09 de julho de 2026
Geral

Depressão dos pais reflete nas crianças

Rita de C. Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

O médico Domingos Garrone, que atua na periferia, diz que as crianças podem ter dificuldade até de ganhar peso

O pediatra Domingos Garrone, que atende ao público periférico tanto em creches como em unidades de saúde, acredita que a depressão dos pais reflete no peso das crianças. Tenho notado que crianças de famílias com problemas graves não conseguem ganhar peso. Percebo que de um mês para outro, sem muita intervenção, eles começam a ganhar peso. Na pesquisa, noto que os pais solucionaram algum problema que afligia a família. Muitas vezes o pai voltou para casa ou arrumou emprego, fundamenta.

O humor da criança também reflete a situação do lar. Em alguns casos, as crianças entram em depressão, passando a se retrair, sentir medo inexplicável e chorar muito. Nessas situações, os profissionais procuram saber qual é o problema para auxiliar na solução.

Na opinião do médico, a grande preocupação dos adultos da classe social mais baixa e que afeta diretamente a criança é a fome. É a pior agressão contra a criança. Subnutridas, elas não conseguem desenvolver as atividades lúdicas e seu desenvolvimento pode ficar comprometido, explicou.

A falta de lazer dessa população é outra questão que deveria ser considerada, na opinião do médico. A gente percebe que para grande parte das mulheres da periferia a reunião de pais ou uma festa de aniversário na creche é um fato social muito importante, pois não há outra forma de lazer.

Nessas ocasiões, segundo Garrone, as mulheres saem da rotina de cuidar das crianças e lavar roupa. Colocam a melhor roupa e sapato para a reunião de pais. Se sentem importantes e acham que a sua participação é um debut para a sociedade, uma vez que ela está tendo a chance de freqüentar uma festa ou uma reunião. Notamos também que as creches são locais de grande prazer, pois as crianças podem brincar. Quando vão para casa, ficam presas, pois os pais temem que ao sair para a rua elas se envolvam com coisas perigosas ou erradas.

Sofrimento é minimizado

Em um dos inúmeros barracos do Jardim Ivone reside a viúva Ana Francisca da Silva, 60 anos. Depois de criar seis filhos, agora é responsável pela educação de duas netas e sobrevive com uma pensão deixada pelo marido que não ultrapassa o salário mínimo. Dores de cabeça constante e pressão alta revelam que a viúva tem problemas de saúde, mas ela tem poucas notícias sobre o que seja a depressão. É uma doença que está sempre falando na televisão, mas que eu não sei muito bem o que é, resconhece, modesta.

Dona Francisca sofre de insônia desde que um filho morreu, há um ano. Ando pela casa feito uma assombração, exagera.

Tomando quatro comprimidos diários, ela garante que consegue afastar a tristeza com algumas atitudes. Brinco com as crianças para esquecer os problemas. Desabafo com as vizinhas e procurou a Igreja do bairro para que o pastor ore por mim. Para mim não há dificuldades. Eu vivo bem. Se tenho dinheiro para pagar o ônibus e ir ao centro da cidade, vou nele. Se não tenho, vou a pé. Se tem carne, como carne, se não tem, como arroz e feijão mesmo, declara, sem maiores lamentações.

Lazer é uma palavra fora do dicionário da viúva. Ela conta que nunca foi passear em outra cidade e que sua maior distração é cozinhar quando há mantimentos na casa. Gosto de cozinhar carne, revela, acrescentando que se diverte muito também em levar e buscar as netinhas na escola.

A guerra dos americanos, a queda da bolsa de valores e o sobe e desce do dólar não atingem o cotidiano da viúva, cuja grande preocupação é ter o que dar de comer às netas. A preocupação dela pode ser alienada, mas não deixa de ser real para o mundo em que ela vive. Mal sabe dona Francisca o quanto a crise americana pode afetar sua já difícil vida.

A viúva é só mais uma entre os milhares de brasileiros que ignoram o porquê de os brasileiros estarem com os armários vazios, de não terem assistência médica e ou simplesmentes desconhecer o direito ao lazer. A religião, somada a uma dose excessiva de conformismo, acaba fazendo com que dona Francisca e um sem-número de pessoas aceitem a situação como se ela fosse normal.