08 de julho de 2026
Geral

Plástica: Tudo pela beleza

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Desde que surgiu como especialidade médica, para reparar imperfeições, congênitas ou causadas por ferimentos, a cirurgia plástica tem sido usada para modelar o corpo e disfarçar os efeitos do tempo. Há até alguns anos, porém, retocar o visual na mesa cirúrgica era privilégio de poucas pessoas. Hoje, esse procedimento é muito popular. Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), o Brasil é um dos países onde mais são realizadas cirurgias plásticas com fim meramente estético no mundo. Só no ano passado foram 300 mil operações, de acordo com a instituição, sendo que desse total, 80 mil foram intervenções para a retirada de gordura localizada, a famosa lipoaspiração. Além disso, as mulheres deixaram de ser as únicas adeptas da plástica. De todas as cirurgias realizadas no ano passado, cerca de 30% (90 mil), foram feitas em homens.

A popularização da plástica no Brasil pode ter explicação em três fatores principais: a preocupação com os padrões de moda vigentes na atualidade, que pregam a necessidade de se ter um corpo esguio de formas definidas (preocupação esta que se torna ainda mais latente quando a top model número um do mundo é uma brasileira, a gaúcha Gisele Bündchen); o desejo de aparentar menos idade e o aumento do número de especialistas em cirurgia plástica no mercado, o que deixou as intervenções corretivas mais acessíveis à população em geral.

Essa democratização da plástica tem feito com que mulheres e homens de várias faixas etárias corram para os consultórios em busca do visual que sempre sonharam. E com o avanço cada vez maior nessa área da medicina, atualmente é muito difícil encontrar uma parte do corpo que não possa ser remodelada com a ajuda de um cirurgião (veja no quadro da página 3).

De acordo com o cirurgião plástico Carlos Augusto Cameschi, as cirurgias mais procuradas são as de mamas (para aumento do tamanho), abdômen (retirada de gordura localizada), nariz e face. Segundo o médico, a procura pelas cirurgias é maior antes do verão. As pessoas querem ficar com o visual em ordem para quando a estação chegar, diz. Nas outras estações, porém, a procura não diminui. Cameschi acredita que o fato das cirurgias terem se tornado mais acessíveis nos últimos anos com a entrada de novos profissionais no mercado é a principal razão da popularização da plástica.

Influência da moda

A grande procura por cirurgias para o aumento do volume dos seios e para a retirada da gordura localizada, principalmente do abdômen, indica que não há apenas uma facilidade maior para mudar o corpo, mas que essa facilidade segue um modelo, no caso, o padrão de beleza que impera nesse começo de século: o da mulher alta, magra, com seios avantajados, como as top models Gisele Bündchen, Claudia Schiffer, Kate Moss ou Naomi Campbell. A influência da moda tem levado às salas de cirurgia mulheres cada vez mais jovens, o que nem sempre é recomendável. De acordo com a cirurgiã plástica Carla de Oliveira Cardia, em matéria publicada no Caderno Ser, a adolescente precisa de uma boa orientação antes de se submeter a uma cirurgia plástica para que não fique esperando um super-resultado e saiba de todos os riscos que uma intervenção cirúrgica possui. A participação da família é fundamental nesse processo, segundo a médica, para que a jovem não se deixe levar pela ansiedade e esqueça das recomendações necessárias antes e depois da cirurgia. Carla Cardia diz que a plástica na adolescência só é recomendável se forem fundamentais para que a pessoa se sinta bem com o seu grupo de convívio. Mesmo assim, a intervenção só deve ser feita depois que o corpo da jovem estiver amadurecido e não for mudar mais. O modismo é que é perigoso. A prótese de mama, por exemplo, é uma cirurgia séria. As pessoas precisam saber disso enquanto o médico tem que orientar muito e não entrar na moda, diz.

Vencendo o tempo

De acordo com Carlos Augusto Cameschi, as pessoas que querem fugir das marcas do tempo são as que mais procuram os consultórios. E desse grupo fazem parte também os homens, que há alguns anos têm assumido a sua vaidade. Os homens correspondem a 10% do total dos meus atendimentos, diz o cirurgião. Um dado interessante é que mesmo as mulheres mais velhas, que procuram o rejuvenescimento pela plástica, procuram seguir algum padrão de beleza, ao contrário dos homens que buscam corrigir o visual para se sentirem mais jovens mas sem um modelo como espelho.

Na opinião da psicóloga Célia Helena Ortiz, o desejo de afastar a velhice com uma cirurgia pode ocultar a vontade inconsciente de se distanciar cada vez mais da morte. As pessoas ainda associam a terceira idade com a morte e por isso não querem parecer idosas, declara. A psicóloga, porém, não acredita que a busca pela melhora do visual seja negativa para a pessoa. Normalmente, quem faz uma cirurgia plástica está procurando se sentir bem consigo mesmo e isso é positivo, considera. É importante que a pessoa tenha certeza do que quer fazer e não vá se arrepender depois, lembra.

Felicidade e anonimato

Não é difícil encontrar pessoas que tenham passado pelo bisturi de um cirurgião plástico. A maior dificuldade é fazê-las admitir a cirurgia. Nesse caso, segundo a dona de casa Maria Helena*, de 45 anos, o segredo é a alma do negócio. Há dois anos ela realizou um lifting facial e rejuvenesceu (segundo ela mesma) uns dez anos. Todo o processo foi feito em segredo e inclui um sumiço social de três meses. Parei de sair, dei uma sumida e quando voltei estava assim, conta. Quando questionada sobre o novo visual, diz que é resultado de um creme importado. Não sei se todo mundo acredita, mas mesmo assim não conto a verdade, admite. O resultado da sua plástica é comemorado até hoje. Toda vez que me olho no espelho fico mais feliz comigo mesma, revela.

A estudante universitária Daniela*, de 25 anos, prefere não se identificar porque acha que as pessoas ainda são preconceituosas em relação às plásticas, principalmente ao tipo que ela se submeteu. Há um ano ela colocou 195ml de silicone em cada seio. Eu sou muito alta e achava meus seios desproporcionais. Isso me incomodava, explica. Após a cirurgia, Daniela passou a considerar os seios a parte mais bonita do seu corpo. Amei o resultado, sempre fico em frente ao espelho olhando para eles. A mulher se sente mais feminina, mas poderosa quando tem seios bonitos, define a estudante que recomenda a plástica: Quem tem vontade, deveria fazer. No começo é estranho, mas depois que a gente acostuma é maravilhoso.

O preconceito também fez com que o advogado Luis*, 32 anos, evitasse comentar com os amigos e conhecidos sobre a lipoaspiração que fez há seis meses. Sei que por mais que seja comum, as pessoas falam, por isso quis evitar comentários, justifica. A intervenção serviu para acabar com uma barriguinha de cerveja que ele cultuava desde que entrou na faculdade. Disse que fiz uma dieta e comecei a malhar, ninguém nem percebeu que fiz uma lipo. Hoje estou muito satisfeito com o meu corpo, muito mais feliz, declara.

* Os nomes dos entrevistados foram trocados para preservar suas identidades.