08 de julho de 2026
Geral

TERRORISMO NOS ESTADOS UNIDOS

Ivan Giunta
| Tempo de leitura: 5 min

Quase 15 dias depois dos horrendos ataques suicidas a funcionários civis em Nova York e Washington, está ficando dolorosamente evidente que a maioria dos americanos simplesmente não entendeu o que aconteceu. Do presidente aos passantes das ruas, a mensagem parece ser sempre a mesma: trata-se de um ataque inexplicável à liberdade e à democracia, que deve ser respondido com uma força avassaladora - assim que alguém conseguir apresentar uma conclusão crível acerca de quem foi realmente o responsável.

Vêem-se com abundância o choque, a ira e a revolta. Entretanto, parece inteiramente inexistente qualquer vislumbre de reconhecimento da razão por que alguém possa ter vindo a praticar tamanhas atrocidades, sacrificando suas próprias vidas nesse processo, ou por que os Estados Unidos são odiados com tamanha amargura, não só nos países árabes e muçulmanos, mas também em todo o mundo em desenvolvimento. Talvez seja esperar demais, no momento em que as equipes de resgate estão lutando para retirar bombeiros do meio do entulho, achar que alguém mais do que uma pequena minoria virá a estabelecer a conexão entre o que recaiu sobre eles e o que seu governo vem fazendo recair sobre muitas partes do mundo.

Porém, eles têm a obrigação de estabelecer essa conexão, se desejam que tais tragédias não se repitam, com conseqüências potencialmente ainda mais devastadoras. Os líderes políticos americanos não estão prestando nenhum favor ao seu povo ao reforçar a ignorância popular por meio de uma retórica centrada em seu próprio país. Além disso, a voz ecoante de Tony Blair, cuja determinação de vincular a Grã-Bretanha ainda mais fortemente à política externa norte-americana aumenta exponencialmente a ameaça a nossas próprias cidades, só conseguirá alimentar o sentimento anti-ocidental. O mesmo acontece com as convocações à defesa da civilização, com suas nuanças das teorias venenosas de Samuel Huntington acerca de uma confrontação pós-Guerra Fria entre o Ocidente e o Islã, elevando as percepções de racismo e hipocrisia. Para usarmos as famosas palavras da resposta do Mahatma Gandhi, quando lhe perguntaram qual era sua opinião a respeito da civilização ocidental, trata-se de uma boa idéia.

Desde que o pai de George W. Bush inaugurou sua nova ordem mundial, há uma década, os Estados Unidos, apoiados por seu aliado britânico, vêm subjugando o mundo como um colosso. Sem restrições interpostas por nenhuma superpotência rival ou sistema de governança global, o gigante americano reescreveu o sistema financeiro e comercial internacional de acordo com seus próprios interesses; estraçalhou uma série de tratados que julga inconvenientes; enviou tropas para todos os cantos do mundo; bombardeou o Afeganistão, o Sudão, a Iugoslávia e o Iraque sem incomodar as Nações Unidas; manteve uma série de embargos criminosos contra regimes recalcitrantes; e jogou despreocupadamente o seu peso em apoio à ocupação militar ilegal que Israel mantém há 34 anos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, enquanto se alastra a Intifada palestina. Se, como insistiu o Wall Street Journal, a carnificina da costa leste é fruto do método à moda de Munique utilizado pelo governo de Clinton para pacificar os palestinos, ficamos estupefatos com o que os republicanos americanos possam imaginar como sendo uma reação à moda de Churchill. É esse histórico de egoísmo e arrogância imperturbáveis que provocam o anti-americanismo entre as fileiras da população do mundo, para quem existe pouca democracia na distribuição atual da riqueza e do poder global. Se ficar comprovado que os ataques de terça-feira foram praticados por seguidores de Ossama Bin Laden, vai ser esmagadora a sensação de que os americanos estão novamente colhendo uma safra gigantesca que eles próprios semearam.

Afinal de contas, foram os americanos que despejaram recursos na guerra contra o regime de Cabul, apoiado pelos soviéticos, na década de 80, em uma época em que as meninas podiam estudar e as mulheres podiam trabalhar. Bin Laden e seus mojahedins foram armados e treinados pela CIA e pelo MI6, enquanto o Afeganistão se transformava em uma terra arrasada e seu líder comunista, Najibullah, era enforcado em um poste de luz de Cabul, com os órgãos genitais enfiados na boca.

Entretanto, nesse momento, Bin Laden já havia se virado contra seus protetores americanos, ao passo que a inteligência paquistanesa, patrocinada pelos americanos, havia gerado os grotescos Talibans que passaram a protegê-lo. A seguir, para punir seu filhote afegão desobediente, os Estados Unidos forçaram a implementação de um regime de sanções que ajudaram a levar 4 milhões de pessoas à beira da morte pela fome, de acordo com as estatísticas mais recentes da ONU, enquanto os refugiados afegãos se dispersavam pelo mundo.

Tudo isso certamente parece remoto para os americanos que ainda remexem desesperadamente os detritos do que se imagina ser o maior massacre já ocorrido em solo americano - tão remoto quanto o assassinato de outro tanto de palestinos na Cisjordânia ontem, ou até mesmo os 2 milhões de pessoas que se estima tenham morrido nas guerras do Congo desde a derrubada do regime de Mobutu, que era apoiado pelos Estados Unidos. Dias atrás, um nova-iorquino se perguntava, perplexo: O que será que uma coisa política pode ter a ver com a explosão de prédios de escritórios em horário de trabalho? Neste momento, o governo Bush já está montando uma coalizão internacional para começar uma guerra em estilo israelense contra o terrorismo, como se tais atos contraproducentes de fúria tivessem uma existência isolada das condições sociais de onde surgem. Porém, para cada rede de terror que é eliminada, outra irá surgir - até que as injustiças e desigualdades que as engendraram sejam resolvidas. (Ivan Giunta (RG 8.739.150. Fone 234-7761 Bauru. (giunta@adaptanet.com.br)