08 de julho de 2026
Geral

Por que o abandono?

Redação
| Tempo de leitura: 3 min

Atirado tristemente sobre um leito de hospital, no Rio, há dois longos anos, com graves problemas pulmonares e cardiovasculares, um famoso cantor, até então figura obrigatória da televisão, rádio, palcos, jornais e revistas do País, não lastimava a sua enfermidade, que lhe dava, sem ilusões, a consciência de que pouco tempo de vida teria para sua esposa, seus filhos e seus amigos. Lamentava, isto sim, a falta da visita de tantos admiradores que outrora o cercavam. Visitas que o ajudassem não a prolongar a existência combalida, o que ele sabia difícil, mas ao menos o animassem na espera penosa de seu momento supremo. Por isso, aos poucos que iam vê-lo na clausura hospitalar, ele desabafava na medida da tristeza de sua voz e de suas melodias: Todos me abandonaram!

O lamento não é novo, pois há quase dois mil anos, num dia melancólico em que a terra se cobriu de trevas, Jesus, em meio aos seus sofrimentos inaudíveis, emitiu, do alto de sua penosa cruz, o desabafo que haveria de ressoar e repercutir até hoje: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?. Desde então, quanta gente já não terá pronunciado, com voz forte ou tênue silêncio, o profundo e extraordinário dissabor?

Milhões, certamente, já o fizeram. E, então, há que se perguntar: por que as pessoas se abandonam ou se tornam indiferentes umas com as outras? Muitos que pretendessem respondê-lo atribuiriam a atitude a múltiplos fatores, dente eles, enfaticamente, a falta de tempo útil, porque - diriam como que justificando - a conquista de dinheiro para vencer o consumismo contemporâneo retém as pessoas mais horas no trabalho, e, conseqüentemente, as torna esquecidas dos deveres de amizade e solidariedade humana. Note-se que é impressionante, por isso, as pessoas que anos a fio consomem à manhã, à tarde e boa parte da noite em atividades profissionais simultâneas, acumulando funções que normalmente teriam de ser exercidas por mais um ou dois profissionais, tanto assim que outro dia, numa roda de conversa animada, alguém notava que se o Governo quisesse conseguir emprego para os milhões de desempregados do País seria suficiente proibir as acumulações ou racionalizar a distribuição dos serviços existentes em todos os setores de atividade. Feito isso, possivelmente, ao invés de faltar emprego, ele passasse a sobrar em boa escala, porque milhares de acumulações desapareceriam.

É admissível, ipso fato, que o problema do abandono ou da marginalização das pessoas possa ser uma questão de falta de tempo e, como o tempo a gente é que arranja ou faz, é contra isso que se tem de lutar, não ingenuamente através da desaceleração dos ponteiros dos relógios para que as horas tramitem com vagar, mas mediante acertos racionais na existência de cada um, para ter-se ao menos o gostoso prazer de ver a vida passar... E para que menos gente no mundo continuasse a sentir-se abandonada! É a nossa opinião.

(*) O autor, N. Serra, é jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.