08 de julho de 2026
Geral

Tecnologia e teologia

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Estamos acostumados a ver na televisão artefatos reluzentes que se deslocam para cima em meio a muita fumaça e fogo - os foguetes. De repente, a mesma sensação de movimento em câmera lenta só que dessa vez o monolito vindo abaixo em milhões de fragmentos em meio a muita poeira. Os devastadores ataques terroristas contra as capitais política e financeira dos Estados Unidos, completamente inesperados, espalhando destruição e morte no World Trade Center e no Pentágono, acabam também com as certezas otimistas do Sonho Americano.

O veterano colunista Robert Samuelson, do The Washington Post, escreveu que a vitória na guerra fria havia consolidado o sentimento de que o povo norte-americano fora escolhido para habitar a terra prometida. De repente, essa situação se esvanece quando nos vangloriávamos de nossa posição como única superpotência sobrevivente do mundo, saboreando a prosperidade em constante aumento e sentindo-nos a salvo dos ódios e conflitos do resto do mundo. Nem é preciso ser historiador ou astrólogo para predizer que os incríveis acontecimentos de 11 de setembro de 2001 marcarão o antes e o depois na vida americana. Nem a política estadunidense, nem a visão que têm os norte-americanos do resto do mundo e de como se relacionar com o exterior, sequer as suas atitudes e valores, voltarão a ser os mesmos.

É impossível dizer com exatidão como as coisas vão mudar, que tipo de país serão os Estados Unidos dentro de 10, 20 ou 30 anos. Mas é possível dizer, sem a necessidade de uma bola de cristal, que os americanos vão ter que buscar respostas a várias indagações, todas elas se referindo à necessidade de mudanças na concepção de sua política exterior e, por extensão, da própria postura dos seus governantes. A administração Bush estava convencida de que a segurança norte-americana exigia um enorme investimento nos equipamentos de defesa, tanto é que pedira ao Congresso mais 40 bilhões de dólares para criação de um sistema de escudos e mísseis, como se fora garantir a integridade do país desde as estrelas. Faziam parte desse plano só imaginado em filme de ficção, estações de bombardeamento fixas no espaço, capazes de atacar qualquer lugar no mundo num prazo de trinta minutos e raios laser lançados desde o espaço para pulverizar objetivos na terra, no mar e no ar. Falava-se até na possibilidade de alterar as condições meteorológicas em território inimigo.

O ataque produzido no 11 de setembro pela teologia contra a tecnologia, sem nenhum Estado responsável direto, demonstra até que ponto se equivoca o presidente Bush ao pensar que pode alcançar a invulnerabilidade de um Superman. Todos os seus engenhos de guerra, ficou demonstrado, serão insuficientes para impedir um inimigo disposto a qualquer sacrifício para deslizar por baixo do seu sistema defensivo e implantar o caos. Na próxima vez, se não for um avião convertido em bomba, será uma maleta com dispositivo nuclear tão poderoso quanto a bomba de Hiroshima. Poderá chegar via Canadá, pelo Rio Hudson ou através da fronteira mexicana. Demonstra sensibilidade o secretário de Defesa norte-americano, William Cohen, quando diz que, por mais aterradores que tenham sido os ataques, devemos nos preparar para algo pior. Os americanos devem pensar no impensável: que talvez o próximo ataque inclua um agente biológico contagioso transportado até o nosso solo ou nosso espaço aéreo em uma maleta ou garrafa.

Não é só a MTV e a McDonalds que se globalizaram - o terror também. Bush não é John Wayne. Deveria ter aprendido com a experiência de Ronald Reagan que mandou tropas para o Líbano para acabar com um punhado de terroristas covardes e insidiosos. Um só desses covardes explodiu com um caminhão-bomba o quartel norte-americano e matou 241 soldados. Dois meses mais tarde, esse terrorista de identidade até hoje não sabida expulsou definitivamente os marines de terras libanesas. A solução para essa guerra entre a tecnologia contra a teologia, somente virá se se chegar a um compromisso construído com base no respeito e na compreensão. Os norte-americanos vão aprender com essa tragédia os inevitáveis limites que a vida nos impõe: nenhum país, e nem ninguém, é absoluto absolutamente.