07 de julho de 2026
Geral

Começa a piracema

Redação
| Tempo de leitura: 4 min

O mês de novembro marca o início, nos rios brasileiros, do fenômeno denominado piracema. É o momento em que os peixes procriam, um instante delicado, pois a qualidade de água que estes peixes têm à sua disposição piora a cada ano. Nesta edição, chamamos o triângulo da preservação para assumir as suas responsabilidades. Caso contrário, em breve este fenômeno, ainda visível, vai fazer parte apenas da história.

Quem gosta de pescar já percebeu que a cada ano que passa diminui a quantidade de peixes nos rios. E quando eles aparecem, são de pequeno tamanho, pois os maiores, que chamamos adultos, já foram vítimas de uma das milhares de redes e tarrafas que diariamente entram nas águas, numa tarefa insana que é efetivamente acabar com a fauna aquática.

O pescador tem a sua responsabilidade neste triângulo, pois ao armar a sua rede, na maioria das vezes clandestinamente, vai acabando com os peixes que teimam em existir. O que mais caracteriza este pescador é o fato de que, para ele, é uma glória propagar que num único dia pegou 70, 80 quilos de curimbatá nas águas do Mogi-Guaçu, ou que encheu três sacos de peixes nas águas do Jacaré, por exemplo.

Este mesmo pescador já percebeu que a cada ano, devido a esta ação praticada milhares e milhares de vezes por dia, encher três sacos ou capturar 80 quilos de peixe na rede fica mais difícil. E assim ficará cada vez mais até o momento em que constatar que a fauna aquática acabou. E toda a glória que sentia é estrada sem volta.

Os pescadores precisam, de uma vez por todas, entender que piracema é o momento em que os peixes reproduzem. Ao reproduzirem, criam novos individuos que, se sobreviverem, também procriarão um dia. Assim mantido este círculo, caberá à própria natureza encarregar-se do controle das espécies, promovendo o equilíbrio que sempre promoveu e cuja ação humana continua a destruir. Muitos pescadores conscientes aproveitam o período da piracema para dar um descanso aos rios e optam pelos pesque-pague para a pescaria do fim de semana.

Consciência política

Prefeitos, vereadores, deputados estaduais, federais, governadores e, por que não, o presidente da República, têm a maior responsabilidade neste triângulo. Mesmo que as duas classes anteriores cumpram a sua parte, pouco adiantará se as águas continuarem a receber toneladas e mais toneladas de lixo diariamente. É errôneo pensar que somente os peixes vão acabar. Se as águas continuarem como estão, vão acabar. E quando atingirmos este ponto, adeus raça humana.

A parte que os políticos devem cumprir é a de dotar as cidades de estações eficientes de tratamento de esgoto e dejetos industriais para que estes materiais, quando atingirem os rios, estejam isentos de qualquer potencial tóxico. Além disso, toda cidade que é banhada por um rio, deve ser obrigada a promover um trabalho anual de alevinagem. Por meio da soltura de alguns milhares de alevinos, compensa-se, mesmo que em parte, o prejuízo.

Além disso, devem prover as entidades fiscalizadoras de recursos suficientes para que executem a sua tarefa, além de promoverem mensalmente os eventos destinados à preservação, como o plantio de árvores e a soltura de alevinos, como dissemos.

E em outra ponta do triângulo estão os fiscais. Junto com a população, devem cobrar instrumentos apropriados para que possam desenvolver bem o trabalho.

Vai acabar

Na início da década de 70, quando o milagre brasileiro já dava sinais de esgotamento, era comum a publicação de fascículos semanais que destacavam a geografia brasileira e a potência do País. Numa destas coleções, busquei a que tratava do Estado de Mato Grosso, e nas fotos da época foi possível ver a quantidade de pintados que lá existiam. Ou de tucunarés na Amazonia, verdadeiros monstros.

Mais de 30 anos depois, diminuiu tanto o tamanho como a quantidade. E é possível que daqui a 30 anos um garoto não saiba o que é um dourado, um curimbatá ou mesmo um lambari. Sendo realistas, não pessimistas, podemos afirmar que tudo isto vai acabar. Para que não aconteça, é hora de unirmos as três linhas do triângulo, aproveitando este momento. Vamos permitir que os peixes desovem em paz e que tenhamos, no próximo ano, pelo menos a mesma quantidade de hoje. Seria uma pena que nossos netos só conhecessem os peixes que hoje pescamos através dos livros.