08 de julho de 2026
Geral

Bauruenses aplaudem a Osesp

(*) Hélcio Pupo Ribeiro
| Tempo de leitura: 6 min

Orquestra, palavra de origem helênica, designava o espaço circular existente nos teatros gregos para acomodar músicos, cantores e dançarinos. Localizava-se entre o público (platéia) e os atores (palco). Hoje é conhecido como picadeiro.

No século V a.C, historicamente o período de ouro, devido às grandes contribuições no setor cultural, feitas por Péricles, governador de Atenas. Os teatros mais conhecidos e até hoje em atividade, são: o teatro de Marcelo, de Dionísio, Epidáuro e Delfos.

Foi somente na Renascença, porém, que a palavra orquestra se fixou definitivamente como indicativa dos conjuntos e grupos instrumentais. Mas somente alguns séculos depois, em Veneza, no século XVI, é que o novo título passou a ser usado.

Sinfonia é forma de composição musical mais perfeita de todos os tempos. Surgiu no início do século XVII e gerou, com o passar do tempo, outra forma de composição: a sonata, de nacionalidade italiana (sonar ou suonare, isto é, fazer soar). Da sinfonia nasce nova forma: a abertura, que obteve grande importância com a ópera, pois sua finalidade era abrir o espetáculo. A sinfonia, escreve A. Rezende Martins, é ponto culminante da música absoluta, suprema realização do belo musical. Pode ser comparada, na literatura, à epopéia.

Outra modalidade de composição surgiu com o poema sinfônico, criação do genial Franz Liszt. Apareceu no período romântico da história da música. Sua estrutura contém movimentos mais livres, mais melodiosos e interessantes. Também é conhecido como música de programa porque pretende descrever, através dos sonos, obras de literatura dos grandes mestres do Romantismo. O poema sinfônico tem, então, mais vibração, colorido e ritmo, com os quais os compositores se sentem muito à vontade. Um dos músicos que enriqueceu a inovação de Liszt, foi Hector Berlioz (1803-1864). Ele valorizou o gênero, com Romeu e Julieta, baseado em Shakespeare. Deu nova expressão à música, fazendo-a transmitir com veracidade, colorido e força, o seu intento de comunicação auditiva.

Entretanto, esclarece o musicólogo Lopes Graça: não há um inventor da sinfonia. Haydn foi tão somente quem, cristalizando, por assim dizer, as experiências de seus predecessores, deu à sinfonia a sua feição formal mais ou menos definitiva. Haydn (1732-1809) é considerado o pai da sinfonia porque escreveu 104 delas, título não tanto adequado em razão do número alto de peças sinfônicas. Melhor será, então, qualificá-lo por ter criado a estrutura instrumental que determinou para executá-las.

Historicamente, Mozart (1756-1791), trouxe à sinfonia um delicioso sentimento de forma e um inigualável senso de beleza tonal. Mas Beethoven foi além, aduz David Ewen, não só dilatando a estrutura sinfônica senão, também, aumentando o poder da música, a fim de obter mais profundos sentimentos.

A Sinfonia n.º 5, em Dó menor, Opus 57, do grande mestre clássico, abriu o ótimo programa, não por apresentar tal obra, consagrada, tocada e repetida quase que exaustivamente. Valeu e muito, tal interpretação que Roberto Minczu, à frente da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, deu a essa obra-mestra, um vigor musical incomum no desempenho da famosa obra. Não é sem razão que é diretor artístico-adjunto e regente associado da Osesp.

Ao eclodirem vivas, pertinentes, incisivas as quatro notas iniciais da empolgante sinfonia - tá, tá, tá, tá... tá, tá, tá, tá... fomos alertado para a figura vibrante e nobre, humanamente viril do simpático condutor que, como um êmulo de Bernstein, Seiji Ozawa ou Simon Rattle, dirigia cerca de cem professores de música, pois que o são. Mas, não, tínhamos ali, à nossa frente, um novo valor da música erudita, oferecendo-nos a sua versão, empolgante e categórica.

