09 de julho de 2026
Geral

"Santuário" do capital

(*) Miguel Ignatios
| Tempo de leitura: 3 min

Por que não transformar logo a América Latina (AL) em uma espécie de reserva ou santuário do capital estrangeiro não-especulativo, ou seja, destinado apenas aos setores produtivos da região? A pergunta feita agora que o subcontinente americano está ameaçado de ser definitivamente excluído da agenda de negociação de George W. Bush, em razão da nova prioridade dada ao combate ao terrorismo internacional, na verdade, é mais do que oportuna.

A AL tem pago, ao longo de sua história, um preço muito alto pelo fato de, desde a época dos grandes descobrimentos, ter sido palco de poucos conflitos de real interesse para as ex-potências coloniais e, atualmente, para as grandes nações industriais. As guerras do Paraguai, do Chaco e, bem mais recentemente, as das Malvinas/Falklands e do Canal de Beagle constituíram-se em honrosas exceções, em cinco séculos de convivência pacífica.

No início da década de 90, os governos latino-americanos, liderados pelas autoridades brasileiras, tentaram, sem sucesso, tirar proveito político e econômico do fato, reconhecido por todos os países do mundo, de a região ser uma das mais ricas do Planeta em biodiversidade, em grande parte devido ao fato de abrigar a Amazônia, maior floresta tropical da Terra. Em outras palavras, o status de santuário ecológico também pouco tem rendido à AL a não ser a injusta cobrança por parte das nações civilizadas que denunciam, na maioria das vezes sem razão, quaisquer tentativas de ocupação, ainda que racional, da Amazônia. Ou seja, eles (os países civilizados) nada fazem para diminuir a poluição, cobram políticas de preservação do meio ambiente dos latino-americanos, mas se recusam a pagar royalties pelo ar que respiram.

Recentemente, após os atentados terroristas a Nova York e Washington, o presidente Fernando Henrique Cardoso convocou a diplomacia brasileira para a tarefa de realizar, assim que for possível, uma reunião de cúpula entre chefes de Estado da América Latina para debater o terrorismo. Essa iniciativa deve ser vista como mais um esforço da região para impor-se aos olhos das grandes potências mundiais.

Existe lugar mais seguro para hospedar o capital internacional do que uma região, como a América Latina, que é considerada livre das armas atômicas e paraíso da biodiversidade? Passar essa imagem a investidores norte-americanos, europeus e asiáticos, dentre outros, e mobilizar os blocos comerciais existentes, no âmbito da América Latina, para a tarefa de, em conjunto, atraírem capitais para a região, passou a ser, desde os atentados aos Estados Unidos, missão prioritária e permanente da hábil e competente diplomacia brasileira. Além disso, é preciso que os líderes da região também se unam para ampliar a presença latino-americana no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Atualmente, ela se limita a apenas um representante e em sistema de rodízio. É necessário, pelo menos, criar-se mais um assento para uma representação regional permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Só dessa forma a AL poderá voltar a ter importância estratégica para o mundo mesmo sendo uma região de vocação eminentemente pacifista. Muitos intelectuais americanos do porte do professor Albert Fishlow, dentre outros, já defendem abertamente essa tese. Chegou a hora de a diplomacia brasileira agir.

(*) O autor, Miguel Ignatios, é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil - ADVB - e da Fundação Brasileira de Marketing - FBM - e-mail: presidencia @advbfbm.org.br.