08 de julho de 2026
Geral

Testemunha lembra horror da guerra

Redação
| Tempo de leitura: 6 min

Pessoas que viveram momentos difíceis na 2.a Guerra e Revolução de 32 relatam experiências de grande impacto.

Fome, incertezas, saudades da terra natal, da família, amigos fuzilados e medo de morrer. Esses são alguns elementos que fazem parte de memórias de pessoas que viveram momentos de guerra e conflitos. O JC falou com alguns deles que residem em Bauru, entre eles ex-combatentes da 2.ª Guerra e da Revolução de 32. Em virtude da possibilidade de guerra devido aos ataques terroristas aos Estados Unidos, alguns deles receiam que tenham que passar por momentos difíceis, semelhantes aos vividos anos atrás.

O tenente-coronel Alekjander Gniewosz é um polonês de 80 anos, veterano da 2.ª Guerra Mundial, que veio ao Brasil após o término da 2.º Guerra Mundial e agora vive em Bauru. Ele é casado há cinco anos com uma brasileira, por quem apaixonou-se quando viúvo.

Alekjander saiu da Polônia aos 18 anos e, a partir de então, viveu durante seis anos como membro do exército polonês. Nesse período, passou por momentos difíceis em países como Hungria, França, Inglaterra, África do Sul, Madagascar, Iraque, Egito e Itália. Um dos momentos dos quais se lembra com riqueza de detalhes e datas foi sua passagem pela Inglaterra, em que chegou a passar fome. Tinha racionamento de comida na Inglaterra. As pessoas tinham que pegar senhas que davam direito a uma quantidade mínima de alimento. Nós passamos fome, conta.

A exaustão física é outro fator apontado pelo ex-combatente como uma forte recordação de seus anos de guerra. Gniewosz destacou os treinamentos que o exército polonês realizou no Iraque, num deserto, sob um forte calor, quando preparavam-se para enfrentar os alemães na Itália. Era terrível, lembra.

Mas também recorda os momentos de glória da guerra, como a maior batalha dos poloneses - Monte Cassino - , quando integraram o 8.º exército inglês, no caminho para Roma.

Passados seis anos de sua juventude no exército, ao término da guerra Gniewosz encontrava-se sem trabalho e sem poder voltar para sua terra natal. Minha profissão era o exército, disse. Eu tinha saudade do meu país, mas eu não voltaria para a Polônia porque ela foi deixada para domínio comunista. Recebi um cartão da minha tia, que não sei como passou pela censura, em que ela não me aconselhava a voltar para a Polônia. Nós ganhamos a guerra, mas perdemos a paz, conta.

O polonês tinha como opções permanecer na Itália, ir para a Inglaterra (onde receberia salário de oficial durante dois anos) ou vir para o Brasil - proposta feita por um conhecido. Acreditem ou não, foi uma canção brasileira que marcou a decisão de Gniewosz em partir para o Brasil. Foi numa boate em Roma, em que um pianista tocou - e ele ouviu pela primeira vez - a Aquarela do Brasil. Eu pensei: quem toca uma música tão bonita deve ser um povo interessante, disse.

A segunda parte das dificuldades enfrentadas pelo ex-combatente está no pós-guerra. Ele chegou ao Brasil sem dinheiro, sem dominar o idioma oficial do País e sem ter uma profissão. Passados alguns anos e superadas as dificuldades, Gniewosz hoje, aos 80 anos, encontra-se casado pela segunda vez e vivendo em Bauru.

Traumatizado? Não, o polonês não considera-se psicologicamente influenciado pelos anos de guerra em que viveu, vendo amigos morrer a cada nova batalha. Neurose? Sofremos de neurose de paz!.

E garante não ter receio de uma nova guerra, apesar das conseqüências dos atentados terroristas aos Estados Unidos. No momento, não tenho receio. Eu acho que o papel decisivo vai estar nas mãos do Paquistão. Eles vão chegar no governo do Afeganistão e vão dizer: resolvam isso. Entreguem o homem, opina.