Composta em 1807 e apresentada em Viena no ano seguinte, o próprio compositor elucidou o aparente enigma das quatro notas repetidas: É o destino que bate à porta. Sobre elas, que se repetem no decorrer do primeiro movimento - Allegro con brio - percebemos a plenitude poderosa de calor e expressão que faz da Quinta, a mais conhecida e divulgada das nove sinfonias do gênio de Bonn. Suas características intensamente humanas, sugerem a terrível luta do indivíduo contra o Destino. O allegro (scherzo) e o allegro (presto), coroam com apaixonada emoção, a vitória do homem contra a sina inexorável que o tortura. O tema obscuro do passado não é mais que uma sombra que a memória espalha sobre o radioso presente, completa Ralph Hill.

Retornando ao poema sinfônico, diremos que ele foi criado por Liszt. Sua forma musical, inserida no período romântico, à deriva da sinfonia, porém com movimentos mais livres em sua constituição. É comumente denominado de música de programa ou descritiva. Sua pretensão é interpretar pela música, o conteúdo poético de obras célebres de literatura - versos, poemas, contos românticos etc. - dando-lhes novo colorido, expressão mais viva e comunicativa.

Richard Strauss (1864-1910), é dos autores mais significativos. Não tem nada a ver com os Strauss das valsas. Ele ensinou a sua geração um modo inédito de tornar a música instrumental bem compreensível e significativa. Foi capaz de elaborá-las tornando-se compreensíveis ao público em geral. Don Juan, poema op. 20 deu ao compositor o título de gênio, consagrando-o na história da música. Foi composto aos vinte e cinco anos de idade, inspirando-se no poema homônimo de Nicolaus Lenau. Meu Don Juan, explica Lenau, não é homem ardoroso perseguido eternamente pelas mulheres. É o anseio que nele existe de encontrar uma mulher que encarne para ele todo o sexo feminino e gozar numa só todas as mulheres da terra.

Mozart também abordou esse tema e o resultado extraordinário foi a ópera Don Giovanni. Strauss dividiu o poema sinfônico de Don Juan em três seções: a primeira, altiva e tempestuosa, perpassa pela orquestra como vendaval, dá início à obra e simboliza o conquistador. A segunda, transmite os desejos do arrebatado e insistente mulherengo, e o terceiro, personalizado pelas trompas (instrumento que Minczuk domina amplamente), reflete o Don Juan aventureiro.

Veementemente saudado pelo entusiástico público no auditório do SESC, o maestro Roberto Minczuk concedeu três extras, dos quais, por motivo de ausência, não ouvimos um deles.

Com o fulgor e a exatidão instrumental da Osesp - afinação absoluta, ataques precisos, coesa como um só instrumento, dinâmica excepcional - fluiu com vigor a Morte de Tibaldo, do Romeu e Julieta, de Prokofiev (1891-1953) baseada na grandiosa obra de Shakespeare. Mais aplausos e outro extra; desta vez do inglês Sir Edward Elgar (1857-1934): Pompa e Circunstância n.º 1, da suíte de seis marchas que Elgar escreveu em 1901, homenageando o rei Eduardo VII, cujos andamentos se mostram mais cerimoniosos que marciais. A de n.º 1, que ouvimos, é a mais conhecida porque a mais executada. O título, outra vez, é fornecido por Shakespeare e se refere a Otelo, quando o Mouro de Veneza, no auge do desespero grita, exaltado: Adeus às pompas e circunstâncias da guerra gloriosa... O andante pomposo, marcante e eloqüente faz soar inesquecível tema melódico, versado sobre o hino Land of Hope and Glory (Terra da Esperança e da Glória). Diante da beleza musical do tema, Elgar exclamou: Uma melodia como esta só aparece uma vez em toda a vida.

Louvores à Osesp. Foi a melhor orquestra que já tocou em Bauru.

(*) Hélcio Pupo Ribeiro Especial para o JC Cultura