08 de julho de 2026
Geral

CIRCO DE HORRORES

Pedro Valentim
| Tempo de leitura: 3 min

Li com espanto e indignação a carta da sra. Gislaine Cury Monari Garcia na A Tribuna do Leitor do dia 2/10/2001, Circo de Horrores e gostaria de dizer que todo tipo de preconceito, seja ele social, racial, religioso é abominável e contrário a qualquer tipo de racionalidade. A missivista reclamou de algumas pessoas ao tumultuarem a sala de cinema do Cine Bauru, no filme Inteligência Artificial, de Steven Spielberg. E fazendo um julgamento antecipado sem provas apregoou que a pobreza não significa falta de berço, educação e de respeito ao próximo. Também disse que cinema é para pessoas com cultura e educação. Não satisfeita, conclamou os proprietários a repensarem a bilheteria com o preço tão popular.

Olha, não sei com qual critério se chegou à conclusão sobre a classe social dos baderneiros. Mas não precisamos ir longe ou voltar ao túnel do tempo para demascarar a questão do preço alto ou baixo e partindo daí analisarmos a educação comportamental do público rico ou pobre. Em São Paulo, numa boate chique paulistana, a classe alta vaiou, xingou e jogou copos de cerveja num dos mestres da bossa nova chamado João Gilberto. Deu discussões e a baixaria chique virou notícia no Brasil e no mundo. E pelo visto lá não tinha pobre. O ingresso mais barato era R$ 70,00.

No Rockin Rio, cujo preço também não era popular em se tratando de um país injusto chamado Brasil, a moçada xingou e lançou milhares de frascos vazios no músico ritmista Carlinhos Brown. A humilhação do cantor afro foi tanta que teve como saída o abandono do palco e tal acontecimento causou constrangimento em todos os cantores e músicos nacionais e internacionais presentes no evento. Aliás, não só neles mas em todos providos de bom senso e respeito à dignidade humana. E no cinema do Morumbi Shopping Center, cujo preço não é popular e pobre não freqüenta, aconteceu uma verdadeira tragédia quando um adolescente de classe média-alta metralhou o público ceifando a vida de seres humanos e aleijando outro. E outros exemplos de baderna, falta de educação e crime da casa grande é que não faltam.

Quanto à questão cultural, precisamos tomar uma certa dose de cuidado mesmo porque existem diferentes e vários tipos de cultura. O premiê italiano, Silvio Berlusconi, andou pregando a superioridade de raça e cultura e agora está em maus lençóis. Oras bolas, até o chimpanzé tem um pouco de cultura devido a sua capacidade cerebral e de armazenamento de informações relativas a uma criança de 5 anos. A ciência comprova isto. O remédio não é selecionar o público e sim dar a todos condições de igualdade e justiça social. E o ser humano também é um animal, a única diferença é que usamos uma porcentagem do cérebro maior do que os demais. Agressividade, baixaria e coisa errada acontecem em todas as classes sociais. No entanto, às vezes o pobre pratica por necessidade ou desabafo. O rico não, é só por pura sacanagem. E o cinema nasceu pra todos. PS - Infeliz é a cidade cujo governo só se move por fatalidade. (Pedro Valentim - RG: 19.198.011-0)