08 de julho de 2026
Geral

Garotinho tenta polarizar com Lula

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 4 min

O governador do Rio de Janeiro vem repetindo, por onde passa, a comparação que faz com o pré-candidato Lula.

Jovem (tem 42 anos), detentor de experiência administrativa e um político de oposição propositiva, segundo sua própria definição. Estas são três características fartamente exploradas pelo governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho (PSB), em sua peregrinação pela Capital e Interior do Estado de São Paulo, como pré-candidato a Presidente da República na eleição de 2002.

Na última segunda-feira, ele se reuniu com diretores da Associação Paulista de Jornais (APJ) e abriu uma série de encontros que a entidade pretende promover com os presidenciáveis. A APJ é composta pelos 15 principais jornais regionais do Estado, todos líderes em seus mercados de atuação. O objetivo do ciclo é o de conhecer as idéias, os pensamentos e propostas dos prováveis futuros candidatos a presidente da República. Nossos veículos procuram cumprir melhor, com esta e outras iniciativas, nossa função de informar defendendo o processo democrático e a igualdade de oportunidades, afirmou Fernando Mauro Salerno, presidente da Associação Paulista de Jornais.

Além da tentativa de agregar alguns valores a seu nome, Garotinho também deixa explícita uma comparação com o virtual candidato petista na corrida pelo Palácio do Planalto, Luiz Inácio Lula da Silva. Por onde passa, Garotinho não tem deixado de se comparar com Lula. Em sua auto-avaliação, costuma repetir que já tem larga experiência administrativa, por ter passado por diferentes cargos no Legislativo e no Executivo, e que o povo brasileiro vai levar em conta esta questão na hora de escolher em quem votar no próximo ano.

A comparação com Luiz Inácio Lula da Silva, em detrimento a outros adversários, na corrida eleitoral, também não está sendo feita por acaso. Ao falar sobre o petista, o governador do Rio de Janeiro revela sua aposta em uma disputa com Lula no segundo turno em 2002. E como apostar não custa nada, desde que haja algum sentido político, neste caso Garotinho também acaba indicando que está trabalhando para tentar consolidar seu nome como a segunda opção perante o eleitorado brasileiro. O governador afirmou que não considera Itamar Franco (PMDB) candidato, que Roseana Sarney (PFL) também não vai entrar na disputa - até porque Garotinho avalia que a família Sarney não costuma entrar em bola dividida - e que Ciro Gomes (PPS) tem um telhado muiot grande à disposição do período eleitoral.

A conjunção dessas situações, mencionadas pelo candidato do PSB, aliada ao fato de estar dividindo a preferência do eleitorado com Ciro, Roseana e Itamar, neste momento, levam Garotinho a implementar uma estratégia de evidente tentativa de polarização futura com Lula. E nem é preciso perguntar sobre o petista para que, espontânea e premeditadamente, Garotinho cite o adversário que lhe parece neste instante. Eu fico imaginando um debate com o Lula e o mediador apresentando os dois candidatos. De um lado, está Luiz Inácio Lula da Silva, ex-deputado e candidato a presidente derrotado por três vezes. Do outro, Anthony Garotinho, que foi vereador ainda jovem, secretário de governo, deputado, prefeito de Campos e governador do Rio de Janeiro. O eleitor não vai deixar de levar em conta a trajetória de um homem experimentado na vida pública administrativa, comparou.

A comparação vem sendo repetida tantas vezes pelo governador do Rio de Janeiro que, nesta última visita a São Paulo ele procurou dar uma nova roupagem política para o tema. No encontro com os dirigentes dos jornais do Interior, Garotinho figurou dizendo que ao procurar um hospital, um cidadão certamente saberá escolher entre um médico com experiência em várias áreas e um que nunca realizou sequer uma cirurgia. Novamente, a comparação surge em relação à falta de experiência de Lula.

Mas tem mais. O candidato do PSB não se dá por satisfeito no paralelo feito no âmbito da carreira administrativa. Anthony Garotinho também dispara pelos quatro cantos que é de oposição, mas não esta oposição destrutiva, que só diz não e não aponta como deve ser feito. Eu faço oposição construtiva, propositiva. Quando eu critico o governo pela recessão, eu discuto que a economia tem que mudar o rumo, não pode continuar baseada somente na estabilidade da moeda, tem que estar voltada para a produção, o crescimento do mercado interno. Então, eu afirmo que a queda dos juros é um dos instrumentos necessários para que isso ocorra, enquanto que o governo FHC está fazendo o contrário há bastante tempo.

Também se soma à estratégia de bater em Lula, seu adversário preferido, o fato de que o petista lidera a corrida eleitoral, as desavenças entre o governador do Rio de Janeiro e a legenda da estrela, que foi, junto com ele, vitoriosa na última eleição carioca (a vice, Benedita da Silva, é do PT). Garotinho ainda alfineta o PT ao afirmar que vai deixar um Estado saneado e com recursos para investir no próximo ano, quando vai se licenciar do cargo, a partir de abril de 2002, para se dedicar exclusivamente à campanha. Em sua cadeira vai se sentar Benedita da Silva, com quem não tem nenhum relacionamento político há alguns meses.