08 de julho de 2026
Geral

Bauru continua vulnerável às chuvas

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 4 min

Os bauruenses que viveram na pele ou lamentaram, via noticiários, o drama decorrente do temporal que desabou sobre a cidade no dia 8 de fevereiro deste ano já devem estar questionando a possibilidade de uma nova calamidade voltar a acontecer no próximo verão, reconhecidamente a estação mais chuvosa do ano. Há, inclusive, quem já esteja temendo enchentes para esses próximos meses de primavera, que prometem, segundo as previsões meteorológicas, tempo bastante chuvoso. E é para recear mesmo, porque Bauru continua despreparada para enfrentar o período das águas.

Para quem assistiu à perda de seis vidas (isso mesmo, foram seis e não quatro como foi exaustivamente noticiado) e registrou posteriores acidentes em erosões, o município parece tranqüilo demais frente ao problema. Não fosse um acordo selado com o Ministério Público - muito pressionado por entidades organizadas -, talvez a Administração Municipal estivesse até agora sem mexer uma pá para recuperar os estragos e providenciar obras de contenção de águas pluviais.

Diga-se isso porque, até a assinatura do compromisso, o poder público vinha postergando as obras tidas como emergenciais, sempre alegando incapacidade financeira para executá-las. Na verdade, o argumento do município fixou-se no atraso do repasse de verbas estaduais, que viriam para atender o estado de calamidade decretado pelo prefeito Nilson Costa (PPS). Os recursos não vieram e, com muita sorte, talvez cheguem um dia. Essa possibilidade já caiu no descrédito popular, embora a Prefeitura ainda insista que as expectativas de recebimento sejam boas - o prazo máximo estipulado pela própria municipalidade em relação ao dinheiro do Estado vence exatamente hoje.

Mesmo sem o recurso governamental, a Prefeitura terá que se virar para executar as obras emergenciais, cujo prazo para conclusão termina no dia 31 de dezembro. A falta de dinheiro, porém, que até então aparecia como o grande empecilho, foi resolvida assim que a questão passou a tramitar no âmbito do Ministério Público. O orçamento da Secretaria de Obras, inicialmente dotado em R$ 5,5 milhões, viabilizou-se em R$ 11 milhões, dos quais R$ 3,6 milhões serão destinados às obras de recuperação. Até o momento, cerca de R$ 1 milhão já teria sido gasto na operação tapa-buraco e implantação de galerias pluviais.

Disso tudo conclui-se que as obras poderiam ter sido executadas muito antes de as pressões da sociedade organizada levarem o caso ao Ministério Público. Se o dinheiro existia para ser investido em outras obras, porque não remanejá-lo de imediato ao invés de esperar a boa vontade do Governo do Estado? Por que enfrentar o desgaste junto à população, que chegou a duvidar - e duvida até hoje - do empenho da Administração Municipal em começar a resolver a vulnerabilidade da cidade?

Vale deixar claro que a abordagem deste velho e batido tema não tem por finalidade atacar este ou aquele governo, até porque o problema vem de décadas sem solução. O que se pretende é mostrar o que vem sendo efetivamente realizado em benefício da cidade e aquilo que continua sendo relegado ao segundo e terceiro planos, como a negligência da Prefeitura em tratar com mais seriedade o papel da Defesa Civil do Município. O órgão, por sinal, permanece com a seguinte e inconcebível estrutura: um telefone celular, uma viatura, um motorista, um coordenador e alguns membros voluntários. Este ano, investiu-se, sim, na compra de equipamentos, mas nada além da mais indispensável estrutura, como colchonetes, lonas plásticas, cobertores, aparelhos de comunicação e equipamentos de iluminação - até o ano passado, a Defesa Civil mal dispunha de lanternas.

A comunidade de uma maneira geral sabe que alguns pontos críticos da cidade, notadamente as avenidas Duque de Caxias e Nuno de Assis, dependem de obras vultosas para deixar de apresentar riscos à integridade da população e que isso, obviamente, implica investimentos de monta, totalmente incogitáveis em termos de orçamento municipal. Esperar que União ou Estado se sensibilizem e prestem auxílio financeiro, por sua vez, chega a ser perda de tempo. A aposta, portanto, recai sobre o poder público de Bauru, de quem ninguém espera milagres.

O que se quer deste atual governo, da mesma forma que se esperou - frustrantemente - dos antecessores, são ações voluntariosas e verdadeiramente voltadas às tão almejadas soluções. O povo quer preocupação, vontade política e ousadia, não atitudes decorrentes de pressão e com gosto de favor. Com exceção do termo de ajustamento firmado com o Ministério Público, o qual vai se prolongar até o próximo governo municipal, não há qualquer plano voltado para o problema. Nem mesmo a criação de uma Defesa Civil mais eficaz, com estrutura capaz de se viabilizar com apenas R$ 35 mil, é cogitada.

Apesar de estar atendendo - até o momento de forma parcial - as exigências do compromisso firmado com o Ministério Público, a Prefeitura não deveria se dar por satisfeita e nem tampouco achar que está fazendo tudo o que lhe é possível, pois a população não parece estar tão segura de suas ações. Todos querem assistir ao primeiro passo e ter a certeza de que ele não abandonará e nem retornará o caminho. A partir daí, que venham as chuvas.