07 de julho de 2026
Geral

A Regente

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 7 min

Muita gente se pergunta qual é importância do regente quando vê a apresentação de um coral ou de uma orquestra. Para quem não entende de música, aquela figura, que geralmente fica de costas para o público e faz inúmeros movimentos de mão, é uma mera figuração, que não tem participação efetiva no resultado sonoro do grupo, pois não está com nenhum instrumento. Engano. O regente, na realidade, é o verdadeiro intérprete da peça musical, sem o qual ela seria inviável. Com anos de experiência à frente de corais de adultos e crianças, a regente bauruense Regina Damiati explicou, em entrevista ao Caderno Ser, como trabalha uma regente e contou sobre a sua trajetória musical, que começou ainda na infância.

Jornal da Cidade - Como você entrou em contato com a música, qual a sua formação?Regina Damiati - Eu toco piano desde pequena, sempre quis. Me tornei pianista, fiz especialização. Depois resolvi aprender a tocar viola de arco e, mais tarde, abri uma escola, onde comecei a dar aula de teoria, teclado, história da música, mexia com tudo. Quando estava me aperfeiçoando em tudo isso, o Yázigi me chamou para reger um coral lá. Eu tinha feito faculdade de música e dentro do currículo havia estudado a matéria regência. Disse que não tinha experiência na área, mas acabou dando certo, o coral dobrou de número e desde então tenho trabalhado mais com regência do que com qualquer outra coisa. Tenho os dois corais que rejo no Colégio São José, um de adultos e outro de crianças, também rejo o coral da Unimed, do Yázigi e ainda dou aula de piano e toco viola de arco na USC.

JC - Você não pensa em fazer a faculdade de regência um dia?Regina - Queria muito ter feito, mas agora para mim é inviável porque não tenho como abandonar meus compromissos profissionais aqui em Bauru para estudar em Campinas. Além disso, tenho uma filha de 9 anos. Mas eu fiz muitos cursos de regência, estudei com a Mara Campos, com a Mary Goetze, com os Canarinhos de Petrópolis, muitos...

JC - As pessoas não sabem qual é o papel do (da) regente para uma orquestra ou coral. O que exatamente ele (ela) faz? Regina - O regente coordena o grupo - que pode ser um coral ou um grupo de instrumentos - e decide a dinâmica do grupo. A interpretação da música é do regente. Se tem que cantar mais forte num tal pedaço, mais lentos ou mais rápido, é o regente quem vai determinar. Ele também tem que entender de técnica para poder exigir tudo isso, se diz que quer uma parte mais forte, tem que estar preparado para ensinar ao músico como é que se faz isso. Ele dá as coordenadas. Os melhores corais possuem uma pessoa para cuidar apenas da técnica vocal dos cantores, então nesse caso isso não é da responsabilidade do regente, mas isso não acontece sempre. Os regentes também escolhem o repertório e o arranjo que o grupo vai apresentar.

JC - Regente é a mesma coisa que maestro?Regina - O termo maestro é mais usado para quem está à frente de uma orquestra mas, na prática, o papel é o mesmo. O maestro tem que estudar mais que o regente. Numa orquestra, por exemplo, o regente não é obrigado a saber tocar todos os instrumentos, mas ele tem que entender sobre a técnica de todos os instrumentos.

JC - Por que o maestro tem que estudar mais do que o regente de vozes?Regina - Porque uma orquestra sinfônica possui de 15 a 25, 30 naipes. O que são naipes? Naipe de 1º violino, de 2º violino, viola, violoncelo, fagote, percussão, harpa, piano, às vezes solista... Cada um com uma entrada. O regente lê uma partitura que é um absurdo, se são 15 naipes, são 15 pautas. O papel dele é fundamental, não há como tirá-lo da frente da orquestra, isso não existe.

JC - Regentes diferentes produzem peças musicais diferentes a partir da mesma partitura? Regina - Sim, no caso da música erudita, por exemplo. Mozart e Beethoven não tinham nada gravado por falta de tecnologia na época, então não se sabe ao certo como se tocavam suas peças musicais. Que interpreta isso é o regente, ele é quem vai, com seu conhecimento e até com a sua impressão pessoal sobre aquele tema, dizer como ele deve ser interpretado. Uma música popular também, se você pegar um mesma música e colocar na mão de dois regentes, ela vai sair diferente. Vai da interpretação de cada um deles.

