Feira do livro é sempre um acontecimento inigualável e momento primoroso para difusão cultural, especialmente quando já se fala e até já se convive com o chamado livro virtual. Por que estou lembrando desse assunto? Porque pensando nele não consegui me entender sem o contato direto com os livros. Seria pieguismo ou contrariedade pura e simples ante essa novidade? Acho que não e me explico. Fiquei pensando na troca do livro como o conhecemos, pelo livro virtual.
Será mesmo que as gerações futuras não mais poderão ter esse prazer imensurável que é o de manusear um livro? Segurá-lo, abrir e folhear. Ainda acho esse ato insubstituível. Até as mãos parece que ficam em posição de prece quando pegam um livro. É até provável que você, nessa correria do dia-a-dia, nunca tenha se dado conta disso. Mas observe. É muito bom. Para o destro, é a mão esquerda que o segura. Dedos em leque às costas e polegar a fazer o equilíbrio. A mão direita como em outra prece e a contar num rosário infindo, somente espera o momento de virar mais uma página. O intelecto pronto e receptivo. Nada mais é atrapalho. Nem canseira existe. É tudo paz espiritual. E quer sensação mais divina?
Será mesmo possível trocar tudo isso por um livro virtual? Seria aquele da telinha. Você liga a máquina e a página se abre à frente de seus olhos. Eu não quero nem pensar. Não é querer ser contra a novidade, mas confesso ser difícil admitir. Bem, o nosso livro amigo não foi sempre assim. Você sabe! Na nossa história conhecida, tem-se como certo que foram os egípcios a inventar um meio para escrever. Deram aos sons um conjunto de símbolos que representavam as idéias. Isso ocorreu há muito tempo. Acerca de cinco mil anos atrás. Desenvolveram também várias circunstâncias engenhosas. Desenvolveram a pintura e a escultura, dentre outras. Trabalharam o vidro e criaram o esmalte.
Com os gregos, então, nossa dívida em termos culturais é pesadíssima. Os fragmentos de sua cultura escapes da destruição através dos tempos, aliados ao que ficou das Escrituras Hebraicas, ainda exercem uma enorme influência em nossa civilização atual. E a escrita necessitava fixar-se e isso se fez primeiro nas pedras, depois no papiro e bem mais tarde nas folhas dos livros. E o livro, como hoje o conhecemos, é coisa muito recente em termos de tempo, de história. Parece no entanto insubstituível. Será mesmo insubstituível? Resistirá quanto tempo à chegada do livro virtual? Na verdade, é ainda nos livros que se encontra o manancial incalculável do saber. E os livros, por mais maltratados que sejam, estão sempre prontos a ensinar.
Olha o que há muito tempo já disseram sobre os livros: O que se pode comparar na terra ao suave comércio com os livros estes mestres que nos instruem sem castigo, veneráveis anciões que nos abrem, a cada hora, o tesouro de sua experiência, ou virgens graciosas que nos oferecem todo o encanto das suas galas - amigos de todos os dias, que se os chamamos, acodem, se os interrogamos, não se calam, se caímos em erro, ajudam-nos, se os importunamos, não murmuram nem se negam? Sempre juntos de quem os ama, sempre fonte de consolação ou de alegria...
O devotado amador dos livros tem a seus pés o universo inteiro, o passado e o presente, o visível e o invisível, as formas da natureza tangível e os inúmeros sóis da imensidade, as belezas da criação de todos os inventos humanos, em uma palavra, todas as jóias amontoadas pelos séculos, a custa do labor de milhares de sábios. São frases de Ramiz Galvão, escritor gaúcho que viveu de 1846 a 1938 e escreveu entre outras obras, O Púlpito do Brasil.
Poderia alguém ter sido mais feliz no que foi capaz de pensar e dizer sobre os livros? Acredito que não. Penso também que o livro na forma como o conhecemos ainda terá seu lugar por muito tempo nas mãos de muitas gerações e embora a novidade da era virtual, continuará emitindo de suas páginas de papel, não a luz que se pode acender e apagar com apenas um pequeno toque, mas o clarão inconfundível que ilumina as consciências e produz a clarividência e a preciosidade do saber. Bendito esse monumento chamado livro!
(*) C. Sobral