No dia 23 de abril deste ano, após ter lido a entrevista concedida pelo sr. corregedor Antônio Mazzuca a esse conceituado Jornal da Cidade, deixei todos os meus compromissos, inclusive profissionais - exerço a advocacia trabalhista há quase duas décadas -, para atender ao chamamento, inclusive pela imprensa, de que esse senhor, na qualidade de vice-corregedor do TST, estaria ... à disposição dos interessados para o recebimento de reclamações que, igualmente, poderão ser encaminhadas à Corregedoria Regional... até as 13 horas do referido dia. Acostumado com a habitual urbanidade de outros corregedores que o antecederam nas correições ordinárias, desta feita saí sereno e tranqüilo, posto que iria ao encontro de um confrade e que se houvesse oportunidade entregaria, ao mesmo, algum texto de minha autoria acerca de assuntos espirituais.
Muito embora a minha chegada no local tenha se dado às 12h20, não fui atendido em virtude de o sr. corregedor e sua equipe já estarem iniciando as despedidas. Apresentei-me, como advogado, e disse que gostaria de conversar rapidamente com o mesmo, o que foi de pronto descartado sob a alegação de que já havia encerrado o atendimento e que os meus colegas haviam comparecido no dia anterior. Surpreso, mantive a mais completa serenidade e, ao permanecer no balcão de atendimento da secretaria de uma das Varas pude, finalmente, como os demais, cumprimentá-lo novamente, já que estava terminando as despedidas. Ingenuamente, achei por bem informá-lo de que iria remeter uma carta ao mesmo. Sem querer saber de mim o motivo, o referido senhor respondeu-me, para minha maior surpresa: Se o senhor se acha tão importante... Como havia pessoas que o acompanhavam e, diante da situação desconfortável eu, sem saber, no momento, o que dizer além do não é nada disso, procurei explicitar perante o funcionário que se encontrava bem à minha frente de que entre eu e o senhor corregedor havia uma certa afinidade doutrinária o que levou o dito senhor (corregedor) a dizer, de pronto, irmão de fé e, em seguida, foi-se sem me conceder qualquer oportunidade.
Dentre os inúmeros aspectos desse episódio entendi, por bem, enfocá-lo, publicamente, sob o contexto do Espiritismo na tentativa de elucidar aos caros leitores que não basta tão somente o cultivo de um rótulo religioso, no caso, o de espírita. Isto porque, o Espiritismo é, indubitavelmente, uma das mais completas e belas doutrinas que já apareceram na face deste planeta de provas, expiações e regenerações e, como tal, além de não dar causa a adeptos deformados, trata com profunda seriedade e clareza da transformação moral das criaturas o que, para tanto, se exige, além de convicção sincera e firme, vontade de se auto-remodelar através do auto-conhecimento e do combate ininterrupto das imperfeições. A meta maior dessa doutrina de luz é proporcionar condições para que as pessoas, em geral, com um pouco de boa vontade, interesse e liberdade, se esclareçam e se transformem de verdade buscando, a cada dia, a plenitude desse desenvolvimento cuja meta é sempre o bem. Por isso, e para que não paire dúvidas, traça o perfil do que entende ser o homem de bem de cujo texto extraímos os seguintes trechos: O verdadeiro homem de bem é aquele que pratica a lei de justiça, de amor e de caridade, na sua maior pureza. Questiona sua consciência sobre seus próprios atos, perguntará se não violou essa lei, se não fez o mal, se fez todo o bem que podia, se negligenciou voluntariamente uma ocasião de ser útil, se ninguém tem queixa dele, enfim, se fez aos outros tudo o que gostaria que lhe fizessem... O homem de bem que tem o sentimento de caridade e de amor ao próximo faz o bem pelo bem, sem esperar retorno, retribui o mal com o bem, toma a defesa do fraco contra o forte, e sempre sacrifica seus interesses à justiça. (...) É bom, humano e benevolente para com todos, sem distinção de raças nem de crenças, pois vê irmãos em todos os homens. Respeita nos outros todas as convicções sinceras e não amaldiçoa quem não pensa como ele. (...) Em todos os momentos, a caridade é o seu guia; tendo como certo que aquele que prejudica os outros com palavras maldosas, que não recua perante a idéia de causar um sofrimento, uma contrariedade, ainda que ligeira, quando poderia evitá-la, falta ao dever de amor ao próximo, e não merece a clemência do Senhor. (...) Finalmente, o homem de bem, respeita todos os direitos que as leis da Natureza dão aos seus semelhantes, como gosta que os seus sejam respeitados.
Para concluir, transcrevo o que considero uma das mais sérias advertências registradas pelos nobres Espíritos - emissários do Criador da Vida - incumbidos da consolidação das bases do Espiritismo em meados do séc. XIX, na França, qual seja: Reconhece-se o verdadeiro espírita por sua transformação moral e pelos esforços que faz para dominar suas más tendências. (Trechos extraídos do cap. 17 de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Ed. Petit.) (José Quaglio - OAB-SP. 71.930)