08 de julho de 2026
Geral

Adolescência e sexo

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 8 min

Dando continuidade à matéria sobre adolescência, publicada na última semana, o Caderno Ser está discutindo nesse domingo uma das grandes preocupações dos pais através dos tempos: a sexualidade dos seus filhos. Apesar de ser um tema que sempre preocupou quem tem filhos, o assunto nunca foi tratado de forma aberta em época alguma. No passado, o interesse dos jovens pelo sexo era tratado com repressão e, na grande maioria dos casos, os filhos nem tinham suas dúvidas esclarecidas nem podiam falar sobre o assunto. O que acontecia era uma procura por informações em fontes pouco recomendadas, como pessoas próximas mais velhas que nem sempre sabiam como fornecer dados corretos. Hoje, a situação mudou, mas não o suficiente para evitar que os pais fiquem sem saber o que fazer quando, entrando na adolescência, seus filhos começam a descobrir a sua sexualidade e se sentem prontos para ter a primeira relação sexual. Isso porque, apesar de haver mais diálogo, uma maior liberação na educação dos filhos e mais acesso a informação por parte dos jovens, ainda existem pais que não se sentem confortáveis em falar sobre sexo com os filhos e também ransos de uma cultura machista de séculos que faz com que filhos sejam tratados de modo diferenciado em relação às filhas.

Não é nenhuma novidade que os jovens crescem mais rápido hoje em dia, por diversas razões que vão das melhoras de condições de saúde à quantidade de informações que recebem, principalmente através da televisão. Quando o assunto é sexualidade, não é diferente, os jovens, diferente do que acontecia há alguns anos atrás, começam a se interessar por sexo bem mais cedo e o número de adolescentes grávidas em todo País não deixa nenhuma dúvida sobre essa questão. Uma pesquisa sobre os hábitos dos adolescentes brasileiros realizada entre 1995 e 96 pela filósofa Tania Zagury e que resultou no livro O Adolescente Por Ele Mesmo, editado pela Record, apontou que 20,6% dos jovens têm a sua primeira relação sexual com 14 anos ou menos (observe o quadro). Em 79,3% dos casos, a relação sexual aconteceu com um namorado (a) ou com um amigo (a) próximo (a). Um dado alarmante da pesquisa de Zagury, que envolveu 943 estudantes de primeiro e segundo graus, de todas as classes sociais, de sete capitais e nove cidades do Interior do Brasil, é que em 77,6% dos casos de jovens que mantém uma vida sexualmente ativa, a participação dos pais é mínima ou nula, inclusive em 35,3% dos casos eles nem desconfiam que os filhos não são mais virgens. Considerando que a quantidade de jovens grávidas aumenta a cada dia, assim como também a disseminação de doenças sexualmente transmissíveis, é assustador imaginar que exista uma quantidade tão grande de pais que não fala sobre sexo com os filhos.

Mas por que isso acontece apesar de atualmente a educação ser notadamente mais liberal do que há décadas atrás quando os pais de hoje eram os adolescentes? A resposta está na própria pergunta segundo a psicóloga Luciana Biem Neuber. Apesar das inúmeras informações sobre sexo que se tem hoje, os pais ainda esbarram em tabus de um passado reprimido quando o assunto é sexualidade. Existe uma dificuldade dos pais em tratar esse assunto porque nós trazemos uma herança de uma cultura que reprime a sexualidade, diz. Há também uma interpretação errada sobre a sexualidade, que, de acordo com a psicóloga, não diz respeito apenas à parte sexual em si, mas também a todas as diferenças biológicas e psicológicas que existem entre homens e mulheres e que passam a ser notadas com mais evidência quando o jovem deixa a infância.

Além da castração cultural histórica, outra coisa que impede os pais de falarem sobre sexo com os filhos é o medo de que, ao obterem mais informações, eles se interessem mais por sexo do que deveriam. O medo é infundado como já comprovaram pesquisas em escolas americanas e inglesas nas quais o ensino sexual fazia parte do currículo. Os estudantes dessas escolas acabaram tendo uma iniciação sexual mais tardia do que os alunos de outras escolas onde a Educação Sexual não era ensinada. O saber não leva a decisões impensadas, ao contrário, afirma Tania Zagury no seu livro. O pediatra e psiquiatra Christian Gauderer também lembra em seu livro Sexo e Sexualidade da Criança e do Adolescente, que o adolescente é um curioso nessa fase em que tudo está mudando na sua vida interna e externamente e por isso precisa de informações mais completas mesmo que elas não signifiquem que ele vá as colocar em prática assim que as obtiver.

Pais e filhos

Para Tania Zagury, existem atualmente dois tipos básicos de pais: os que abrem o jogo e falam sobre tudo com os filhos porque se sentem confortáveis com o assunto; e os que, por não se sentirem bem ou por não acharem conveniente, simplesmente consideram o assunto fora de questão. Entre os dois tipos, ainda existe uma classe intermediária que se expressa através de metáforas ou que aborda apenas alguns aspectos, sentindo-se despreparados para uma conversa mais franca e aberta.