A família

Assim como os guerrilheiros que vão aos fronts de batalha enfrentar tropas inimigas, as famílias que permanecem em casa também vivem momentos de terror. É o caso da italiana Luciana Amaral Bahia, que hoje vive em Bauru e cujo irmão, Eros Oggi, participou da 2.a Guerra Mundial.

Oggi era estudante de Engenharia quando a guerra teve início e ele foi convocado. Luciana, que tinha cerca de 14 anos, conta que a família já tinha recordações ruins porque seu pai havia sido combatente na 1.ª Guerra. Ele já tinha passado por isso e andava com uma bala de chumbo no pescoço. Não poderia retirá-la porque poderia comprometer as cordas vocais, expôs.

A primeira má recordação apontada por Luciana, que vivia em Bolonha, é a falta de informações sobre o irmão, que havia sido enviado ao Sul da Itália e, posteriormente, à África, como prisioneiro em um campo de concentração. Ficamos um tempo sem notícias dele. As nossas cartas nem sempre chegavam a ele e as dele nunca chegaram a nós. Não conseguíamos comunicação, disse.

Quanto ao que sua família viveu em Bolonha, que era uma cidade estratégica para o exército inimigo por sediar o entroncamento das linhas férreas que ligavam o Sul ao Norte da Itália, Luciana resgata de sua memória cenas de terror. Foi horrível. Bolonha era uma cidade importante para o inimigo. Arrebentando a estação, eles interrompiam a comunicação entre o Norte e o Sul da Itália, observa.

O primeiro sintoma vivido pelas famílias italianas foi a falta de comida. Tínhamos uma quantidade limitada de comida. Era o mínimo para poder viver comendo pão, salienta.

Quando começavam os bombardeios na Itália, as sirenes tocavam e os habitantes escondiam-se nos porões das casas, locais considerados mais seguros. Os aviões soltaram bombas e nós ficamos presos embaixo da casa, no porão. A casa ruiu com uma bomba, agrava a italiana.

Os piores momentos em Bolonha, durante a 2.ª Guerra, foram os ataques-surpresa, quando o front inimigo aproximou-se da cidade e não havia tempo de fugir quando os bombardeios começavam. Fomos vivendo nessa angústia até que o front se aproximou. Quando as sirenes tocavam, eles já estavam em cima e faziam bombardeios de surpresa. Era uma carnificina, descreve Luciana.

Muitos civis foram mortos pelos alemães, de acordo com Luciana. Apareciam pessoas enforcadas nas árvores e rapazes mortos no chão. Vivemos isso até o fim da guerra, lamenta.

O irmão, Oggi, retornou à casa da família somente cerca de um ano e meio após o término da guerra. Ele não conseguia sentar. Só ficava deitado no chão. Tinha emagrecido muito e demorou até se recompor fisicamente e psicologicamente, afirma.

Luciana não esconde o temor de que volte a vivenciar momentos de guerra, principalmente agora em que o mundo vive um momento delicado em decorrência dos ataques terroristas aos Estados Unidos. Tenho medo de que aconteça isso novamente, embora eu ache que estamos fora do contexto. Mas, hoje em dia, ninguém está fora do contexto. Acontece lá e respinga por todos os cantos. A guerra não se limita ao front de batalha. Os civis também pagam horrores. Eu tenho muito medo. Estamos sentados num barril de pólvora, confessa.

Revolução de 32

Em dimensões menores, o veterano Naur Barros de Castro também viveu momentos difíceis quando participou, como soldado voluntário, da Revolução Constitucionalista, em 1932, contra o governo de Getúlio Vargas.

Naur, cujos três irmãos também foram voluntários da revolução, contou que apesar do período de violência vivido, muitos homens foram ao front de batalha movidos por um forte patriotismo. Vivemos momentos críticos, momentos de combate, tensos, de má alimentação e falta de convívio familiar, enfatiza.

A família do veterano também passou por muita angústia já que os outros três irmãos de Naur também tinham seguido em outros batalhões. Hoje, não recomendamos isso para ninguém. A violência não se justifica, opina.