08 de julho de 2026
Geral

Conceitos de morte podem prejudicar pacientes terminais

Redação
| Tempo de leitura: 5 min

Conceitos de morte de algumas religiões podem prejudicar pacientes terminais. A informação é da psicóloga clínica Carmen Maria Bueno Neme, que é supervisora da área clínica no Departamento de Psicologia da Unesp e acredita que o segredo é a fé, quando aliada à autoconfiança.

O assunto foi tema de uma palestra ministrada na Jornada de Psicossomática e Psicologia Hospitalar, realizada na última quinta-feira, no câmpus da Unesp de Bauru, e coordenada por Carmen.

Para a psicóloga, a fé é um fator muito importante na resistência da pessoa para enfrentar a doença. No entanto, é necessário que a ela venha acompanhada de autoconfiança. Não adianta a pessoa depositar tudo num Deus fora dela, afirma.

A pessoa, portanto, tem que ter participação ativa no tratamento da doença ou problema que está enfrentando.

As concepções religiosas influenciam muito na maneira como as pessoas lidam com a doença e no modo como encaram a morte, de acordo com Carmen. Ela destaca que isso varia de pessoa para pessoa, numa mesma religião. No momento de enfrentar a morte, aquilo que a pessoa pensa da vida e da morte em face de uma concepção religiosa começa a sobressair. É nessa hora que as pessoas lembram de Deus e disso tudo, observa.

Para Carmen, é importante que o profissional de Saúde, em especial os psicólogos, entendam as diferentes concepções religiosas para que possam argumentar com o paciente, quando necessário. Por exemplo, as pessoas têm muito sentimento de culpa, medo de irem para o inferno e serem punidas, frisa.

Outro aspecto ruim, na opinião da psicóloga, é quando o paciente aceita os fatos de modo muito passivo, justificando que é a vontade de Deus. A passividade prejudica na evolução da doença e do tratamento por que ela tem que passar, diz.

Carmen enfatiza que a importância da fé - que teria até mesmo poder de cura -, desde que o centro de controle da situação seja o próprio indivíduo. Quando ele tem uma fé cega depositada fora e tem uma piora ou mais um problema para enfrentar, ele perde a fé e entra num processo de depressão. Ele abandona a luta contra a doença, expõe.

Entre as pessoas que têm esse tipo de relação com a fé - em que o centro de controle está fora do indivíduo - é comum acontecer essa apatia, principalmente em casos de doenças graves, segundo a psicóloga.

Embora o problema possa ser conseqüência de concepções religiosas rígidas, muitas vezes ele decorre da interpretação da religião por parte do fiel. Conheci um caso em que o líder religioso disse para não fazer tratamento médico. Era um caso de leucemia. A família seguiu a orientação e acabou perdendo o parente, conta.

Auxílio

A crença pessoal do profissional de saúde não importa, mas o conhecimento dele sobre as diferentes concepções religiosas pode ajudar na argumentação para recuperação do paciente, na opinião de Carmen. Podemos ajudar o paciente a refletir e tomar uma outra posição; flexibilizar sua ação.

A jornada realizada na Unesp teve como objetivo apresentar aos participantes diferentes concepções de morte em algumas religiões.

Hoje em dia, o assunto é tratado mais abertamente em diversos setores da sociedade, entre eles a área da Psicologia, que criou a Psicologia da Morte. Trata-se de uma ciência que estuda como as pessoas enfrentam a morte e o luto. O luto é uma fase muito importante que pode desorganizar uma família ou uma pessoa, esclarece.

A psicóloga acredita que discutir o tema é importante não só para auxiliar as pessoas a encarar a morte de uma forma menos temerosa, mas também para auxiliar os profissionais de saúde a tratar o assunto com mais naturalidade. Ainda existe muito tabu em falar sobre morte, destaca.

Diferentes concepções

Católica - Na visão católica, a morte jamais é tratada como um fim, de acordo com o padre Raulino Coan. No entanto, o destino de cada um após a passagem pela vida humana seria determinado de acordo com os feitos de cada indivíduo em vida. O importante é se a pessoa viveu contra ou a favor dos projetos de Deus. Você vai viver a eternidade a partir disso. A morte, portanto, oficializa o que você viveu na Terra, afirma o padre.

Ele explica que as pessoas que não realizam atos bons estão na situação de erro e pecado. As mortes de pessoas tranqüilas são serenas, bonitas. Quando a pessoa não encontrou seu projeto de vida, não morre bem - mesmo terminando a vida, não sabem porque nasceram, expõe.

Padre Raulino Coan acrescenta que, para os que vivem de acordo com suas cabeças e corações, depois da morte só existe amor.

Evangélica - Segundo o pastor Geraldo José Cremonezi, a principal morte é a morte espiritual, marcada pelo desligamento com Deus e ligada à desobediência. A Bíblia nos fala que ela está ligada à questão do pecado. As coisas não evoluem enquanto as pessoas não assumirem seus erros, em determinadas situações. A morte física não é o ponto final, observa.

O pastor conta que, para as pessoas que se reconciliam com Deus, está reservada a continuação da vida, no plano espiritual. Permanecemos com Deus se tomamos essa decisão em vida. Não acreditamos em volta. Cada um tem uma vida só, conclui.

Espírita - O espiritismo parte do princípio de que a morte não existe, de acordo com o autor e espírita Richard Simonetti. A morte é simplesmente um retorno à pátria. Estamos na Terra como alunos num educandário. Estamos aqui para aprender e evoluir. Todos nós estamos a caminho da perfeição, expõe.

Para o espiritismo, a morte física é vista como apenas uma passagem. Quando cessa a vida física, o espírito apenas inicia sua retirada. Para nós, não existe esse aspecto mórbido e tétrico, salienta.

O autor afirma que os adeptos do espiritismo tendem a encarar com tranqüilidade a morte, por encará-la como uma separação transitória das pessoas queridas. O espiritismo vem numa vanguarda de esclarecimentos da sociedade sobre essas questões, frisa Simonetti.