JC - Na orquestra, ou no coral, os intérpretes têm tempo de olhar para o regente tendo que ler a partitura também?Regina - Todo mundo acha que eles nem olham para o regente, mas olham sim. Acontece que todo mundo tem uma partitura complicada na frente, por isso não pode ficar olhando diretamente para o regente. O que eles fazem é olhar para a partitura mas ficar prestando atenção no movimento do regente com a sua visão periférica. O que interessa para o músico é a regência dentro do compasso, do tempo. A música é formada por compassos, se eu estou num compasso quaternário, de quatro batidas e me perco, busco referência no regente, a pulsação está com ele. Imagine: cada pessoa tem uma pulsação, um ritmo de vida, quem vai controlar todos essas pulsações é o regente.

JC - O regente significa quanto, em porcentagem, da apresentação musical? Regina - É claro que sem os músicos não há orquestra, mas sem maestro também não. Eu diria que ele é 80% do resultado final. Um quarteto não tem regente, mas o violino é quem comanda, sempre vai ser necessário que alguém comande para que o resultado dê certo. Mesmo que o maestro dê o andamento, não é só seguir em frente e pronto. Cada um pode querer entrar no seu ritmo e a peça não sai. Mesmo quando ele está lá existem naipes que começam a correr. O papel dele é colocá-lo de volta no lugar. Se for um ensaio, ele pára e corrige os músicos. Na hora da apresentação, ele usa sinais, existem muito códigos que ele usa para comunicar os músicos do seu andamento. Mas o mais difícil nas orquestras são as entradas. Por exemplo, se o violino está com o tema e a viola pára de tocar por 20 ou 40 compassos, como o músico vai saber quando entra de novo? Não dá para acompanhar a música e contar 40 compasssos, a gente se perde. É o maestro quem indica a hora da entrada. Na apresentação da Osesp aqui em Bauru, eles apresentaram uma peça de Romeu e Julieta, de Prokofiev, a parte de morte de Teobaldo tinha muita pulsação, muitos pizzicatos, sem o regente ali na frente, a música não sairia.

JC - Para que serve a batuta? Regina - Geralmente, não é uma regra, quando a música é mais romântica ou quando se tratam de vozes, você tem a expressão da mão. Então eu posso fazer movimentos que demonstram o que deve ser feito. Existem n posições de braços que podem ser feitos. A batuta, por ser um objeto sem flexibilidade é usada em músicas mais rígidas, que exigem mais pesadas. É a ponta da batuta que define o tempo, a pulsação. Um coral regido com batuta vai cantar mais pesado no final de cada frase sem perceber. Tudo o que o regente faz ele passa para o grupo.

JC - Quais são os seus compositores preferidos?Regina - Adoro Mozart, Beethoven e Bach. Gosto de Chopin para tocar piano. Na verdade, gosto de todos, é que para ouvir gosto mais de Mozart, para tocar gosto mais de Beethoven... todos são ótimos de ouvir, depende do momento.

JC - Quem quer começar a ouvir música erudita deve escolher que compositores?Regina - Existem livros que explicam a história da música, essas pessoas podem estudar e se tornarem musicistas, ou seja, pessoas que estudam música não para executar mas para entender. Mas eu acho que a melhor maneira de conhecer essas músicas é conhecendo na prática, ouvindo. Eu recomendo começar por aquelas que são mais conhecidas, como a 5ª e a 9ª sinfonias de Beethoven, as Quatro Estações de Vivaldi... Quando eu era pequena e já estudava piano, uma tia me disse: Quando você ouvir uma música, procure não ouvir o óbvio. O que é o óbvio? O que está sendo cantado. Então é preciso ouvir tudo o que está lá dentro, comece a ouvir os instrumentos em separado, só a percussão, só a guitarra, só o baixo. É isso que eu indico.