Queda no faturamento das empresas aéreas afeta produção de novas aeronaves e obriga empresa a demitir.
Botucatu - O reflexo dos atentados terroristas contra os Estados Unidos, ocorridos em 11 de setembro, começou a ser sentido ontem, em Botucatu. A Neiva, empresa de aviões e componentes, anunciou ontem de manhã a demissão de 270 funcionários. A justificativa da empresa para as dispensas não foi outra senão a queda no volume de receitas causada pela crise que se instalou nas empresas aéreas do mundo todo, após os atentados.
De acordo com a empresa, a Embraer teve de refazer os cálculos de produção para o próximo ano e chegou à conclusão de que deve montar 70 aviões a menos do que estava previsto inicialmente. Cerca de 90% da atividade desenvolvida pela Neiva, em Botucatu, são voltadas para a produção de aviões da Embraer, em São José dos Campos. Com a redução na produção de aeronaves - de 205 para 135 -, a Embraer irá comprar menos componentes da Neiva, o que forçou a empresa a rever seus planos de expansão e a dispensar funcionários.
Com essa dispensa, nós adequamos o nosso quadro de funcionários ao planejamento atual, em função da crise, disse o diretor da empresa Paulo Urbanavicius, 54 anos. Segundo ele, oficialmente, a empresa só tomou conhecimento de que seria preciso demitir os 270 funcionários na sexta-feira passada, por volta das 17 horas. Até então, o assunto era restrito ao quadro de diretores, informou.
Por enquanto, não há risco de novas demissões, segundo Urbanavicius.
Mas tudo irá depender da reação do mercado de aviação, nos próximos meses. Se fatos novos não piorarem essa situação, algo que nós não esperamos, nada deve ocorrer, declarou o diretor, referindo-se à possibilidade de outros funcionários serem demitidos.
Critério básico
Na lista de dispensa divulgada ontem pela Neiva estavam, principalmente, empregados recém-contratados. Procuramos, preferencialmente, salvo casos de funcionários com qualificação diferenciada, dispensar os mais novos de empresa e que não são casados. Esse foi um critério básico que nos orientou, disse Urbanavicius.
O diretor reconheceu que a medida tomada pela empresa foi dura, mas logo tentou justificar essa decisão extremada, lembrando das dispensas realizadas em outras unidades da Embraer e que também foram anunciadas ontem. Essas medidas visam basicamente garantir a sobrevivência da empresa, para que possamos voltar a oferecer boas condições de trabalho e mais empregos na região, explicou.
Apesar da queda na receita - o que teria motivado as dispensas -, Urbanavicius informou que a Neiva continuará lucrativa. A dispensa teria sido um dos itens principais para manter a empresa saudável.
Os funcionários dispensados irão receber, além dos direitos normais de uma rescisão contratual, um salário a mais e assistência médica durante os próximos seis meses, extensivo à família. Em caso de retomada de crescimento da produção, o diretor da empresa já se comprometeu com os ex-funcionários. Eles deverão ser os primeiros a receber os convites para voltar à linha de produção.
A Neiva instalou-se em Botucatu em meados dos anos 50. Antes da demissão, a empresa contava com 1.168 funcionários. Além das peças para jatos da Embraer (que representa cerca de 90% de toda sua produção), a empresa produz ainda o avião Ipanema (essencialmente agrícola) e o Brasília, com capacidade para transportar 30 passageiros. Ambos são produzidos em pequena escala e, de acordo com Urbanavicius, esses modelos não teriam sofrido os impactos da crise que se instalou sobre o setor da aviação.