Enquanto se debateu a discriminação racial em Durban, na África do Sul, aqui no Brasil surgiram algumas propostas, ditas com essa intenção, mas que nos deixam preocupados se seria esse mesmo o caminho. Uma delas já em debate é a reserva de vagas para negros nas universidades. Uma outra já aventada é a formação de classes especiais para negros no ensino médio com vistas a prepará-los melhor para o ingresso na universidade. O propósito divulgado de tais medidas é o de diminuir a desigualdade de oportunidades mas, se a intenção é boa, será que a sua prática serviria para esse objetivo? Não estaria contribuindo, quem sabe, para agravar o problema, desenvolvendo um sentimento de segregação? Como se sentiriam os jovens que ingressassem na universidade pelo favor da lei? Não se tornaria explícita uma condição de inferioridade, mesmo que o desempenho na seleção fosse superior aos dos outros? Como seriam vistos pelos outros que concorreram pelo critério comum?
O problema maior do negro talvez seja o preconceito racial, que a lei já proíbe com rigor e que, apesar disso, existe de forma camuflada. O problema maior é o mesmo de muitos milhões de brasileiros - é a pobreza. A dificuldade de ascensão social não está na cor da pele, está no acesso à educação desde o ensino fundamental. Se quisermos, não só que os negros, mas que todos os brasileiros tenham oportunidades de crescer socialmente, teremos que lhes dar boas escolas, que hoje são privilégio de um segmento menor da nossa sociedade. Os que têm alguma posse pagam o ensino básico, que hoje está preparando melhor que o público, para desfrutar da gratuidade no ensino superior. Os que não têm posses têm o ensino básico gratuito mas que, salvo algumas exceções, não prepara o suficiente para a disputa de vagas no ensino superior gratuito. Estas, que são gratuitas, são ocupadas pelos que poderiam pagar, enquanto a maioria que não pode pagar já se endivida antes de se formar usando, quando consegue, o crédito educativo.
Voltando ao problema da discriminação, não imaginamos a busca de soluções apenas nas críticas e protestos contra o governo e as classes dominantes. Todo processo de melhoria exige esforço próprio. Conhecimento e competência a gente não compra nem ganha, a gente adquire pelo esforço, pela dedicação. Essa é a condição para melhorar de vida. A sorte não conta, porque tanto ela quanto o azar são exceções. O governo, como as empresas, tem condições e obrigação de ajudar, mas nenhuma ajuda terá efeito positivo se não contar com o esforço do próprio interessado. No caso do ensino público, em que pesem o desestímulo dos professores e a escassez de recursos para as instalações, poderia ser melhor se cada comunidade, independente da cor e posição social de seus membros, cuidasse da sua escola com carinho. Onde isso é feito as melhoras são sensíveis. Imaginemos o professor do ensino básico que chega à escola e a vê com os vidros quebrados, com móveis quebrados, com goteiras, com alunos descuidados e mal-educados, que não pode passar dever de casa porque os alunos não fazem e a família não se importa, e que ao sair encontra o seu veículo, adquirido com sacrifício, todo riscado. Que resultado se pode esperar? Imaginemos, agora, o professor que chega à escola de um bairro humilde onde os pais ajudam na manutenção, com as suas habilidades de encanador, pedreiro, pintor, eletricista, marceneiro etc. e as mães ajudam na limpeza e na merenda e exigem que seus filhos façam as tarefas como as mães das classes mais altas, qual seria o resultado? Faria diferença de ser preto, branco, empregado ou ter alguma posse, mesmo pequena?
O que imaginamos é que a energia das classes menos favorecidas não fosse usada somente para protestos, mas para uma união de esforços no sentido de se protegerem e se desenvolverem. O governo pode ajudar mas não resolver. Assim também com Deus que nos ajuda se tivermos a iniciativa de fazer.