Enquanto as classes média e alta recorrem à análise, os pobres buscam solução para depressão nas igrejas e nos bares
A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera a depressão o quinto maior problema de saúde pública do mundo. Democrática por natureza, a doença ataca ricos e pobres, religiosos e ateus, jovens e idosos, independente da raça. As mulheres são o alvo preferido da doença, estando sujeitas ao distúrbio numa proporção de dois para um. Medicamentos e analistas ajudam os depressivos mais abastados, mas são a Igreja, os vícios e atitudes nada convencionais que auxiliam a população mais carente a se livrar dos sintomas.
Pelas estimativas da OMS, a depressão deverá ocupar o segundo lugar no ranking das doenças em 2020 e mais de 10% da população deverá passar por pelo menos um episódio de depre ao longo da vida. Em função disso, os antidepressivos e os analistas nunca estiveram tão em alta.
Os doentes que têm como pagar recorrem aos Prozacs (uma das drogas mais ingeridas contra a doença) e às terapias. Há casos de famílias, por sinal, que já incluíram no orçamento doméstico o tratamento psicológico. Até o Senado Federal já teria pago sessões de psicanálise para seus parlamentares.
Na camada menos favorecida da população, porém, a depressão tem um tratamento bem diferente, para não dizer original. Entre os humildes, o mal é comumente confundido com outras doenças - alguns a consideram moleza -, sendo tratado com descaso. Longe dos divãs dos psicanalistas, os depressivos da classe social baixa recorrem à religião, às bebidas e até a violência para tentar se livrar daquilo que nem eles mesmos entendem como doença. Imaginam que seja apenas um estado passageiro e chegam a demorar até cinco anos para procurar atendimento médico.
Eles nem fazem idéia que tanto a apatia como o excesso de irritação, a perda de energia, o cansaço, a insônia ou o sono excessivo, assim como a mudança de apetite, perda de memória e até pensamentos suicidas são sintomas da depressão.
Doença sem preconceito
A depressão, segundo a psicóloga Maria Lúcia Bien, não escolhe classe social, intelectualidade, raça ou cor. Todos são passíveis de receber a sua visita, a qualquer hora e em qualquer lugar, avisa. Para ela, as pessoas buscam aliviar o seu sofrimento usando as alternativas de que dispõem. Vai depender do poder aquisitivo que a pessoa tem e do que ela aprendeu durante a vida, de suas experiências e de sua própria estrutura emocional. Os mais equilibrados fazem de tudo para buscar os métodos mais adequados; outros optam pela destruição de si e daqueles que os rodeiam, explicou.
De acordo com a psicóloga, o homem deve ser analisado sob os aspectos físico, psíquico e espiritual, sendo que a depressão atinge todos esses ângulos. O indivíduo depressivo fica menos resistente fisicamente.
A outra séria faceta da depressão é sua propensão a levar o indivíduo ao uso de drogas. O depressivo com poder aquisitivo maior pode procurar um psiquiatra, um psicólogo e, com a ajuda da terapia, superar o problema, mas também pode partir para o uso de entorpecentes e bebidas, ressaltou.
Para os menos favorecidos financeiramente, a psicóloga recomenda o aconselhamento espiritual, conforme a crença. Segundo ela, a ajuda de religiosos é sempre muito importante, como também é bastante válida a ajuda de pessoas com mais maturidade. São alternativas que evitam danos maiores e resultados quase sempre positivos, ensina, emendando que a fé é um bom curativo e não custa nada. Quando acreditamos em nosso eu maior e descobrimos que não estamos no mundo por acaso, encontramos uma força interior, capaz de nos fazer superar os problemas, disse.
Desilusão leva à depressão
Minha vida perdeu o sentido quando meu marido me largou. Tinha dois filhos pequenos para criar. Pensei que não fosse superar a situação. Ficava tão nervosa que tinha vontade de sumir pelo mundo afora. Não queria ver ninguém na minha frente. Não dormia e nem tinha fome. Foi uma fase crítica de minha vida, recordou a dona de casa Márcia da Silva, 27 anos.
A crise depressiva de Márcia foi sendo superada aos poucos, sem ajuda de qualquer medicamento ou ajuda psicológica. Eu não procurei o atendimento médico. Acreditei que ia superar. Arrumei um namorado, mas ele também foi embora e eu já não sofri como da primeira vez.
Márcia apoiou-se nas amizades para superar a crise de depressão. Eu ia para a casa das vizinhas e desabafava. Contava tudo. Elas me ouviam e eu voltava mais leve para casa. Às vezes, chorava. Na igreja evangélica, recebia oração e conselhos do pastor, contou.