09 de julho de 2026
Geral

Projeto 'socializa' Zona Sul da cidade

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 4 min

Arquiteto propõe desenvolvimento sustentável para a região da cabeceira do rio Bauru e cria polêmica entre empresários

O arquiteto José Xaides apresentou, na última sexta-feira, ao Conselho Municipal de Meio Ambiente (Condema) um projeto de urbanização da Zona Sul de Bauru, o qual pretende permitir a ocupação de três mil hectares (cerca de 30 milhões de metros quadrados) dessa área nobre por pessoas de todas as classes sociais. A proposta, que ainda está na fase de discussão, criou polêmica no meio empresarial, principalmente no ramo imobiliário.

Segundo Xaides, que é membro do Condema e professor da Faculdade de Arquitetura da Unesp, o projeto tem o apoio de diversos órgãos e entidades representativas da comunidade. Sua principal preocupação reside numa possível ocupação desordenada da cabeceira do rio Bauru, localizada na Zona Sul, que poderá resultar no agravamento dos problemas de enchentes do Município.

A necessidade desse estudo surgiu dessa constatação, diz, sempre ressaltando a participação dos órgãos ambientais da cidade. Ele explica que o projeto busca o desenvolvimento sustentável na área ambiental do ponto de vista econômico. Os loteamentos projetados para o local vão passar por estudos mínimos amparados pelo Estatuto da Cidade, como os Estudos de Impacto de Vizinhança (EIV) e Ambiental (EIA).

Esse loteamentos vão ter que solucionar as demandas técnicas, sociais e econômicas que vão provocar, como a contenção das águas, que não poderão ser jogadas no fundo do vale, explica. Os projetos também vão ter que prever o sistema viário, os equipamentos públicos, áreas de lazer, sempre de acordo com a densidade demográfica que ocupará a região.

Matas nativas

Pelo projeto apresentado na sexta-feira ao Condema, o conjunto de matas nativas que ainda existe na Zona Sul deverá ser preservado integralmente. A mesma regra valerá para as matas secundárias, que estão sendo recuperadas nos últimos anos. A diferença, nesse caso, está no percentual de preservação: 50%.

Do ponto de vista econômico, que acho fundamental, esse projeto foi embasado no Estatuto da Cidade. O estatuto cria condições extraordinárias para se construir sem causar problemas econômicos, fazendo trocas entre o Poder Público e o privado, destaca. Uma delas é a permissão de verticalização dos outros 50% da área a ser loteada. Isso permitirá um número maior de construção de moradias, em comparação ao parcelamento horizontal. Basta o empreendedor preservar as matas e as condições ambientais.

Xaides afirma que os empresários não vão ter prejuízos com o projeto. Ele ressalta os benefícios do ponto de vista social da proposta. A Zona Sul não deve ser, no nosso entender, só para os ricos. Deve ser uma área onde se permita construções para a classe média e habitações populares. Nós temos favelas naquela região. Através do Estatuto da Cidade serão criadas as Zonas Especiais de Interesse Social (Zeis), que dará direito a essa população mais humilde residir próxima, por exemplo, das áreas comerciais projetadas, próxima dos parques. A idéia é ter uma coesão social e não uma segregação social, explica.

O projeto permite, inclusive, a construção de núcleos habitacionais nas Zeis. O arquiteto esclarece que os núcleos deverão ser construídos verticalmente. Ele diz que esse modelo de construção permitirá a acomodação de um maior número de pessoas no espaço, preservando mais as áreas ambientais e ampliando os benefícios sociais.

Desmitificação

O arquiteto acredita que é preciso desmitificar o perfil negativo com que os ambientalistas são encarados pelos empresários da construção. Muitos pensam que tudo que os ambientalistas fazem é prejudicar o desenvolvimento da cidade. Muito pelo contrário. Com esse projeto, só na cabeceira do rio Bauru vamos ter a possibilidade de colocar entre 150 mil a 300 mil pessoas, destaca.

Na sua opinião, o Poder Público não deve mais aceitar processos especulativos, desordenados e que prejudiquem as questões ambientais. O Poder Público define uma regra no Plano Diretor e os empresários vão se encaixando dentro dele. Xaides acredita no bom senso dos empreendedores e acha que eles vão entender a proposta. Se nós tivermos um espaço de debate para explicar tudo, eles vão compreender.

Para ele, é preciso apagar a imagem de que as questões de preservação ambiental vão contra os interesses privados. O Estatuto da Cidade criou instrumentos que permitem a conciliação entre a visão desenvolvimentista, que atropelava tudo, e a questão ambiental. É outro paradigma que vai requerer um tempo de assimilação.