Era uma daquelas noites frias de inverno e eu estava em meu quarto, concentrado na leitura de um livro quando o celular tocou. Nitidamente angustiada, uma brasileira perguntava-me se eu tinha tempo naquela noite para uma confissão.
Respondi que sim e quarenta minutos depois ela chegava ao mosteiro acompanhada de uma amiga. Depois de sua confissão, no momento de nossa despedida, sua amiga, também brasileira, demonstrou o desejo de ter uma conversa comigo. Foi então que a jovem abriu seu coração: quando era adolescente seu relacionamento com sua mãe não era nada fácil. Em um determinado dia, houve entre as duas uma séria discussão.
Depois de ofensas mútuas, esta brasileira foi para a casa de uma amiga com a intenção de passar alguns dias. Foi o último encontro entre mãe e filha. Na semana seguinte a mãe morria em um acidente de carro. A partir daquela época a jovem não encontrara mais paz. O desejo de reconciliar-se com a mãe e a separação através da morte tornaram-se uma verdadeira tortura.
Nossa conversa não demorou pouco, mas acredito que através dela aquela jovem relembrou-se de como a mãe a amava, convenceu-se de que através da morte todos os ressentimentos de sua mãe haviam desaparecido e que sua mãe a acompanhava desejando que ela fosse feliz.
Faltavam ainda dois dias para o Natal, mas tenho certeza que para aquela brasileira, como também para mim, o Natal acabava de acontecer naquela noite.
Ao mesmo tempo que o ser humano possui sua individualidade, ele desenvolve-se como pessoa integrada em um cosmos social. A vida humana constitui-se, na verdade, na dialética entre as particularidades do indivíduo e sua inter-relação com os outros e com o meio ambiente.
Na interação entre o indivíduo, os outros e o universo, o ser humano possui a chance de viver sua felicidade, sendo que esta deve ser entendida não como um objetivo a ser alcançado, mas como um caminho a ser percorrido.
Manter-se neste caminho, ou seja, estar em uma constante realização pessoal significa aventurar-se em três dimensões fundamentais da vida.
A primeira dimensão é o relacionamento harmonioso consigo mesmo. Nenhum ser humano é feliz se não for capaz de amar a si mesmo. É fundamental poder olhar-se no espelho e dizer a si próprio: Eu te amo. Eu não desejo ser outra pessoa. Eu quero continuar a ser você mesmo. Este amor pela própria pessoa depende de um processo constante de auto conhecimento através do qual procuramos ter a maturidade de nos confrontar com os aspectos positivos e negativos de nossa natureza. A segunda dimensão é o relacionamento harmonioso com o Outro. Este relacionamento está intimamente ligado à primeira dimensão, pois se o mandamento judaico-cristão ordena a amar o próximo como a ti mesmo, ninguém é capaz de amar o outro, se não ama a si próprio. Ao mesmo tempo é inquestionável que nosso bem estar depende da relação que construo com as pessoas que encontro em meu cotidiano. Através desta inter-relação com os outros vivo um processo de humanização, aprendendo cada vez mais sobre a natureza humana e encontrando a única chance de ser feliz: amar e ser amado por alguém. A terceira dimensão é o relacionamento harmonioso com o meu meio ambiente. Ninguém é feliz se não sente-se bem no lugar onde vive. O nosso universo (casa, bairro, trabalho, lugar de lazer, etc.) influencia fortemente o nosso desenvolvimento humano.
É nele que posso ou sou impedido de me trans-realizar como pessoa.
Sem dúvida alguma, nestas três dimensões fundamentais da vida é inevitável a experiência do conflito ou da crise. Conflito é prova de que existe autenticidade na relação. O amor amadurecido é união sob a condição de preservar a integridade própria, a própria individualidade.
(...) No amor, ocorre o paradoxo de que dois seres sejam um e, contudo, permaneçam dois. (Erich Fromm). A crise ou o conflito, apesar de trazer a dor, significam a chance de amadurecimento na relação individual, social e ecológica.
Quem nunca viveu uma crise está condenado a infantilidade.
Ao viver uma relação harmoniosa nas três dimensões da vida expostas acima, o ser humano alcança, por conseqüência, uma quarta dimensão: o relacionamento harmonioso com o Ser Transcendente que chamamos de Deus. Independente de pertencer ou não a uma religião oficial, ao viver uma relação de amor comigo mesmo, com o outro e com meu meio ambiente, estou em relação com a Força que me ajuda a ser mais humano e profundamente religioso. É verdade também que são estas três relações da vida que determinam a verdadeira função da religião. Se esta não me leva a ser um amante da vida, ela pode tornar-me um crente, mas nunca um religioso. O ser religioso é aquele que pode dizer à sua vida: Amo-te como amigo e como amante. Nunca sempre diversa realidade. (Vinícius de Moraes)
(*) Padre Beto Especial para o JC Cultura
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