Ainda que há 21 anos estivéssemos amigados com as coisas do teatro bauruense, porquanto, nomeados pelo prefeito para um de seus membros, integrávamos a então Comissão Municipal de Teatro, não tivemos a ventura de assistir, na ocasião, à apresentação-estréia de Achados e perdidos, que o inspirado Paulo Neves acabara de pensar e escrever.
Soubemos, porém, do êxito de que ela se revestira. Fora emocionalmente aplaudida não só pelo brilhantismo com que tinha sido interpretada como, igualmente, pela flagrante oportunidade de seus enfoques, simbolizados pelos principais problemas nacionais da época. Pois bem! A inexorabilidade dos tempos aconteceu. Tinha de acontecer, porque não haveria ninguém no mundo capaz de comprimir os pedais de seu carroussel para impedir o seu avanço eterno.
Então periodicamente lamentávamos ter deixado de ouvir e ver a vida já penosa dos milhões de brasileiros de então, tal como o Paulo tinha conseguido teatralizar. Agora, porém, novo ensejo foi colocado diante dos nossos olhos e da nossa percepção e pudemos, finalmente, ver o Achados e perdidos, pois fomos assistir à sua encenação, semana passada, no moderno Teatro Veritas, onde foi desenvolvida por um simpático grupo de 16 jovens (quatro meninos e doze meninas) carinhosamente ensaiados pelo teatrólogo, nosso inesquecível companheiro de juventude, quando ele já mostrava tendências para a arte cênica.
E, sinceramente, empolgamo-nos com o espetáculo em medida dúplice. Uma, pelo valor intrínseco do tema que, inspirado em poesias de conspícuos autores e o adaptando às linhas dos maiores problemas do Brasil-1980, assim como associando-o frontalmente aos do Brasil-2001, constitui-se de indubitáveis lições de civismo para o Brasil que está chegando ao 2002. Trata-se mesmo de uma adaptação literária intuitivamente primorosa, com uma seqüência de conotações fidedignas, escritas em prosa e verso, lembrando, repetimos, nossos mais sérios desníveis de ontem que estão se repetindo nos dias de hoje com uma perspectiva pior que há 21 anos.
Outro destaque temos que dar à performance dos 16 jovens intérpretes, encenando inspiradas expressões corporais e vocais com um domínio e uma naturalidade de fazerem inveja a não poucos veteranos da ribalta. Tudo com um entusiasmo - frize-se - de gente que sabe do quanto o País necessita para já ser seu grande futuro e que sonha, conseqüentemente, com uma Pátria liberta dos entraves atuais e infensa aos que possam vir. Saímos do Teatro com a sensação de que, já em 80, os responsáveis pelos destinos nacionais deveriam ter procurado os caminhos suscitados por Achados e perdidos, em razão do que teriam colocado a Nação no rumo certo, sem deslizes governamentais, sem fome da população, sem desemprego das famílias e sem tanta violência urbana.
Tornamos nosso o entusiasmo dos frenéticos aplausos com que a compacta platéia homenageou Paulo Neves, seus coadjutores Marco Giaferi, André Rodriguez e George Vidal, bem como aos artistas Ariene, Assis, Bruna, Camila, Carla, Daniela, Danielle, Douglas, Faíza, Guilherme, Larissa, Leonardo, Márcia, Marielle, Michele e Viviane, mencionados na ordem alfabética (perceberam, né?) porque na do merecimento não se poderia fazer, pois todos merecem a nota máxima (10, 100 ou 1.000) e caminham lado a lado, de mãos dadas, como irmãos, certo? Oxalá, alguém pudesse promover essa teatralização, também, nos principais centros políticos e administrativos nacionais! É a nossa esperança! E a nossa opinião. (O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado)