09 de julho de 2026
Geral

História de pescador: A pipa viva

(*) Jovercy Bergamaschi
| Tempo de leitura: 2 min

Desta vez o grupo era composto de onze: o seu Issao e o Kodão, de Ribeirão Preto, o Vitalino, de Marília, e de Bauru o Mutumi e seu filho Luizinho, o Junior, da Revisauto, mais o Ilvo, o Vilson, o Franchin, o Osmani e eu (Berga). Viajamos a noite toda, chegando a Miranda pela manhã, onde nos esperaria uma chalana, com a qual desceríamos o rio.

Acontece que a tal chalana não estava pronta e ficamos o dia todo aguardando reparos, só partindo no dia seguinte pela manhã. A superlotação era evidente já que, além da equipe, havia o piloteiro Antonio e o cozinheiro, um paraguaio cujo nome não me recordo mas que tinha um apelido pejorativo que não me atrevo a reproduzir, numa chalana com apenas seis camas.

Cinqüenta dúzias de cervejas mais parte da bagagem eram levadas na cobertura, uma espécie de solário onde viajávamos durante a manhã para aproveitar o sol e a paisagem.Descemos o rio o dia todo, pernoitamos em sua margem, prosseguindo no dia seguinte até chegar ao rio Aquidauana, pelo qual subimos um pouco até atingir um ponto que parecia ser o ideal. Os dourados estavam puxando bem, mas poucos na medida. Lembro-me das brigas do Vitalino com o Osmani que, pescando calçado com coturno, andava como se estivesse marchando, quase virando o barco.

Pescávamos em uma longa reta do rio, próximo a um ponto chamado touro morto, usando com isca pequenos peixes de escamas chamados de sauá, quando o Ilvo preparou então um arremesso: iscou com um sauá de bom tamanho, ficou de pé no barco, calculou velocidade e direção do vento, estufou o peito, prendeu a respiração e arremessou, um belo arremesso de cerca de trinta metros. Tudo perfeito não tivesse ele errado a direção; o anzol com isca, chumbada e tudo mais foi prender-se no galho de uma árvore na margem.

Então um carcará, ave que come carcaças e peixes, vendo o peixinho prateado brilhando ao sol, arremeteu sobre ele, agarrou-o em suas pesas a alçou vôo. Foi uma cena inesquecível, meu amigo com a vara vergada, a linha retesada correndo na frição, tentando segurar o anzol que o pássaro levava junto com a isca.

A cena lembrava-me um garoto numa tarde de agosto empinando sua pipa, mas uma pipa viva. Fatos como este que, é claro, foi motivo de boas gargalhadas à noite, fazem com que, numa pescaria, o peixe seja apenas um detalhe.

(*) O autor, Jovercy Bergamaschi, mais curioso que pescador, afirma que também desta vez não está mentindo, basta perguntar a qualquer um dos acima citados e aproveita a deixa para mandar um abraço a alguns que sumiram do mapa.