos deixou à deriva e não teve cordinha puxada que desse jeito, ficando todo mundo com o braço arriado nas dezenas de tentativas de fazê-lo roncar.
E foi então que nos demos conta de que estávamos com apenas um velho e surrado remo, com um arame enrolado acima da pá, que demonstrava claramente a sua precariedade (estava rachado). O mano Fernando de posse daquele instrumento, não conseguiu evitar que o barco fosse para a margem e, ao tentar impulsioná-lo com o remo junto à barranca, pois é senhores leitores, ele quebrou exatamente na pá que ficou boiando e balançando na água, como se estivesse dando um leve tchauzinho aos nossos olhos arregalados.
E agora José? Sem motor, sem remo, dentro do rio, no meio do mato e sem cachorro? Desespero total da tripulação. Passado o primeiro impacto, todo mundo começou a dar gostosas gargalhadas misturadas com um leve histerismo. E foi numa delas que a minha Dircinha Batista velha de guerra (dentadura), saltou da minha boca batendo na borda do barco e caindo dentro dágua. Entre espantado e incrédulo, pulei para dentro do rio e graças à pouca profundidade e à clareza da água, consegui recuperar a minha preciosa mandíbula superior.
Teve pescador que, de tanto rir, acabou molhando as calças num ligeiro mix, vendo o meu grande desespero na tentativa de reaver o meu sorriso submerso. Já imaginaram a minha situação tendo que passar os dias restantes da nossa pescaria tomando apenas o caldo de piranha da Neusa? Não ia ser muito saudável para o meu organismo.
Depois de um longo e irritante tempo descendo ao sabor da correnteza, começamos a ouvir ao longe um ronco abençoado de motor subindo o rio, com certeza também em busca de iscas; e era. Para nossa maior alegria, notaram os acenos nervosos e espalhafatosos que fazíamos e se aproximaram. Eram pescadores de São Paulo que estavam alojados num rancho mais abaixo da ponte citada no início da história. Devidamente rebocados , a volta foi a maior farra onde o meu sorriso era, sem dúvida, o alvo principal de todas as piadas possíveis e imagináveis. Mas eu prometo voltar e a minha vingança será maligrina. Até a próxima e aquele piscoso abraço.
Irineu Luzia Fernandes é pescador e contador de histórias.