08 de julho de 2026
Geral

Mulheres predominam nos bingos

Redação
| Tempo de leitura: 6 min

De acordo com o Jogadores Anônimos, as mulheres estão mais propensas à compulsão pelo jogo do que os homens.

A presença de mulheres em salas de bingo tem sido superior à de homens, em Bauru. São pessoas de todas as idades, que variam de jogadoras esporádicas a freqüentadoras diárias. Uma pesquisa realizada pelo Hospital das Clínicas, de São Paulo, revela que as mulheres são mais propensas à compulsão pelo jogo do que os homens.

Vânia, que preferiu não informar o sobrenome, passou por momentos difíceis quando percebeu que estava sofrendo da compulsão pelo jogo. Atualmente, ela freqüenta as salas de bingo apenas uma vez por semana, mas já passou por fases em que ia diariamente ao bingo. Antes, eu ia todos os dias. Agora, vou uma vez por semana ou até menos. Eu diminuí, com a ajuda de um amigo, porque percebi que não estava ganhando nada com isso. Estava perdendo e me viciando. A partir do momento em que você não consegue ficar nem um dia sem jogar, você é um viciado. Eu dormia e acordava pensando em jogar, admite.

Vânia saía de casa, na maior parte das vezes, sozinha e passava horas apostando valores que variavam de R$ 30,00 a R$ 50,00 por dia. Antes, eu ficava até 12 horas seguidas jogando. Eu deixava de cuidar dos meus filhos para jogar. Às vezes, eu saía ganhando muito, mas na maioria das vezes a gente perde, afirma.

Ela conta que, durante o dia, a quantidade de mulheres que comparecem às salas de bingo é sempre superior à de homens. Tem mulheres de todas as idades - dos 18 aos 70 anos, observa.

Agora que considera superada sua fase de compulsão, Vânia acredita que a carência era um dos principais fatores que a levavam às salas de bingo. No meu caso, era a carência, a falta do que fazer. Você vai uma vez e gosta. No outro dia, você quer voltar de novo e, quando você vê, já está no fundo do poço, expôs.

Já Neuza (que também preferiu não divulgar o sobrenome), de 49 anos, é moradora do Jardim Carolina e comparece às salas de bingo com bastante freqüência, sempre na companhia de sua irmã. Antes, eu trabalhava e jogava menos. Há uma semana eu estou indo bastante - às vezes todos os dias ou um dia sim e outro não. Mas não é vício. Tem gente que quando nós chegamos ela já estava lá e quando nós saímos ela continua lá, disse.

A cada vez que entra numa sala de bingo, Neuza gasta, no máximo, R$ 10,00 e afirma que adquiriu o hábito por falta de opção do que fazer na cidade. Eu sou desquitada e vou lá para sair de casa, para não entediar. É um ambiente em que você vê gente, mas ninguém mexe com você. Pessoas aposentadas e idosas vão para lá por falta de companhia. É falta de opção, do que fazer em Bauru. Deveria existir um bar para pessoas de 45 a 60 anos, porque as pessoas dessa faixa etária não acham nada para fazer, enfatizou.

A jogadora também confirma que a quantidade de mulheres que comparece às salas de bingo é bastante grande. Acho que tem mais mulheres. A gente percebe que chegam muitas mulheres e só dois ou três homens, afirmou.

Mas, algumas mulheres entrevistadas pelo JC nas salas de bingo garantem que muitas não são viciadas e jogam com pouca freqüência, apenas por distração. É o caso de uma moradora da Vila Giunta, de 59 anos, que preferiu não informar seu nome. Eu vou por distração, mais ou menos uma vez por semana, e fico só um pouco. No meu caso, não é um vício. Mas tem várias mulheres que vão todos os dias. Todas as vezes que a gente vai, elas estão lá, afirma.

José Augusto Batistela, gerente de uma casa de bingo da cidade, afirma que a quantidade de mulheres que freqüenta a sala de bingo do estabelecimento supera a de homens, independendo do horário. A partir dos 18 anos, tem mulheres de todas as idades, incluindo senhoras com mais de 70 anos, disse.

O custo de cada rodada na casa que ele dirige varia de 0,50 a 2,00 e o participante concorre a prêmios que vão de R$ 100,00 a R$ 5 mil. Tem o pessoal cativo, aqueles clientes que estão aqui todos os dias, e pessoas novas que vêm conhecer e freqüentam quando tem alguma promoção, expôs.

Jogadores Anônimos

Marcos E.L.G., um dos coordenadores do grupo Jogadores Anônimos (J.A.) de São Paulo, conta que o número de mulheres que procura ajuda no J.A. é semelhante ao número de homens. Apesar disso, ele adverte que uma pesquisa desenvolvida por profissionais do Hospital das Clínicas aponta que as mulheres são mais suscetíveis à compulsão pelo jogo. Acontece que as mulheres se viciam muito mais rápido do que os homens. O tempo para a mulher desenvolver a compulsão é menor. E o jogo patológico é uma doença, disse.

Apesar da idade de pessoas que procuram o J.A. variar bastante, Marcos garante que predominam pessoas que têm de 40 a 50 anos. O comum é eles chegarem aqui quando já estão em uma situação extremamente delicada, com dívidas que não podem mais pagar, depois de tentarem o suicídio, desfalcarem firmas ou terminarem o casamento, contou.

As principais causas da compulsão pelo jogo, de acordo com Marcos, são perdas não superadas, que variam de perdas familiares ou as relacionadas a emprego. Falta de dinheiro, na minha opinião, não é importante. O jogador não joga porque quer dinheiro, mas sim porque quer ficar lá jogando. O jogador também tem uma grande dificuldade em lidar com a solidão. Em J.A., as pessoas não conseguem lidar com a solidão, nem com a frustração, destacou.

É um anestésico emocional, uma doença chamada impulsiva e compulsiva. Impulsiva porque a pessoa não detém a vontade de ir ao jogo e compulsiva porque ela não consegue parar de jogar. Quando a pessoa não consegue se ver com seus problemas, ela busca uma fuga através do jogo, assim como outras pessoas buscam no cigarro, no álcool ou na comida, acrescentou o coordenador do J.A.

Uma das primeiras recomendações às pessoas que procuram o grupo de Jogadores Anônimos é para que, ao sentirem necessidade de jogar, liguem para algum amigo para conversar. De acordo com Marcos, isso ajuda no processo de conter a necessidade de jogar. Esse grupo é um lugar em que a pessoa consegue parar de jogar. Sou a favor de terapia e acompanhamento psicológico e psiquiátrico, mas está provado que esse acompanhamento não impede a pessoa de continuar jogando, reforçou o coordenador do J.A., que também é ex-jogador compulsivo.

As situações mais delicadas, de acordo com Marcos, são aquelas em que o jogador não admite que tornou-se um viciado. O que acontece é que o jogador não admite. Ele é muito prepotente e acha que pode parar a hora em que quiser. Ele só admite em uma situação crítica, quando foi abandonado pela família e não tem mais a que recorrer. Até então, ele cria argumentos de que pode parar de jogar, expôs.

Serviço

Os interessados em obter informações sobre o grupo Jogadores Anônimos (que também tem reuniões virtuais) ou em montar um grupo de J.A. em seu município podem ligar para (11) 6168-8202. Outras informações também podem ser obtidas pelo site www.jogadoresanonimoscopa.homestead.com