09 de julho de 2026
Geral

Guerra: efeito na economia é incógnita

Paulo Toledo
| Tempo de leitura: 6 min

Economistas acreditam que posição de países, principalmente os produtores de petróleo, definirá profundidade da crise.

O ataque da Aliança Contra o Terrorismo, encabeçada pelos Estados Unidos, contra o Afeganistão pode causar sérios danos à economia mundial e, principalmente, ao Brasil que tem uma grande dependência do dinheiro externo para equilibrar suas contas. Porém, é o posicionamento dos países, principalmente os produtores de petróleo, é que vai aumentar ou diminuir os efeitos negativos na economia mundial.

Economistas ouvidos pelo Jornal da Cidade acreditam que ainda há muita especulação no mercado. Mas, num primeiro momento, o congelamento de negócios entre países, que já vem desde os atentados de 11 de setembro, é o pior efeito colateral. Porém, o fato do Brasil não ter se preparado para ter o equilíbrio de suas contas externas pode pesar.

Para o delegado do Conselho Regional de Economia (Corecon), economista Reinaldo César Cafeo, o problema fundamental do Brasil é que o País não se preparou para enfrentar as crises externas, pois a lógica do real contemplava, em sua terceira fase, as reformas estruturais. O fato de não fazer a lição de casa criou uma dependência de recursos vindos de fora para fechar a balança de pagamentos.

Assim, existe um déficit acentuado em transações correntes de US$ 16 bilhões, que depende da entrada de investimentos diretos ou investimentos especulativos ou cobertura com reservas ou, ainda, empréstimos externos. Enquanto estava em curso o Programa de Privatização, havia uma injeção de recursos natural. Porém, o governo não conseguiu com isso equacionar o problema. Simplesmente sentiu um alívio, destacou Cafeo.

Este quadro aponta, segundo o delegado do Corecon, para dificuldades em fechar as contas externas, ou seja, o modelo econômico brasileiro é suscetível a uma crise econômica internacional, como a da Argentina, com maior ou menor reflexo.

A questão é que, num momento de guerra, como o atual, os fluxos financeiros diminuem, no mundo todo, em razão da insegurança verificada. A dimensão que essa crise pode atingir é a grande pergunta. O Brasil, como é um país que precisa exportar para custear parte desse pagamento externo, pois essa é a fonte mais sadia de inserção de dinheiro na economia nacional, tem uma tendência de buscar um maior volume no comércio internacional.

Como há uma estrutura fragilizada em âmbito externo, numa combinação com a necessidade dessa poupança externa para sustentar internamente, diz Cafeo, é evidente que será verificado um reflexo imediato nas contas externas do Brasil.

Para o delegado do Corecon, a guerra entre Estados Unidos e Afeganistão está antecipando um estrago que se espera vir da Argentina. Como o país vizinho tem uma eleição domingo e está cercado por incertezas do cumprimento das metas com o Fundo Monetário Internacional (FMI), a insegurança aumenta. O Brasil tinha criado uma blindagem de US$ 15 bilhões com o empréstimo do FMI para suportar um eventual reflexo da Argentina. Porém, agora, como surgiram novos problemas internacionais, os agentes econômicos se sentem mais inseguros. Na dúvida, o empresário não quer a moeda nacional. E, se não quer a moeda nacional, vai pressionar o câmbio. Mas, com o câmbio nas alturas e a internacionalização da economia brasileira, o Brasil está trazendo uma inflação importada, que gera inflação sobre custos. A maneira de conter inflação sobre custos é aumentar a oferta. Não dá, são setores concentrados que não têm concorrência. Então, o governo lança mão de segurar a demanda, através da política monetária, destacou.

Cafeo diz que os indicativos, daqui para frente, são de amarrar a economia evitando a demanda, o que vai gerar uma queda no Produto Interno Bruto (PIB), que deve ficar entre 2% e 2,5%. Além disso, prevê, se os juros não subirem, devem ficar no atual patamar, que já é elevado. Para o delegado do Corecon, o governo não tem muito o que fazer, sobrando como opções torrar as reservas, conseguir um aporte maior de capital ou fazer o monitoramento dessas variáveis. Na minha opinião, ele (governo) vai, simplesmente, ter decisões pontuais. Se o câmbio descambar para perto de R$ 3,00, entra com títulos cambiais ou usa parte dos recursos que conseguiu no FMI para dar uma acalmada nesse mercado, no curto prazo, pois no longo prazo não consegue, afirmou, destacando que isso deve gerar a aplicação de uma política fiscal bastante austera para manter o nível de arrecadação, mas penalizará o grosso da economia, com engessamento do nível de atividade, com a geração de desemprego.

Vale lembrar que cada 1% de crescimento na economia são gerados cerca de 350 mil empregos. Assim, se o PIB crescer 2% ao invés de 4%, como era previsto no início do ano, deixarão de ser gerados cerca de 700 mil empregos. Com essa perspectiva, atrair capital estrangeiro fica mais difícil.

Especulação

O economista Wagner Aparecido Ismanhoto, professor-chefe do Departamento de Economia da Faculdade de Economia da Instituição Toledo de Ensino (ITE), disse que a guerra pode reduzir o fluxo de exportação do Brasil, o que pode dificultar, ainda mais, a situação do País.

Ismanhoto disse que muitos exportadores brasileiros que tinham cargas programadas para o Exterior, principalmente os Estados Unidos, estão recebendo pedidos de cancelamento das compras. Segundo ele, algumas empresas estão fazendo a confirmação antes do embarque da carga, para evitar problemas depois. Esse é o primeiro impacto. E, é de especulação, pois ainda não aconteceu nada que pudesse justificar isso, afirmou.

Ele lembrou que o dólar em alta favorece as exportações brasileiras, pois torna os produtos nacionais mais competitivos no mercado externo. Porém, mostra uma preocupação com o petróleo, produto que o Brasil é importador, que pode sofrer altas se a guerra se espalhar pelo Oriente Médio.

Outra preocupação de Ismanhoto é em relação à Argentina, que responde por 9% de todas as exportações do Brasil. Segundo ele, a instabilidade daquele país pode influenciar negativamente a economia brasileira.

Sérios danos

O economista Said Yusuf Abu Lawi destacou que o compasso de espera entre os atentados do dia 11 de setembro e o ataque ao Afeganistão, no domingo, fez com que boa parcela da economia mundial ficasse paralisada, atingindo diretamente o Brasil, em razão de um congelamento dos negócios. Acredito que o conflito possa provocar sérios danos, afirmou, destacando que isso vai depender do posicionamento do lado que ficarão os países que não estão envolvidos diretamente no conflito.

Said Yusuf lembra, por exemplo, que o Paquistão, vizinho do Afeganistão, é um país atômico, ou seja, possui arsenal nuclear. Porém, ele também se preocupa com o posicionamento dos países produtores de petróleo, que podem gerar uma alta no preço do produto. Mas, por enquanto, o dano que pode provocar é esse que já está aí, que é o congelamento dos negócios entre países, afirmou.

Ele prevê que, se os países vizinhos ao Afeganistão, os produtores de petróleo, se alinharem com a Aliança Contra o Terrorismo, não devem ocorrer grandes oscilações nas Bolsas de Valores, podendo até chegar a um aquecimento da economia mundial. Porém, se houver divisão, com apoio ao Afeganistão, podem haver complicações. Principalmente se os norte-americanos atacarem o Iraque, destacou.