10 de julho de 2026
Geral

Bispo apóia ação política dos leigos

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 7 min

Novo bispo de Bauru está disposto a apoiar o trabalho que está sendo desenvolvido pelo Conselho de Leigos e Leigas.

A escolha do bispo dom Luiz Antonio Guedes para a Diocese de Bauru é resultado de uma ação bem planejada do Vaticano e da Nunciatura Apostólica no Brasil. Assim como Campinas, Bauru é um pólo concentrador de população jovem, devido ao número de universidades, faculdades, cursos secundaristas e preparatórios para vestibulares. A experiência de dom Luiz nessa área, pelo visto, é vasta, o que deve ter pesado na sua indicação para a Diocese de Bauru. Em entrevista concedida ao JC, o novo bispo também comentou sobre temas polêmicos, como aborto, MST, envolvimento do clero na política e Teologia da Libertação. A forte atuação política do Conselho Diocesano de Leigos e Leigas tem apoio do religioso. A seguir, entrevista com dom Luiz Antonio Guedes:

Jornal Cidade - A comunidade católica de Bauru estava ansiosa para saber quem seria o novo bispo da Diocese. Como o senhor recebeu a notícia de que vai comandar a Diocese?Dom Luiz Antonio Guedes - Eu foi informado pela Nunciatura Apostólica no dia 9 de outubro. Por algumas questões de circunstâncias, eu só pude dar o retorno a minha resposta no último dia 15, devido ao feriado de Nossa Senhora Aparecida. Quando fui informado, eu acolhi com tranqüilidade. Vou para uma Igreja que é igual a nossa aqui, embora ela tenha as suas características próprias. O povo é o mesmo, é o povo paulista. Respondi com muita esperança. A sensação que eu tive foi a mesma ou semelhante àquela que eu tive quando decidi entrar para o seminário. Era isso que eu queria. Eu me sentia chamado para se tornar padre, para me preparar para isso. Se eu me tornei bispo é para isso, para estar disponível. Tenho informações de que a Igreja de Bauru é uma Igreja viva, vibrante. É uma graça de Deus. Vou com muita alegria e esperança também.

JC - A Diocese de Bauru comanda 14 municípios e 40 paróquias, que formam uma população católica estimada em 400 mil pessoas. Qual é a expectativa do senhor em relação a esse novo desafio?Dom Luiz - Na realidade ainda não conheço bem a Diocese. Eu passei por Bauru duas vezes. No primeiro momento, vou entrar em contato com a Diocese e com suas forças vivas, as comunidades, o povo, os padres. Logo que assumir a Diocese, pretendo visitar todas as paróquias, de maneira simples, sem cerimônia, para entrar em contato e sentir um pouco o povo e os padres, dando a oportunidade de que eles também possam me conhecer. Vou assumir aquilo que já está planejado. A medida que formos caminhando, junto com as forças vivas vamos tomando decisões.

JC - Os especialistas em Igreja Católica costumam dividi-la em alas, como a progressista, a conservadora e a moderada. Em qual delas o senhor se enquadra?Dom Luiz - Na realidade eu não me coloco em nenhum desses lados. Eu adoto como princípio de vida, de conduta, a questão da comunhão. Comunhão com a Igreja, com o Papa João Paulo II e com seu sucessor. Me sintonizo com a caminhada da Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros, a CNBB. Temos que dialogar, conversar. Não é do meu feitio fazer opção por uma ala. Desde que eu entrei para o seminário, procuro manter o diálogo com todos.

JC - A Teologia da Libertação, de Leonardo Boff, criou polêmica na Igreja Católica e provocou a interferência do Papa João Paulo II. Qual é a leitura que o senhor faz sobre ela?Dom Luiz - A Teologia da Libertação, enquanto teologia preocupada com a situação do povo, está em comunhão com a Igreja. Quando a Igreja se posicionou de forma crítica, ela não fez isso de forma geral. A Igreja reconhece que na Teologia de Libertação há vários segmentos, várias maneiras de se apresentar. Mantendo aquela comunhão e realmente voltada, não por uma questão de ideologia, mas por uma questão do bem-estar do povo, a gente acolhe também.