Segundo Luciana Biem Neuber os pais autoritários, rígidos demais, que consideram o sexo um assunto sexo proibido, geram dúvidas e preocupações para os filhos que passam a não saber o que está acontecendo com o próprio corpo. No futuro isso pode trazer conseqüências como uma gravidez indesejada, doenças, inibições que façam com que eles que não consigam lidar com sua sexualidade, ou falta de confiança e segredos entre a família. Já os pais liberais demais, que acham que só informação é o suficiente, correm o risco de não dar a devida importância para os sentimentos dos filhos. O melhor caminho seria então um equilíbrio, respeitando os limites da estrutura familiar, onde tudo pode ser conversado com muita flexibilidade.

É preciso que esses pais, em primeiro lugar, compreendam que seus papéis são fundamentais na formação de conceitos e valores de seus filhos e que participem de suas vidas, diz a psicóloga. E para que essa relação traga benefícios para ambos, é fundamental que os pais entendam a fase pela qual o (a) filho (a) está passando, lembrando que a adolescência é uma fase de transição, caracterizada por uma necessidade de descoberta, de experiências, além das alterações biológicas que o (a) jovem está vivendo. O adolescente também precisa compreender que os pais se preocupam com eles e precisam protegê-los por amá-los demais. Por isso eles se envolvem tanto, lembra.

Diálogo

Segundo Luciana Biem Neuber, o diálogo é fundamental para se resolver a questão desde que um respeite a opinião do outro e a através da flexibilidade de ambas as partes pais e filhos possam chegar em um acordo, mesmo em outros assuntos que não sejam o sexo. Antes disso, porém, ela lembra que o casal deve conversar antes de haver algum contato com o (a) filho (a), pois a maneira como cada um deles lida com a sua própria sexualidade e possui seus conceitos e valores individuais também vai influenciar a postura com que irão lidar com esse adolescente. É uma forma de adotar apenas um discurso e não confundir ainda mais a cabeça dos filhos.

O psiquiatra e psicoterapeuta Içami Tiba, me seu livro Adolescência - O Despertar do Sexo, ensina que, como em qualquer diálogo, o diálogo sexual entre pais e filhos deve envolver o saber e falar e saber ouvir. Estar preparado para o diálogo significa estar aberto para modificar seu próprio ponto de vista; o sucesso enriquece ambas as partes, escreve. O psiquiatra recomenda que metáforas e subentendidos sejam deixados de lado por atrapalham a comunicação e podem acabar confundindo mais. Os pais devem ir direto no âmago da questão, explica. Além disso é importante que não haja constrangimento em nenhuma das partes. O clima afetivo, o bom humor, a verdade e a entrega garantem um bom diálogo. O amor se encarrega do resto, define o autor.

Os livros citados na matéria foram gentilmente cedidos pela livraria Jalovi

Maturidade

Encarar o fato de que os filhos estão despertando para o sexo não é fácil para os pais que podem enxergar nisso o fato de que logo os filhos estarão saindo de casa (para namorar e posteriormente se casar) e também que o tempo está passando e que a velhice se aproxima. Luciana Biem recomenda que os pais que enfrentam essa situação não tenham medo e que acompanhem o desenvolvimento dos costumes atuais apesar de conservarem resquícios da maneira como foram criados.

A psicóloga lembra, por exemplo, que é comum ainda hoje que existam pais que acreditam que para os filhos homens, a iniciação sexual é um orgulho e por isso a incentivam, mas não agem da mesma maneira com as filhas. Esse machismo é sinal de uma imaturidade que não pode existir nessa hora. Para a psicóloga, os pais precisam prestar atenção naquilo que os filhos estão sentindo, independente de serem meninos ou meninas até porque o machismo de outrora não era justo com nenhuma das partes. Culturalmente, as mulheres sempre tiveram que associar sexo com sentimento, enquanto os homens podiam pensar em sexo apenas como necessidade física ou busca de prazer o que é um erro. Hoje, não é novidade que os conceitos valem igualmente para ambos os sexos, já que as mulheres também têm desejo sexual e os homens também são sensíveis.

Para pais e filhos

Alguns livros sobre sexualidade que podem ajudar pais e filhos a tirarem suas dúvidas

Sexo e Sexualidade da Criança e do Adolescente, de Christian Gauderer, Editora Rosa dos Tempos

O Adolescente Por Ele Mesmo, de Tania Zagury, Editora Record

Adolescência - O Despertar do Sexo, de Içami Tiba, Editora Gente

Sexo para Adolescentes, de Martha Suplicy, Editora FTD

Puberdade e Adolescência, de Içami Tiba, Editora Ágora

A Vida Sem Receitas, de E. Christian Gauderer, Editora Objetiva

Conversando Sobre Sexo, de Martha Suplicy, Editora Vozes

Sexo, Prazer em Conhecê-lo, de Rosely Sayão, Editora Artes e Ofícios