08 de julho de 2026
Geral

Panorama acredita na pesca

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 6 min

O município de 13 mil habitantes e apenas 47 anos, investe no turismo e busca parcerias para viabilizar novos projetos.

Quem conhece a região de Panorama, às margens do rio Paraná, dificilmente irá se esquecer da beleza e peixes encontrados por lá. Curimbatás, piaparas, piracanjubas, pacus, pintados e os tão cobiçados dourados sempre encantaram o pescador que arriscava seus arremessos nas corredeiras do rio Paraná.

Felizmente para os amantes da pesca, o rio ainda traz a sua beleza e seus grandes exemplares. Porém, hoje, o grande lago de Panorama já está praticamente cheio, alcançando mais de 250 metros de profundidade e largura média de 9 quilômetros, o que poderá influenciar bastante a quantidade e as espécies de peixe que serão encontradas no futuro.

Com a construção da Usina Hidrelétrica Sérgio Motta, a 250 Km de Panorama, uma área total de 2.250 Km² foi inundada. No desenvolvimento energético do País, algumas áreas são prejudicadas. Apesar dos diversos programas desenvolvidos pela Cesp (Centrais Energéticas de São Paulo), ainda fica difícil prever o que irá acontecer com os peixes que povoam aquela região.

A maioria das espécies brasileiras precisa subir o rio para procriar. Os peixes, durante a tão falada piracema, encontram seu maior obstáculo (além da poluição e assoreamento dos rios, é claro) nas barragens construídas nos rios.

É na barragem que o peixe pára o seu processo natural de procriação, pois não consegue, apesar de seu infinito esforço, transpor o enorme obstáculo. Em Porto Primavera, na Usina Hidrelétrica Sérgio Motta, felizmente houve uma preocupação em oferecer condições para que os peixes possam concluir a piracema.

Lá, mesmo sem ter sido previsto no projeto inicial, construiu-se uma escada para peixes e foi instalado um elevador para facilitar o acesso dos peixes ao outro lado do rio. A escada oferece uma boa estrutura para os peixes de salto (basicamente os de escama), porém não é tão eficiente quando se trata de peixes de fundo (as espécies de couro), que deverão buscar o elevador para continuar a subida.

Além disso, a extensão da barragem é de quase um quilômetro, o que dificulta a localização das áreas para a subida.

O elevador possui três conjuntos de moto bombas, que fazem um caudal, atraindo os peixes para iniciar a subida. Eles passam por um peixeduto e depois são devolvidos ao rio. Nessa caixa telada, de 20 m³, onde são transportados, os peixes são pesados, identificados e parte é marcada para que seja feito o monitoramento.

Segundo informações de Milton Estrela, gerente do Departamento de Implantação de Programas Ambientais da Cesp, desde a conclusão da barragem, ainda não foi possível acompanhar um período completo de piracema, pois o nível da água estava muito baixo. Agora, todos os lagos já foram concluídos e a primeira piracema deverá ser acompanhada.

Outro fator preocupante é como o peixe irá encontrar o local da desova. Realmente, as espécies da região estarão diante de um grande desafio, pois nasceram em um rio e estarão encontrando um novo rio. Muito mais profundo e extenso.

Infelizmente, mesmo sabendo que a Usina é imprescindível para o desenvolvimento energético do Brasil, que o sistema de elevador é um dos mais modernos, e que existe uma escada para peixes dentro dos padrões necessários para a subida, é difícil imaginar como a natureza vai conseguir sobreviver a mais esta jogada.

Uma alternativa que vem sendo praticada em regiões de barragem é o povoamento dos grandes lagos. O tucunaré, por exemplo, é uma das espécies que podem ser encontradas em quase todos os lagos do País. Natural da Bacia Amazônica, o tucunaré encontra facilidade em se reproduzir, pois não é uma espécie de piracema e possui o bom hábito de cuidar da cria.

A espécie é muito procurada pelos pescadores esportivos, pois encontram, na verocidade do tucunaré, o prazer de sua pescaria. Ele briga, salta, pula e dá um verdadeiro show. Além disso, sua carne é muito saborosa. Porém, ele possui uma outra importante característica: é predador!

A introdução do tucunaré em grandes lagos não significa o fim de todas as demais espécies. Afinal, o dourado também é um predador e coabita nossas águas com centenas de espécies. O que não pode ocorrer é a preferência de uma única espécie - não nativa - devido a sua esportividade.

É fundamental que a piracema deste ano seja acompanhada detalhadamente e detectados os possíveis resultados do período. Paralelamente, é necessário repovoar o rio com espécies nativas sempre. Caso a piracema não tenha o sucesso esperado, o que não é difícil acontecer, novas alternativas devem ser discutidas para que no futuro o rio Paraná e outros que dependem de suas águas não estejam sujeitos apenas ao tucunaré.

O tucunaré já pode ser encontrado com facilidade em Panorama, o que tem atraído pescadores de diversas regiões. É bom lembrar também que a água ainda corre por lá e grandes exemplares estão sendo fisgados, não só de tucunarés, mas de dourados, pintados e piaparas.

Comtur

O Conselho Municipal de Turismo de Panorama (Comtur), presidido por Cleuza Ruiz Lima, está acompanhando os projetos desenvolvidos pela Cesp e também buscando parcerias para novas iniciativas. Além dos projetos já em andamento, como a construção do balneário municipal, outros programas serão implantados.

O pescador esportivo e técnico da área Pedro Dama desenvolve um trabalho voltado à formação de guias de pesca, no município. A proposta é formar um núcleo de guias profissionais, que estejam preparados para receber o pescador esportivo e levá-lo para a pescaria. Apesar de pouco divulgado, o setor de pesca deverá crescer muito e beneficiar regiões privilegiadas do País, o que deverá incluir a região de Panorama.

Já o professor Francisco Borges da Silva (Chico Borges) propõe o repovoamento dos rios. Ele acredita no repovoamento casado com reconstituição da natureza. Ele sugere que as cidades da região, como Panorama, Paulicéia, Santa Mercedes e São João se unam para montar um laboratório às margens do rio, como um pesqueiro natural, com reposição constante.

São propostas interessantes, que poderão conquistar benefícios ao município de Panorama, no que se refere à pesca e ao turismo, e oferecer uma opção de lazer e entretenimento aos visitantes da região. Porém, os projetos ainda estão no papel e vão exigir concentração de esforços e investimentos. A prefeitura municipal, dentro da realidade em que se encontra o município, tem colaborado e já possui um plano de ação para os futuros investidores. O plano vai da isenção de impostos até a aquisição de áreas para empreendimentos.

Panorama é uma jovem cidade, com a marca do Mais belo Pôr-do-sol, e muito ainda para construir. A união do poder público, iniciativa privada e comunidade será fator decisivo no crescimento do município. É questão de tempo e investimentos.