Encontra-se em tramitação, na Assembléia Legislativa, projeto de resolução n.º 22/01, de autoria do deputado Luís Carlos Gondim (PV), católico fervoroso, propondo emenda no regimento interno da Assembléia. Propõe o projeto que cada deputado leia em voz alta um versículo da Bíblia, por três minutos, antes do início das sessões. Afirma-se que o projeto surgiu em razão dos ataques terroristas aos Estados Unidos. Temos que pregar a paz mundial e nada melhor do que darmos o exemplo, justifica o deputado. Destaca que, nunca é demais a prática de um ato de contrição para pedir a força do Todo-Poderoso.
Esse projeto me leva a um paralelo com o Ensaio intitulado O fator Deus, de autoria do escritor José Saramago, sobre os ataques terroristas sofridos pelos Estados Unidos, publicado no caderno Especial da Folha de S. Paulo (19/9/2001). O eminente escritor, Prêmio Nobel de Literatura, afirma que já foi dito que as religiões, todas elas, sem exceção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana. E, contudo, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, nem existirá nunca, inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e pela ação dos homens.
Os deuses, diz o escritor, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou. Mas o fator Deus, esse está presente na vida como se efetivamente fosse o dono e senhor dela. Não é um deus, mas o fator Deus, o que se exibe nas notas de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos, não a outra...) a bênção divina. E foi o fator Deus em que o deus islâmico se transformou, que atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações.
Conclui o escritor seu Ensaio, afirmando que, ao leitor crente (de qualquer crença...), ele não pede que passe ao seu ateísmo. Apenas pede que compreenda, pelo sentimento de não poder ser pela razão, que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E que desconfie do fator Deus. O projeto de resolução n.º 22/01, do deputado Luís Carlos Gondim e o Ensaio O fator Deus, do escritor José Saramago, comportam reflexões. Discordo do projeto, aprecio o Ensaio.
(*) Rodolpho Pereira Lima - RG: 2.096.095