Para especialista, o ataque aos EUA mostra que é hora de colocar em prática o que tanto se prega hoje: a paz.
O professor de geopolítica da Universidade do Sagrado Coração (USC) de Bauru, Sebastião Clementino da Silva, o professor Macalé, acredita que esse momento que o mundo está vivendo, após os atentados terroristas nos Estados Unidos, no último dia 11, é um período para reflexão.
Para Macalé, o ataque combinou estratégia, ousadia, surpresa e precisão e o mundo está em choque. Ele disse que o mundo agora está repensando a civilização e que, principalmente, os Estados Unidos devem se refazer da idéia de mundo do poder hegemônico e dar espaço para os excluídos, revendo esse poder que eles já tiveram, porque, de acordo com Macalé, o ataque aos dois símbolos, às torres e ao Pentágono, demonstrou grande vulnerabilidade e que ninguém mais está imune a um atentado.
Macalé considera que entramos na terceira ordem mundial, lembrando que a primeira foi a bipolarização e a segunda, a queda do muro de Berlim. Portanto, para ele, é a hora de colocar em prática o que muito se fala atualmente, a paz. Ele lembrou que nunca se falou tanto em paz nesse mundo ao mesmo tempo em que se ocorre tanta discórdia. Ele disse, ainda, que o século XX começa com o início da hegemonia americana e está terminando com o fim da mesma hegemonia americana. O terceiro milênio, de acordo com ele, é de uma nova face, um mundo de cultura, de inclusão, de territorialidade, onde as pessoas fazem parte da história.
Macalé afirmou que não acredita numa terceira guerra mundial convencional, ele acha que a guerra já existe, mas ela é localizada. Na verdade, para o professor, o momento deve ser considerado de reflexão para mudar. O que é repentino, como o fato que ocorreu no último dia 11, de acordo com ele, nos remete às nossas idéias, aos nossos valores, a rever os nossos valores. Está chegando a época do mundo rever os valores. É preciso fazer um mundo para todos.
Jornal da Cidade - Como o senhor analisa esse momento que o mundo está vivendo após os atentados nos Estados Unidos?Macalé - Esse momento é um momento histórico, inédito em termos de geopolítica porque não temos como dimensionar o que está causando e vai causar tudo isso porque é totalmente diferente daquilo que os americanos imaginavam, em termos de tecnologia, guerra sofisticada. Esse inimigo oculto que tem a cara do conflito cultural, socioeconômico, da crise anti-americanismo. Eu acho que o que ocorreu tem a face do descontentamento de uma nação hegemônica. Então eu acho que todo aquele poder hegemônico que os americanos desfrutaram está vindo à tona, criou o ódio, é uma relação de amor e ódio, de um lado, os EUA são envaidecidos e de outro são odiados.
Jornal da Cidade - Como o senhor analisa a atitude do governo americano em anunciar um ataque a 60 países?Macalé - Atacar 60 países significa destruir muitas pessoas civis que não têm nada a ver com a situação, é uma guerra de dimensão geoestratégica, de dimensão geopolítica e de dimensão factual. É difícil analisar o que pode acontecer. Eu acho complicado fazer uma análise. A priori, fazemos uma análise de idéias, de hipóteses.
Jornal da Cidade - Qual a influência da geopolítica em relação aos atentados?Macalé - Geopolítica é a relação entre espaço e poder, quem tem espaço, tem poder, quem tem poder, determina a ordem no mundo e, de repente, acontece a inversão da ordem no mundo. O terror militar, a preocupação com o Estado e nação deixou de existir momentaneamente, em função do terrorismo que não tem cara e está em toda direção. Então eu acho que é uma nova ordem mundial, diferente daquela do muro de Berlim, onde o mundo se preparou para um conflito de guerras nucleares, e de repente, sem nenhum estouro de guerra, ele simplesmente ruiu e aí o mundo ficou perplexo também, com o muro de Berlim que era o símbolo da bipolarização, da tensão geopolítica entre as nações. Caiu assim, como se fosse um passe de mágica. Isso é um processo da história, nada acontece repentinamente, é construção, tijolinho por tijolinho.
Jornal da Cidade - Quando o senhor fala de um processo da história, como podemos ver, dentro da história, esses ataques?Macalé - O que os americanos fizeram nesse período após a segunda grande guerra? Eles não entendem o que fizeram para serem atacados. Eles não fizeram nada, apenas são a nação hegemônica do mundo, que determina o que o mundo deve olhar, o que o mundo deve consumir, então isso tornou-se a vidraça, o farol do mundo passou a ser visto via norte-americano. Então você não tem uma visão do mundo a não ser pela ótica americana. Isso gerou um descontentamento muito grande. Essa é a pergunta que os americanos se fazem: por que estamos sendo atacados? Porque eles são o poder hegemônico e tudo o que tem poder é alvo de ataque porque determina e quem determina a ordem do mundo, é quem vai sofrer as conseqüências.
Jornal da Cidade - Como o senhor relaciona as guerras anteriores com o que está acontecendo?Macalé - A primeira guerra tinha uma dimensão local da Europa, a segunda foi mais total, mas também como território a Europa. Quando acabou a segunda grande guerra que surgiu a questão da bipolarização, o mundo ficou preocupado com a corrida armamentista e se armaram. Quando Gorbachev assumiu a ex-URSS, ele teve a percepção juntamente com o governo Reagan, de falar que uma guerra naquele momento não era interessante para nenhuma das nações porque eles cresceram de tal maneira, que uma guerra entre as duas nações seria uma guerra total, onde não haveriam vencidos nem vencedores e começou o processo de abertura de relacionamento entre a ex-URSS e os EUA. Eles perceberam que numa guerra assim, todos morreriam. Depois daquilo começou surgir a nova ordem mundial pautada na geoeconomia, ou seja, o espaço determinando a função do mundo e isso veio até o processo de anti-globalização.
