08 de julho de 2026
Geral

Os finados vivem

Frei Lourenço M. Papin, OP
| Tempo de leitura: 3 min

Dia de Finados, expressão popular impregnada de emoção, para lembrar os mortos, aqueles que finalizaram sua vida e missão na Terra. Finados para a vida terrena, mas não para a Vida Eterna, além das fronteiras do tempo intransponíveis para o retorno.

Os antigos cristãos chamavam o dia da morte de dia natalício, ou seja, dia do nascimento para a vida em plenitude, a Vida Eterna. Assim, lembrar o dia da morte de alguém, é comemorar seu nascimento para uma vida que jamais terminará! A morte, então, mais do que o fim de uma caminhada é o começo de uma vida mais perfeita, sem nossas limitações somáticas, psíquicas e espirituais, sem o sofrimento, as frustrações existenciais e tantos outros senões da natureza humana debilitada pelo pecado.

A morte foi comparada a um parto humano. O nascituro vem à luz como que relutante, pois se encontrava seguro e tranqüilo no aconchego do ventre materno. Talvez seja por isso que a criança chora e estrila ao nascer! Que beleza, porém, o mundo em que entrou, cheio de vida, de luzes e cores e de onde jamais ela vai querer sair. A morte é esse parto doloroso, sim, mas passagem para um mundo novo, maravilhoso e luminoso que é a Vida Eterna em Deus e onde para sempre a pessoa vai querer ficar!

Comovido estou me lembrando de uma garota goiana doente, Nilma, 14 anos, consciente que ia morrer, que sonhava com a eternidade como um lugar encantado pela presença de Deus, de lindas praias, de fontes límpidas, de um céu sempre azul, e sem faltar alegres danças (de que ela tanto gostava) ao som de melodiosas músicas angelicais!

A morte, todavia, sempre inspira inquietação e medo. A razão disso certamente é o pecado como distorção do plano de Deus, negação do bem, da verdade, da justiça e do amor. Ainda bem que nessa hora certamente teremos o olhar misericordioso e o abraço amoroso do Pai.

No Dia de Finados, a Igreja nos convida, com forte ênfase, a uma dupla profissão de fé, na Vida Eterna (sobre a qual acima falamos) e na Ressurreição dos mortos. Duas verdades fundamentais no Cristianismo e que dão sentido pleno ao mistério da morte. A Ressurreição dos mortos se alicerça e tem sua garantia na Ressurreição de Cristo, como afirma São Paulo à sua comunidade de Corinto (I Cor 15, 16-21).

E como será a ressurreição? A nossa vida corporal após a morte, será tão diferente da anterior como a planta é diferente da semente de onde saiu pelo poder do Criador. Cristo usa uma sugestiva linguagem rural para falar da ressurreição: se o grão de trigo que cai na terra não morrer, ele não produzirá fruto (Jo 12, 24). Como é lindo o trigal dourado que surgiu das sementes que desapareceram na terra! Na ressurreição, o Senhor da vida transformará o homem corporal, material e corruptível, criando um ser imortal e incorruptível, nos ensina São Paulo (I Cor 15, 35-53).

A ressurreição é a dignificação máxima do corpo humano, sem quebra da unidade e integridade da pessoa. Na ressurreição o humanismo cristão encontra sua mais sublime mística e espiritualidade.

Cremos, pois, na Vida Eterna e na ressurreição dos Finados que vivem partilhando da felicidade que é o próprio Deus. No mistério do Amor que não passa, nossos mortos estão em comunhão com o Deus da vida e, portanto, em comunhão conosco também. Nem a morte, portanto, nos separa totalmente daqueles que partiram!