Confesso que tenho medo. De repente o Taleban patrocina outro ato terrorista com sucesso nos Estados Unidos e o presidente Busch resolve engrossar o jogo e manda um artefato atômico pra reduzir a pó o restante das ruínas de Cabul. Violência gera mais violência e as ameaças multiplicam nossos temores e fantasiam os perigos.
Os gregos viam o medo como forma da condição humana e até diagnosticavam que toda civilização é produto de uma grande luta contra essa coisa capaz de nos amarrar por dentro. Divinizaram Deimos (o Temor) e Phobos (o Medo) que corresponderam às divindades romanas Pallor e Pavor. A palavra pânico vem de Pan, deus que difundia o terror entre os rebanhos e os pastores na caída da noite. Chegaram a elegê-lo uma espécie de padroeiro nacional da Grécia. Conjurado o medo através de um deus, poder-se-ia enfrentar qualquer ameaça com decisão e força.
Com receio do inimigo, os povos antigos tratavam de ampliar seus territórios. Matavam para não serem dizimados. Saqueavam riquezas e construíam fortificações. O aperfeiçoamento das estratégias e dos instrumentos de guerra demandavam muitos experimentos que acabavam tornando-se úteis para o quotidiano das pessoas. Os esforços para a construção da máquina de atirar pedras para dentro das muralhas solucionou problemas de física mecânica que possibilitaram o surgimento do moinho de vento e a roda dágua. Só não revolucionaram a indústria da época porque com o excesso de mão de obra escrava ninguém se preocupou em substituir ou diminuir o esforço humano. As cidades amuralhadas como Ávila, na Espanha, e Óbidos, em Portugal, nasceram desse medo e deixaram exemplos de engenhosa arquitetura. O mesmo podemos dizer das igrejas fortificadas que ofereciam conforto espiritual e segurança contra os ataques inimigos. Paredes de pedra de dois metros de largura garantiam o céu e a vida, ao mesmo tempo.
Até os animais irracionais têm medo. De serem devorados, é claro. Pior somos nós que temos razões para nos apavorar com o fantasma do desemprego, da violência urbana, do trânsito, das falências que podem transformar em torresmo nossas poupanças amealhadas em anos e anos de sacrifícios. São medos coletivos que a psicoterapia não resolve e evoca época anteriores à modernidade. O mar, as pragas, as guerras, as catástrofes que aterrorizavam os povos antigos se resumem hoje ao pavor ao extremismo do Oriente e ao revanchismo do Ocidente cujas conseqüências sequer podemos prever onde pode chegar.
Meus amigos: não devemos mais ter vergonha de sentir medo e muito menos de manifestá-lo. A idéia de que a paúra corresponde aos covardes, aos fracos e às mulheres vale para quem acredita nessa história de morrer heroicamente para ganhar o Paraíso e o direito a uma centena de virgens. Para quem tem os pés no chão e a libido já pouco influi no imaginário, o receio está em perder os valores democráticos, o humanismo e a civilização.
Hoje, em lugar de fazer do medo uma indignidade, conjura-lo ou convertê-lo em deus, é melhor estabelecer uma dialética com ele. Vivemos numa sociedade de risco (Beck) e aceita-la, tal como é, talvez seja a solução. Os Estados Unidos durante toda a guerra fria exportaram o medo para os países da Cortina de Ferro com suas experimentações com bobas A e H e até a famosa Bomba de Neutron destinada a matar sem destruir. As máquinas mortíferas foram propagadas pela indústria cultural, transformadas em brinquedos para as crianças e agora, a coisa se inverte. A ameaça não são mais os comunistas comedores de criancinhas mas os fundamentalistas islâmicos. Quem diria que esses pacatos rezadores do Corão com seus trajes esquisitos revelassem tanta determinação na defesa das suas terras tomadas com a ajuda das potências Ocidentais.