JC - Alguns setores da Igreja Católica são envolvidos com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST. O senhor vê no MST um movimento de reivindicação legítimo?Dom Luiz - Eu recebo o boletim deles. Aí eu acredito que nós sempre devemos nos posicionar diante de situações concretas. Enquanto proposta de se promover a reforma agrária, eu posso dizer que sou favorável. Não estou me posicionando a favor ou contra o movimento em si. Estou me posicionando a respeito daquilo que é a proposta, que é promover a reforma agrária e dar condições para que todos os trabalhadores rurais tenham seu pedaço de chão para plantar, tenham sua roça e suas moradias. Em relação às ações concretas, depende delas. Dependendo de como elas acontecem, a gente pode estar a favor ou contra. Inclusive esse projeto de limitar o tamanho das propriedades, eu acredito que seja uma coisa boa.

JC - Bauru teve um bispo, dom Cândido Padin, que teve um posicionamento muito claro durante o Regime Militar, se posicionando contra e até mesmo defendendo políticos perseguidos. Como o senhor vê a participação direta do clero nas questões de ordem política?Dom Luiz - É preciso distingüir a questão política e a questão partidária. Politicamente todos nós devemos ter posição, devemos atuar, entendendo a política como a busca do bem comum. Já na questão do envolvimento direto e partidário, segundo a orientação da Igreja Católica no plano universal, não deve haver dos sacerdotes os envolvimento direto. Há exceções. A primeira vista, meu posicionamento está nessa direção que a Igreja adota e que o Papa também. Se nós falamos hoje no protagonismo dos leigos e das leigas, então eles devem realmente entrar e assumir isso. É uma tarefa deles. Mas compete também, seja ao sacerdote e a leigos e leigas, preparar também outros leigos e leigas. É um posicionamento de princípios. Agora, outros casos vamos ter que analisar.

JC - A questão do aborto é polêmica e a Igreja Católica tem um posicionamento definido sobre o assunto. O senhor, particularmente, o que pensa sobre o aborto?Dom Luiz - Eu somo com a Igreja. Sou radicalmente oposto à interrupção da vida, desde o seu princípio. Também sou contra a eutanásia, como também a tudo aquilo que está no meio, como a fome, a falta de educação. Tudo aquilo que é prejudicial à vida me posicono contrário. E tudo aquilo que favorece, com certeza também quero apoiar.

JC - Bauru é uma cidade cujos segmentos organizados têm uma forte participação no meio político, inclusive do Conselho Diocesano de Leigos e Leigas. O senhor acha que esse envolvimento dos católicos é o caminho para a construção de uma sociedade mais justa?Dom Luiz - A palavra leiga para mim é uma palavra positiva. Ela significa ser membro do povo de Deus, cidadão do reino. Sobre a ação dos leigos, eu creio que ela é plenamente legítima. Aliás a Igreja, desde o Vaticano Segundo, destaca, naquilo que é o modo de ser do leigo, a sua índole secular. É através do leigo e da leiga que de fato o evangelho como fermento, como luz, se faz presente na sociedade. E o que caracteriza de fato a atuação do leigo é essa participação naquilo que faz parte da construção de uma nova sociedade fratena. Eu me sinto feliz por saber que em Bauru existe uma atuação forte dos cristãos leigos e leigas. Vejo isso com bons olhos.

JC - Bauru é um grande pólo regional de concentração de universitários. O senhor tem algum projeto específico para melhorar ou atrair o interesse dos jovens na Igreja Católica?Dom Luiz - Sem dúvida que os jovens vão merecer uma atenção toda especial. É claro que não vou fazer isso sozinho. Eu sei que há em Bauru uma Paróquia Universitária. Nesse ponto, Bauru se assemelha a Campinas, onde temos universidade católica. Aqui também temos uma Paróquia Universitária. E pelo que me consta a Paróquia Universitária de Bauru é bastante atuante. Eu espero contar com quem já está aí na paróquia e somar forças.