09 de julho de 2026
Geral

Vitória Régia sai da glória para o abandono

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 5 min

A construção do parque talvez tenha sido a principal marca do otimismo que tomava conta do cenário político e social de Bauru nos idos anos 70

Está surgindo o mais novo e, seguramente, o mais bonito cartão-postal de Bauru. Com a conclusão do Anfiteatro Vitória Régia, a cidade passa contar com alguma coisa sem similar em boa parte do País, concretizando nessa obra de arte a sublimação de muitos ideais. Exatamente. Quem já se aproximou desse local na via expressa Nações Unidas pode sentir que é impossível permanecer imune ao entusiasmo e à sensação de euforia que emanam de todo aquele complexo de cimento, asfalto, água e verde. Aquele conjunto realmente impressiona. Sentir seus efeitos funciona como estimulante de grande efeito. Parece que dá mais vontade de acreditar em Bauru. Nos transmite a nítida sensação de que esta jovem cidade é o melhor pedaço de mundo que existe por aí. Incrustado naquela que sem dúvida será a mais bonita avenida da cidade - a via expressa Nações Unidas -, o Anfiteatro Vitória Régia passa a simbolizar a obra do otimismo. Quem o vê, não pode deixar de acreditar em Bauru.

As palavras do jornalista Flávio Antonio de Angelis, publicadas no dia 30 de julho de 1978 sob o título a A obra do otimismo, dão a exata dimensão da representatividade da construção para Bauru. O sentimento, por sinal, refletia exatamente o desejo do arquiteto Jurandyr Bueno Filho, na época vice-prefeito e secretário municipal do Planejamento, que a concebeu para dar uma cara à cidade. Eu queria que a obra tivesse uma forma muito particular, capaz de tornar-se uma identidade, já que não tínhamos nenhum morro, lago ou praia como símbolos, explicou Bueno.

Dito, planejado e feito. Tão logo foi inaugurado, o Vitória Régia transformou-se em referência, sendo palco de grandes atrações e do cotidiano dos moradores. O local tornou-se cenário comum nos álbuns fotográficos dos recém-casados da época e seu nome foi emprestado a uma escola de balé, a um hotel e a uma padaria, esta, inclusive, distante do parque (ficava na praça Machado de Melo).

O que chamou bastante atenção foi a transformação que aquela área sofreu em exíguos dois anos de obras, executadas pela Prata Construtora, vencedora da licitação pública. Onde hoje repousa a avenida Nações Unidas e o parque Vitória Régia havia uma erosão gigante, capaz de fazer inveja às dezenas que atualmente aguardam recuperação na periferia da cidade. Antes de ser como hoje, as obras da Nações Unidas estavam paradas na altura da rua Aviador Gomes Ribeiro, numa quadra acima da avenida Duque de Caxias. Acima desse ponto, abria-se um enorme conjunto de erosões. Do lado direito, um grande buraco caminhava rumo à Joaquim da Silva Martha. Na direção do extinto auto-cine (área posterior ao restaurante Porteira do Rio Grande), o vale era completamente deteriorado, com o córrego das Flores (aquele canalizado sob a Nações) nascendo na altura da Faculdade de Odontologia. A paisagem desoladora deu lugar ao progresso, enchendo de entusiasmo uma população inteira.

É claro que imaginar avanços desse porte nos dias de hoje é algo ilusionário, completamente fora da realidade. Bauru passou por um processo vertiginoso de perdas e seria um contra-senso exigir grandes investimentos num momento em que a Administração Municipal sequer consegue dar conta dos buracos de rua. Os anos gloriosos ficaram para trás. Aquela era uma época de grande otimismo, o que nos parece muito distante hoje em dia. A administração de uma cidade se assemelha à de uma família. Quando as coisas não vão bem e marido e mulher vivem em briga constante, o cuidado com a casa vai acabando. O zelo e o interesse em deixar tudo arrumado vão por água abaixo, compara Bueno.

Vale registrar que a Nações Unidas e o parque Vitória Régia foram custeados por um financiamento contraído pela Prefeitura junto ao Banco do Brasil. O empréstimo foi pago com o aumento do IPTU dos imóveis vizinhos da obra, amplamente valorizados na ocasião.

Paredão de contenção

Seria a destruição do Vitória Régia. Essa é a opinião de Jurandyr Bueno Filho, o arquiteto que concebeu o parque, sobre a proposta de construção de um paredão para conter as águas pluviais que descem pela avenida Nações Unidas e causam inundações. Bueno não questiona a eficácia da barreira, mas também não concorda com sua construção. Talvez isso seja a solução, mas também a destruição do parque. É a alternativa mais barata, mas a mais destrutiva em termos arquitetônicos; conserta um lado e estraga outro. Acho que outras maneiras deveriam estar sendo discutidas, sugeriu.

De acordo com o arquiteto, a condenação do processo de canalização do córrego das Flores é reducionista demais. Segundo ele, mais do que discutir a suficiência da tubulação, é preciso ponderar que a construção da Nações Unidas e Vitória Régia veio acompanhada de uma lei que restringia a expansão da cidade. O plano original descartava construções na região hoje ocupada pelo shopping e Wal Mart, mas a lei foi mudando conforme o interesse dos empreendedores. A canalização do córrego foi pensada sem a impermeabilização de solo hoje existente, tanto que não tínhamos inundações há coisa de sete, oito anos atrás, argumentou. A reportagem do JC nos Bairros tentou levantar a proibição inicial e as posteriores alterações, mas, em virtude da vasta pesquisa necessária, não teve tempo hábil para tanto.

O teatro que não veio

A área de 50 mil metros quadrados que abriga o Parque Vitória Régia deveria, segundo o projeto original, dar espaço ao prédio do teatro municipal, inaugurado somente no ano 2000 e em outro lugar. Na concepção do arquiteto Jurandyr Bueno Filho, o espaço teria varandas de forma que as portas interagissem com o parque. Interiormente, o teatro seguiria no padrão tradicional, com palco italiano e platéia com 400 lugares, além de toda a infra-estrutura convencional. O projeto nunca saiu do papel e, com muito esforço, diga-se de passagem, Bauru só foi conseguir seu espaço para as artes cênicas 25 anos depois da idéia inicial.

O teatro ocuparia uma área retangular do parque, na parte posterior do anfiteatro, hoje completamente sem utilização. É nela, por sinal, que seriam instalados atrativos com a proposta de revitalização.