08 de julho de 2026
Geral

Simulações ensinam na prática

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 5 min

O uso de atividades práticas interativas é cada vez mais comum no mundo empresarial, dos cursos e treinamentos, que usam técnicas de simulação às entrevistas admissionais, nas quais o candidato é testado como se já estivesse desempenhando a função que está pleiteando. Segundo o consultor e professor de marketing e finanças Carlos Roberto Sette, no que diz respeito ao ensino, esse tipo de prática é muito mais eficiente e didática do que os cursos e palestras tradicionais nos quais alguém sobe num palco para ficar falando por horas e horas enquanto os ouvintes - cheios de apostilas e folders nas mãos - ficando tentando se manter acordados. Na prática você vivencia a situação, diz.

Sette, juntamente com a professora Regina Maria Vidotti e o professor Paulo Marques Filho, já ministraram em Bauru um curso nesses moldes, chamado Jogos de Negócios, no qual os participantes (empresários, gerentes e administradores) fazem simulações sobre aspectos do mercado como se estivessem dirigindo a própria empresa. De acordo com Sette, os cursos com participação e simulações já são comuns nas grandes capitais, mas ainda não chegaram de vez no Interior. Até a Fundação Getúlio Vargas usa a simulação de cenários em algumas matérias.

As atividades interativas e as simulações começaram a ser usadas nos anos 90, de acordo com o consultor. Hoje, além de aplicadas em cursos, principalmente os in company, elas também são utilizadas para a escolha de novos funcionários. O Ricardo Semler (autor do best-seller Virando a Própria Mesa) usa essa técnica para seleção de pessoas que entram na sua empresa, porque pode testar a agilidade do raciocínio da pessoa, lembra Sette. Em outras palavras, é preciso cada vez mais que os candidatos sejam rápidos e competentes, pois precisam tomar decisões imediatas que sejam corretas.

Na prática

De acordo com Sette, nesse tipo de curso, os participantes são divididos em grupos e colocados em uma situação como se eles trabalhassem com o mesmo produto. Então, criamos cenários típicos do mercado: queda de juros, aumento do dólar, piora nas vendas... Dai os grupos fazem o que chamamos de jogadas, se posicionando diante da situação, explica. A participação de cada grupo é avaliada no final das aulas.

O uso desse método, de acordo com Sette, permite que se trabalhe com conceitos de marketing, produção, logística e planejamento estratégico, de uma forma interativa que aproxima os participantes da vida real. As pessoas, no fim de cada aula, têm a oportunidade de trocar de idéias sobre que estratégias usaram para desenvolver o seu trabalho, diz. Na opinião do consultor, esse tipo de curso faz com que o participante desenvolva a sua capacidade de tomar decisões pensando sempre em todas as variáveis e riscos. A pessoa também aprende a raciocinar rápido e com responsabilidade, pois precisa tomar uma decisão vital para o seu futuro profissional em questão de minutos.

Profissionais devem se integrar à tecnologia

As pessoas estão preparadas para absorver a quantidade e a qualidade de tecnologia que está sendo gerada atualmente? Quem trabalha com essa tecnologia está devidamente integrado a ela ou tem uma visão limitada, que permite apenas a utilização parcial dessas modernas ferramentas? Perguntas como essas estão na pauta do dia no meio organizacional e representam dúvidas que preocupam a medida em que a tecnologia cada vez mais interfere no dia-a-dia das empresas. Com mais de 20 anos de experiência profissional em projetos de grande envergadura em empresas latino-americanas e européias em temas de organização e mudança, o argentino Roberto Alvarez Roldán é um especialista no assunto.

Pergunta - As experiências de integração de tecnologia e pessoas que o senhor acompanhou são positivas ou não?Roldán - As experiências são boas ou más, dependendo de se o fator humano é seriamente considerado nos processos de transformação. Até há pouco tempo, todo projeto de mudança baseado em novas tecnologias centrava o seu orçamento no desenvolvimento tecnológico, com a presunção de que as pessoas se adaptariam. A realidade, na prática, foi muito traumática: grandes investimentos em tecnologia não se pagavam porque as pessoas simplesmente não utilizavam os novos sistemas. O desafio é passar de sistemas que, embora funcionem, não são utilizados, a sistemas que realmente são utilizados pelas pessoas. Para isso o fator humano deve ser considerado desde o primeiro momento do projeto, tanto nos aspectos vinculados à aceitação da mudança quanto nos vinculados à criação de capacidade para utilizar o novo.

Pergunta - Quais são suas sugestões para que o processo empresarial seja o menos traumático possível? Roldán - A chave do gerenciamento de um processo empresarial se baseia em, primeiro lugar, entender o interesse das pessoas e, em segundo, em gerenciar as expectativas. Se estes dois elementos são trabalhados de maneira sincronizada e adequada, as mudanças se tornam menos traumáticas. Mas, entenda-se bem: uma mudança é uma modificação do status quo e na prática isso sempre implica dor. Mais ainda: se não há dor, é possível que a mudança não esteja ocorrendo. A chave para quem lidera estes processos se baseia em gerenciar esta dor em troca de um futuro melhor.

Pergunta - Há empregos para quem não está atualizado tecnologicamente? A perfeição tecnológica não chegou a tal ponto de dificultar a empregabilidade?Roldán - A atualização tecnológica deixou de ser o domínio de um pequeno grupo qualificado de pessoas. A tecnologia de hoje é muito fácil de usar e não apresenta limites de idade nem de conhecimento. Obviamente, os avanços tecnológicos modificam o perfil das pessoas para os trabalhos. Não é um problema de empregabilidade, mas um problema de adaptação a novas tarefas, que em alguns casos, requerem uma capacidade de gerenciamento superior. Entretanto, a barreira não está nas pessoas. A barreira está na capacidade da gerência de conseguir com que as pessoas queiram jogar esse novo jogo.

Pergunta - Existe o risco de a empresa se desumanizar com o aumento da tecnologia?Roldán - Dado que a tecnologia obriga que as pessoas pensem mais e trabalhem mais em equipe, não existirá um processo de desumanização. Existirá uma mudança na forma de relação entre as pessoas. O que antes se fazia com um aperto de mãos hoje se faz com um click e um enter. Em ambos os casos, existe o mesmo nível de compromisso, mas mudou o mecanismo de comunicação.