09 de julho de 2026
Geral

Gírias afiam a língua da galera

(*)Luly Zonta
| Tempo de leitura: 3 min

Como eles dizem, de porre em porre nasce uma gíria. Elas podem durar uma noite ou a vida inteira, virando até verbete de dicionário. Mas em geral, a vida útil de uma gíria varia entre três meses e um ano, dizem os adolescentes que entendem do assunto.

O estudante Cláudio Tomazini é expert em gíria. Ele conta que 99% das coisas que fala tem pelo menos uma expressão que não se encontra em gramáticas, principalmente quando está entre amigos. Se um olha para a cara do outro, diz uma coisa, se lembrar, repetir, vira gíria. Se pegar, já era... hiberna.

As colegas de Cláudio, Helena Paula Bertasi e Camila Sgavioli, confirmam a teoria do amigo. Revelam um repertório invejável e apontam que até os pais fazem parte do processo. Camila conta que a mãe, Sueli, também é chegada numa linguagem mais solta, mas não é coisa que a gente usa, a gente até reaproveita alguma coisa

Ao ser abordada sobre o uso de gírias, Cínthia Pisani Marolla dispara: Sei lá meu, que tipo?. Mesmo assim, tanto ela quanto o amigo Matheus Bacci Martins afirmam que estão ficando velhos (os dois têm, respectivamente, 19 e 18 anos e fazem cursinho) e abandonando os velhos hábitos. Eles admitem que diminuiram consideravelmente as gírias do vocabulário e hoje são adeptos apenas das gírias que consideram eternas, como massa, tipo e manero, e se recordam que usavam as expressões desde o primário.

Dá para perceber que a gíria muda de um grupo para outro ou de uma escola para outra com uma facilidade ímpar Matheus cita que disseminar uma gíria é muito fácil e todo ano se aprende uma palavra nova. Da mesma forma que, basta viajar para outra cidade para encontrar novas expressões. Em São Paulo não tem uma pessoa que não fale mina para uma garota.

Entre os rapazes, a gíria cria verdadeiros códigos. Danilo de Oliveira Gomes, Guilherme Rocha Ungaro e Vitor Francisco Torres Batista explicam que existe até uma coreografia para a gíria pau na mula, que segundo eles significa chavecar uma menina. Quando a paquera vai acontecer, para comunicar um colega eles cruzam os braços na altura do punho e giram a mão que fica por cima. Os três rapazes afirmam maneirar na hora de usar gírias em casa. Vitor ressalva que o uso da gíria depende muito do assunto e do grupo. Não dá para falar com o professor cheio de gíria, né?

Não podemos esquecer que nossos pais também foram adolescentes e em tempos muito mais rebeldes. Jovens nos anos 60, Sueli Sgavioli, mãe de Camila, e Antônio Sebastião Urias Cabreira, pai de André, trazem, até hoje uma expressão de sua época no vocabulário.

Jóia, tá legal, tudo bem numa boa e OK ainda são usadas pelos pais, que já se acostumaram com as gírias dos filhos.

Adepta do pra frentex, Sueli entende o modismo de cada tempo, que é responsável pelo surgimento de novas gírias. Extrovertida por natureza, ela revela que muitas vezes fala uma gíria e nem percebe, mas aponta que o marido e o filho mais velho têm um vocabulário mais comedido.

Analisando as origens das gírias, tanto Sueli como Cabreira apontam a Jovem Guarda como o movimento responsável pelas gírias eternas. Ao contrário do movimento hippie dos anos 70, que era extremista e marginalizado, os seguidores da turma do Roberto Carlos atingiam todas as classes sociais e todas as idades.

Uso gíria eventualmente, depende da situação. Apesar de viver muito perto de meus filhos, confesso que desconheço algumas das gírias de suas turmas, principalmente as mais pesadas. Não imagino também o que punks e metaleiros devem estar falando por aí, diz Cabreira, que é viúvo e criou os quatro filhos sozinho. Ele confessa que andava na contramão da moçada de sua época, fazia parte de uma turma mais calma e lia muito, abriu mão de modismos e apresentou aos filhos brincadeiras de rua, como pipa, pião e garrafão, raras hoje em dia.

Ele não recrimina o uso de gírias, mas reprova o palavrão desnecessário e os erros de português. Na minha casa tem dicionário para todo lado.

(*)Luly Zonta/Especial para o JC