O brasileiro que vive em um país como a Alemanha possui, além da mentalidade e da língua, uma dificuldade oferecida pela natureza: o inverno. Em meados de novembro, as árvores perdem suas folhas, os pássaros emigram para regiões mais quentes e o sol já não aparece com tanta freqüência. Os dias tornam-se mais curtos e a cor cinza predomina em toda paisagem. A natureza transmite uma sensação de morte e sente-se por toda a parte um ar de tristeza. Durante seis meses, nos quais somente a presença da neve é o único detalhe mais alegre, as pessoas vão sendo contagiadas pelo clima depressivo e frio. Percebe-se, muitas vezes, o mau humor nas ruas e pequenos problemas ganham dimensões gigantescas. Ao chegar, porém, o fim destes longos meses de nverno, experimentamos, na carne e na alma, uma verdadeira metamorfose. A natureza oferece um dos espetáculos mais lindos que podemos assistir: a chegada da primavera. Depois de uma experiência de morte presencia-se claramente o ressurgir da vida, ou melhor, o surgir de uma vida nova.
Durante esta mudança radical da paisagem o ser humano não fica reduzido ao papel de espectador. Junto com a natureza nós passamos por um verdadeiro processo de transfiguração. Nossa disposição interior renova-se modificando até mesmo nossa aparência. Ao fazer esta experiência entendemos profundamente o porquê da íntima ligação entre amor e primavera.
Nós humanos somos, por natureza, seres transfiguráveis, ou seja, nós possuímos o privilégio de sermos capazes de viver mutações. A palavra transfiguração possui como raiz a expressão figura. Esta vem acompanhada do prefixo trans que põe a figura, a imagem, a representação exterior em processo, em mudança, em trans-formação. Transfigurar-se expressa movimento, mobilidade, impedindo o congelamento do ser e apresentando sua figuração como algo dinâmico.
Transfiguração significa mudança radical na figura, na aparência, no caráter, na forma. Este processo de verdadeira mutação vivemos desde os nossos primeiros segundos de vida. Uma das características de nossa natureza é o movimento que transforma a figura. Desde nosso estado de óvulo fecundado até a nossa morte, nós, seres humanos, nos transfiguramos. Este talvez seja o único processo que o ser humano não consiga deter. Nós surgimos para a vida a qual possui uma lei simples e inequívoca: a mudança. Basta olharmos para os nossos álbuns de fotografia para percebermos como nos transformamos com o passar do tempo, e sendo que a transformação exterior está intimamente ligada à interior.
Este processo de transfiguração é tão inerente à nossa essência que ele está presente até mesmo no âmbito do sagrado, ou seja, no relacionamento com Deus. Na Bíblia, por exemplo, a transfiguração é parte estrutural da relação homem e Deus. O imago dei transfigura-se durante todo o desenvolvimento histórico do povo de Israel. Um exemplo é a história do sacrifício de Isaac (Gn. 22, 1-18). No início da narrativa, Deus pede a Abraão que sacrifique seu único filho Isaac. Aqui, Deus apresenta-se como um ser insensível e dominador, um Deus do sacrifício que deseja sangue humano, que quer retirar aquilo que Abraão mais ama na vida: seu filho.
Para um hebreu, o filho significava a continuação, o futuro.
Porém, no transcorrer do relato Deus transfigura-se revelando sua verdadeira imagem: um Deus-Amor, um Deus que deseja a vida em vez de sacrifício e morte. O Deus de Abraão é aquele que garante o futuro e a continuidade da vida. O próprio Cristo apresenta-se nesta dinâmica da transfiguração (Mc 9, 2-8). Jesus revela-se como um ser sem limites quando, no Monte Tabor, suas vestes perdem as delineações e ao seu lado estão Elias e Moisés. Aqui não existem mais barreiras entre tempo e espaço, vida e morte. Mais tarde, o Cristo transfigura-se plenamente revelando o futuro do homem: a ressurreição. Na visão cristã, a transfiguração do ser humano não termina com a morte, pois a ressurreição não significa um ressurgir da vida, mas o surgimento de uma vida nova. Assim, todo ser humano é chamado a transfigurar-se. Sua existência não deve possuir limites, pois a vocação humana constitui-se em superar os limites pré-estabelecidos e vencer a ditadura do convencional. Em uma visão religiosa, somos chamados à transfiguração quando sentimos ou experimentamos, de forma consciente ou inconsciente, o amor de Deus. O ser humano pode transfigurar-se, transformar-se, viver em mudança radical, em metamorfose, porque ele nasceu para viver um relacionamento de amor com o ser transcendente que chamamos de Deus. Aqui está a profunda essência da fé: ter a coragem de viver aberto para o novo, perder o medo de ser definido no momento sem a presunção ilusória de ser definitivo para a eternidade. Nós devemos esperar portanto que o futuro talvez nos instrua, por novas experiências e novos conceitos, sobre forças ainda escondidas em nosso eu pensante. (Kant)
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