08 de julho de 2026
Geral

Comércio mundial e superpotências

(*) Walden Bello
| Tempo de leitura: 3 min

As manobras pouco limpas que as superpotências comerciais estavam realizando, às vésperas da Quarta Reunião Ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), em Doha, no Catar, são um claro indício de seu desespero. Estão sendo exercidas fortes pressões sobre os países em desenvolvimento para que aprovem a realização de uma nova rodada de negociações comerciais, através da manipulação do antidemocrático sistema de tomada de decisões da OMC e de grosseiras formas de chantagem comercial. A maioria dos países em desenvolvimento quer que a reunião ministerial se concentre em temas relacionados com a implementação dos compromissos assumidos na Rodada Uruguai.

Essa posição foi estabelecida em uma recente declaração do Grupo dos 77, que identificou 104 problemas a serem solucionados. Os países em desenvolvimento estão simplesmente sofrendo sob o peso da execução de 28 diferentes acordos subsidiários compreendidos no acordo da Rodada Uruguai, enquanto as grandes potências comerciais recusam-se a cumprir seus compromissos, ou são muito lentas na sua execução, entre eles os de proporcionar às nações em desenvolvimento maior acesso aos mercados agrícolas e têxteis e reduzir os maciços subsídios às suas próprias produções agrícolas. A União Européia e os Estados Unidos deixaram de lado - temporariamente - algumas de suas diferenças para apresentar uma frente comum para uma nova rodada de negociações comerciais, que se centraria nos chamados novos assuntos dos investimentos, a política em matéria de competição e a facilitação do comércio. Essencialmente, estes são os mesmos temas que fizeram parte de sua agenda comum antes da desastrosa reunião ministerial de dezembro de 1999. Aprendendo com o ocorrido em Seattle, a União Européia e os Estados Unidos suavizaram suas desavenças em questões de comércio agrícola e Washington, aparentemente, não tem a intenção de fazer da conexão entre comércio e normas trabalhistas (principal ponto conflitivo com os países em desenvolvimento em Seattle) uma questão a ser tratada em Doha.

Somente dois meses depois de Seattle, Mike Moore, diretor-geral da OMC, disse aos países em desenvolvimento que o Green Room e o sistema de consenso não eram negociáveis. E assim tem sido até agora. As superpotências econômicas não perdem nenhuma oportunidade de pressionar para a realização de uma nova rodada comercial. Embora os países em desenvolvimento mantivessem sua linha nos meses posteriores ao colapso da reunião de Seattle, muitos observadores temem que seu propósito possa, agora, estar se enfraquecendo diante das pressões concertadas das nações desenvolvidas. Os países comercialmente poderosos podem seguir adiante em seu caminho e atacar por meio de uma declaração que estabeleça a realização de uma rodada global de negociações comerciais em Doha.

Tanto nos países desenvolvidos quanto nos em desenvolvimento, as pressões para salvar as indústrias domésticas, para buscar um crescimento direcionado à demanda interna e para contra-atacar a vulnerabilidade das economias baseadas na exportação em uma época de profunda recessão global, provavelmente, bloquearão todo movimento significativo a favor de mais liberalização. A Quarta Reunião Ministerial pode muito bem converter-se no último hurra! da OMC e do projeto de uma radical globalização econômica da qual era a jóia da coroa.

(*) Walden Bello, da Universidade das Filipinas.