07 de julho de 2026
Geral

Ecos da Guerra

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 7 min

Os eventos desencadeados pelos ataques terroristas aos Estados Unidos podem beneficiar o Brasil

O jornalista Carlos Eduardo Lins e Silva membro do Centro Internacional do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP), acredita que o clima de incerteza na política internacional que se instaurou após os atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos é uma grande chance para o Brasil se destacar. Em visita a Bauru, onde participou do Encontro das Editoras Universitárias, durante a I Feira Nacional do Livro, Silva falou sobre o assunto. De acordo com o jornalista, autor dos livros O Adiantado da Hora e Mil Dias, entre outros, o País pode ganhar espaço diplomático e assumir de uma vez por todas a condição de líder da América Latina se souber como conduzir sua política externa em meio à crise mundial.

Jornal da Cidade - Como o senhor sentiu a reação dos brasileiros ao que aconteceu nos Estados Unidos?Carlos Eduardo Lins e Silva - É evidente que o que aconteceu traumatizou pessoas no mundo inteiro. Todo mundo teve uma reação muito particular de choque, de horror, porque havia uma sensação de empatia muito grande com as vítimas. Também porque grande parte da cultura ocidental sofre uma influência muito grande da cultura americana por conta da penetração dos programas de televisão, filmes, músicas, principalmente no Brasil. O Datafolha fez uma pesquisa para saber como os brasileiros se sentiam diante dos fatos e o resultado foi uma certa desilusão porque os Estados Unidos eram considerados um modelo por grande parte da classe média brasileira. Muitos achavam que era na posição dos Estados Unidos que o Brasil poderia chegar, se desse certo. Houve uma certa desilusão, porque talvez aquele modelo não exista mais.

JC - Como o senhor se sentiu? Silva - Eu morei 11 anos nos Estados Unidos, tenho um filho americano, tenho uma grande simpatia, uma grande admiração pelos Estados Unidos. Eu senti um pouco dessa desilusão e fiquei com um receio enorme de que os atentados pudessem realçar o que há de pior no americano e acabar com o que há de melhor no americano. O que há de pior é o patriotismo exagerado, uma coisa racista que existe no subterrâneo da cultura branca americana. E o que tem de melhor é toda a tradição de direitos civis, liberdade de expressão, garantia dos direitos e cidadania. Esses atentados são uma ameaça muito grande a essa herança cultural fantástica do americano e podem fazer com que se sobressaiam esses aspectos negativos da cultura americana.

JC - O que mais os brasileiros sentiram, na sua opinião?Silva - A pesquisa mostra que muitos brasileiros passaram a dar valor a algumas coisas que caracterizam o Brasil. Por exemplo, ao fato de o Brasil ser um país com pouca, ou quase nenhuma, tradição guerreira; o fato de ser um lugar os as culturas étnicas se misturam com menos conflito do que nos Estados Unidos, ou seja, um lugar com um certo caráter pacífico que faz com que as pessoas se sintam com mais segurança, pelo menos no aspecto político e cultural. Eu acho que também está ocorrendo no Brasil, nessa psique coletiva, um recrudescimento do anti-americanismo, porque a guerra contra o Afeganistão, se se prolongar, como parece que vai se prolongar, vai causar uma série de acidentes e muitos civis inocentes vão morrer. Tão inocentes quanto os que morreram no World Trade Center.

JC - O que o senhor acha da ação americana?Silva - Não acho que seja uma guerra. Guerra é expressão usada pelo governo Bush para caracterizar uma situação a seu favor, porque na verdade não houve o ataque de um Estado aos Estados Unidos, e sim de um grupo de pessoas contra o país. Por que não estão atacando a Arábia Saudita, se 17 dos 19 terroristas são sauditas? Por que o Afeganistão? O atentado foi um crime de caráter político. A dificuldade dessa guerra é que, ao contrário da Guerra Fria, não há sistemas em confronto, não é um choque de civilizações. Na verdade é terrorismo contra não-terrorismo. Não existe o bem e o mal, por isso não é uma guerra, se é que é guerra, ideológica. Em segundo lugar, é uma guerra difícil porque, se é uma guerra que defende os chamados valores ocidentais há um problema porque são esses valores que estão em risco dentro dos Estados Unidos com essa defesa em que se pode usar tortura para tirar informações dos presos, com a censura da imprensa, com a discriminação racial nos aeroportos... Você não pode defender os valores minando os valores.

JC - Quais os efeitos disso tudo no Brasil?Silva - No aspecto político, fortaleceu-se o Governo Fernando Henrique no Brasil. Fortaleceu-se a presidência e a imagem do governo. Em toda situação de crise, a tendência é procurar aquele que dá mais segurança do ponto de vista de conhecimento e cultura e, nesse caso, é claro que o Fernando Henrique leva mais vantagem do que os outros no cenário político. E ele está aproveitando isso muito bem, foi à França e fez sucesso, se encontrou com o Bush... É nesse campo que ele se sai melhor. As pesquisas mostram que desde 11 de setembro a popularidade dele aumentou, o nível de aprovação do governo dele cresceu. Isso o fortalece e, por extensão, os candidatos que ele vier a apoiar nas próximas eleições. Inclusive, acho que justifica um pouco uma reversão de política econômica na medida em que, se os Estados Unidos, na situação de crise, permitiram que o estado injetasse dinheiro na economia e nos setores privados, por que aqui também não? Isso dá fôlego a algo desenvolvimentista do governo e do PSDB, que também sai lucrando desse episódio.

JC - E a economia?Silva - Economicamente, pelo menos no primeiro momento, os atentados agravam o cenário recessivo, mas, por outro lado, os atentados fazem com que se pensem em substituição de importação, no Natal verde e amarelo, no nacionalismo, então, também tem um aspecto positivo, apesar das quedas de exportação para os Estados Unidos.

JC - Que posição o Brasil deve tomar politicamente?Silva - Existe também a questão geopolítica e é a questão mais interessante de todas. O Brasil se sobressaiu de imediato na América Latina. Na minha opinião, a decisão de invocar o Tratado Interamericano de Defesa Recíproca foi uma decisão muito bem acertada pelo governo brasileiro, porque restringe a ação ao que se faz no, continente e deu ao Brasil uma proeminência que foi reconhecida pelo governo americano. O Brasil ganhou pontos com o governo americano e superou o México, que é o parceiro privilegiado do Governo Bush, mas que se opos à invocação desse acordo. Isso reafirmou a liderança brasileira no Continente e no subcontinente também. Eu acho que há uma oportunidade muito grande de o Brasil ganhar espaço diplomático, geopolítico, sem precisar quebrar sua tradição pacifista, sem precisar oferecer tropas ou navios. Mas não pode só ficar nisso se o Brasil quiser uma posição de maior envergadura nesse episódio todo. É claro que o governo americano não quer que os países fiquem só na expressão de simpatia. O governo brasileiro deveria propor algumas coisas muito úteis para o próprio Brasil, por exemplo, algum tipo de repartição de informações obtidas por serviços de inteligência, principalmente na área econômica. Acho que um dos efeitos mais positivos do Brasil que esses eventos podem ter seria a possibilidade de se acabar com os paraísos fiscais que existem pelo mundo e podem, em grande parte, financiar ações terroristas. Acho que o Brasil também poderia tomar a dianteira para que houvesse no continente americano, procedimentos comuns de embarque a aeroportos, de alfândegas, controles de fronteira, o Sivan deveria ser colocado em prática para controlar as atividades nas fronteiras e o País também poderia liderar um processo de padronização de identificação no continente. Não de identificação comum, mas nos passaportes, para evitar a falsificação.