Jornal da Cidade - A globalização foi tão falada como algo positivo para os povos, por que um processo anti-globalização?Macalé - A globalização passa o significado de homogeinização e não é isso que o mundo quer, o mundo quer unificação, deixar o outro também usufruir do espaço territorial, ver o outro não como inimigo, mas como parceiro e o mundo pós-guerra fria, pós-queda do muro de Berlim não permitiu que as nações emergentes pudessem ter uma outra visão de mundo, então eu acho que tudo isso vem contribuindo para esse ódio contra os americanos. A gente percebe que o terrorismo é ausência de espaço. O mundo está relacionado com o militarismo com a questão econômica e acho até que liberaram a questão civilizatória. De repente nós estamos percebendo um conflito entre o ocidente e o oriente. Nessa dimensão que o Bush colocou, a Europa aliada com os EUA, com o governo controlando contra o oriente que tem uma outra filosofia de vida e de repente o islamismo passou a ser o alvo a ser atacado. Poxa, vamos dar oportunidade para essas nações árabes que também querem desfrutar do existente no mundo.
Jornal da Cidade - Qual a sua opinião sobre o principal suspeito dos atentados, Ossama Bin Laden?Macalé - O Sadam que era o inimigo número um do americano, de repente é o Bin Laden que teve treinamento na Cia, que teve aprendizado na guerrilha americana contra o Iraque e o Irã. De repente ele foi colocado como estrategista da guerra entre o Afeganistão e a ex-URSS. Eu acho que os americanos criaram a cobra para ser picado. O criadouro está sofrendo com a cria.
Jornal da Cidade - Qual a dimensão que esse ocorrido pode ter?Macalé - Eu acho que essa dimensão é preocupante do ponto de vista de espaço geográfico, ela nos remete a uma revisão de conceito de mundo, nos leva a uma revisão de conceito de distribuição social de renda e, alerta das grandes nações, ou seja o G8, para fazer uma revisão de conceito sócio-econômico.
Jornal da Cidade - Como o senhor acha que o governo americano deveria agir?Macalé - Eu acho que o governo Bush tem que ser diplomata e ter a dimensão de um estadista. É temeroso você atacar aleatoriamente uma nação, quando você não tem prova consistente de que eles são responsáveis vitais. Atacar o Iraque ou atacar o Afeganistão em função do Bin Laden é temeroso porque já no fato do Bush falar que quer uma retalhação... Ele poderia querer não uma retaliação, mas uma punição. Retaliação lembra vingança e vingança é guerra pela guerra, salve-se quem puder e aí ele acabou gerando o xenofobismo, tudo diferente é suspeito, todo descendente de árabe passa a ser suspeito, a ser atacado, aí é que eu pergunto: o inimigo mora ao lado? Então eu acho que o Bush deve ter uma visão de estratégia muito grande nesses ataques para que não se mate civis, não coloque desenfreadamente uma guerra contra o terrorismo oculto, uma guerra contra todos. É preciso saber quem atacar, quem deve ser punido. O Afeganistão não tem nada, é um país destruído por esses anos de guerra, a única coisa que eles têm convicção é que o islamismo é a salvação, é a redenção. Quando você trata com uma nação que a morte para eles é um ato heróico é complicada essa situação.
Jornal da Cidade - Quais seriam as características desses conflitos?Macalé - Nunca se falou tanto em paz nesse mundo e ocorreram tantas guerras. Mais de 125 guerras no mundo e mudou a dimensão, deixou de ser guerra convencional para ser guerra de guerrilha, ela ocorre no território do inimigo, sofisticado, mas não com armas tecnológicas, com homens-bombas que não se importam em morrer por uma causa que eles considerem justa.
Jornal da Cidade - Como o senhor acha que os EUA ficaram após os atentados?Macalé - O governo americano com seus ícones, as torres mais o pentágono, que eram os símbolos da economia, do militarismo, da estratégia, do poder de domínio, perceberam que eram tão vulneráveis como outras nações emergentes. Acho que isso que está causando espécie dos norte-americanos: como nós fomos atacados no nosso território com todo esse arsenal? É inadmissível e eles estão se perguntando ainda, o que aconteceu com os EUA que permitiu essa vulnerabilidade?... Não importa mais o mundo, precisamos ter uma outra globalização.
Jornal da Cidade - O que seria uma outra globalização?Macalé - Seria uma globalização não uma perversa como essa e não fábula como foi colocado para nós. Porque a globalização foi colocada para nós, primeiramente como fábula, com o passar do tempo nós percebemos que ela era perversa que mais excluía do que incluía e um mundo que exclui, é um mundo em crise, e um mundo em crise, é alvo fácil para uma guerra, mas não uma guerra que aprendemos na história. Essa guerra vem primeiramente com cultura que é o único revés que pode acabar com a globalização desenfreada e a cultura é um fato local, cada povo tem a sua e tem o direito de professar a sua cultura da melhor forma possível. Nós precisamos de uma globalização como uma possibilidade de mundo, uma globalização que inclua, que unifique e não homogenize. Unificar significa dar espaço para todos, dar espaço para o diferente, e é isso que os americanos têm que repensar, a dimensão da espacialidade do outro e isso não foi visto. Eu não posso simplesmente eleger o alvo como resposta porque eu não tenho o inimigo correto e começar atirar no que viu e acertar no que não viu. Então por isso que eu acho que o governo americano deve fazer um estudo que leva uma coerência e que passe a rever essa dimensão de mundo, porque atacar aleatoriamente é suicídio e gerar o ódio do outro e se nós analisarmos o governo Bush nesses oito meses, ele cometeu coisas catastróficas.