08 de julho de 2026
Geral

Redescobrindo a espiritualidade

(*) Padre Beto
| Tempo de leitura: 4 min

Mosteiros são lugares de vida comunitária presentes em praticamente todas as grandes religiões: Budismo, Hinduísmo, Islamismo e Cristianismo. Já no início da era cristã, pessoas procuravam recolher-se em um lugar tranqüilo, onde pudessem com intensidade viver em/com Deus. Aos poucos, estas pessoas que viviam em completa solidão começaram a agrupar-se em pequenas comunidades. No ano de 320 d.Cr., no Egito, o místico Pachomios reuniu seus discípulos construindo assim o primeiro mosteiro da era cristã. Deste surgiram mais outros onze abrigando cerca de 9.000 monges. Este estilo de vida acabou solidificando-se e durante o passar dos séculos surgiram muitos mosteiros por todo mundo cristão. Na Europa encontram-se diversos mosteiros em estilo românico, gótico ou barroco. Muitos possuem ambientes parecidos ao do mosteiro retratado no filme O Nome da Rosa, sem o terríveis crimes, é claro, pois mosteiros são lugares de muita paz e contemplação, um verdadeiro convite à introspecção e oração.

Hoje, os mosteiros são muito procurados pelas pessoas que vivem no mundo agitado de uma sociedade moderna. Na Alemanha, é muito popular a possibilidade de tornar-se monge temporariamente. Managers, executivos, empresários, secretárias, operários, professores, passam parte de suas férias nos mosteiros fazendo uma experiência de comunidade e oração com os monges. Através da tranqüilidade e atmosfera de paz aproveitam este tempo para fazer uma revisão de suas vidas e reencontrarem Deus. Até mesmo grandes empresas como a Mercedes, BMW ou Simens, oferecem aos seus funcionários a oportunidade de retiros espirituais em mosteiros, com o objetivo de criar uma boa atmosfera de trabalho e o aumento da produtividade. Os mosteiros tornaram-se, no mundo moderno, oportunidades de recuperação das energias e (re-) descoberta da espiritualidade.

Espiritualidade é, na verdade, um estilo de vida que surge do relacionamento com Deus. Cada pessoa possui sua espiritualidade dependendo de seu estilo de vida (casado, solteiro, pastor, padre, monge, jovem, adulto...) e da relação que possui com o Sagrado. Apesar das diferenças há dois princípios básicos que devem pertencer a qualquer espiritualidade. Ao primeiro damos o nome de princípio sabbath. O judeus possuem o mandamento de guardar o sabbath. O dia do sábado é reservado para a família, a tranqüilidade e o recolhimento.

Desta prática judaica surgiu o domingo cristão. Sabbath, porém, não significa aqui o sábado ou qualquer outro dia de folga, mas um espaço de liberdade, um momento do dia no qual posso ficar sozinho. A espiritualidade deve ajudar-nos a interromper o continuum do cotidiano, a deixar a banalidade dos afazeres e encontrar um momento de relaxamento e descontração. Esta interrupção das ocupações no nosso dia-a-dia contribui para alcançarmos quatro objetivos: tranqüilidade, memória, espontaneidade e distancia crítica. O momento do sabbath no meu dia deve levar-me à tranqüilidade. Esta significa a atitude de colocar-se em total confiança diante de Deus. Deixar que toda minha vida esteja nas mãos do Criador. É na cultura da tranqüilidade que está a fonte da superioridade. Como diz um ditado alemão: dirija devagar, nós não temos tempo!

Esta pausa no meu dia deve ser, também, um exercício de memória, ou seja, nele devo procurar relembrar a presença de Deus e alguns pontos fundamentais de minha fé. Isto evita vivermos na superficialidade de nossa religião. O terceiro elemento do princípio sabbath é a espontaneidade. Na confiança da presença de Deus devo retomar uma postura de liberdade: deixar acontecer o que vier procurando perder o medo de ser feliz. Finalmente, com este momento de pausa, ganhamos uma distancia critica diante de nosso cotidiano. Ao interromper os meus afazeres posso analisar melhor como estou vivendo e se sou feliz com a vida que conduzo. O princípio do sabbath pode ser exercitado por alguns minutos e na hora mais conveniente, o fundamental é que aconteça todos os dias.

A espiritualidade é completada com o princípio da realidade. Ser místico ou religioso não significa afastar-se de sua realidade, mas sim encontrar-se com ela profundamente. Em uma visão cristã, Deus tornou-se um ser humano, aproximando-se intimamente de nossa realidade. Este exemplo deve ser imitado por nós. Quem possui uma espiritualidade deve encarnar-se em sua realidade (família, bairro, trabalho, política...), procurando viver ativamente nela e contribuindo para melhorá-la. Para tal é necessário exercitar a nossa percepção.

Perceber a realidade consiste em observar com mais atenção a si próprio, as outras pessoas e a sociedade. A percepção, porém, deve levar-nos à ação concreta. Aqui não deve ser esquecido que como o corpo sem o sopro da vida é morto, assim também é morta a fé sem obras. (Tg. 2, 26). Através destes dois princípios, sabbath e realidade, podemos encontrar nossa espiritualidade e viver a dialética da vida na intensidade da alegria e do prazer. O importante é ser livre para encontrar sua própria forma de relacionar-se com Deus. Nunca ande pelo caminho traçado, pois ele conduz somente até onde os outros foram. (Alexandre Graham Bell).

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(*) Padre Beto , especial para o JC Cultura